O início do fim

Nem tudo são flores em um casamento. E como ouvi de uma amiga outro dia, elas, as flores, devem estar pelo menos ao chão, que seja. Para que o seu perfume esteja presente no dia-a-dia desta aventura a dois.

Mas não existiam mais flores.

Eu olhava diariamente para o chão, para o teto do quarto, para os cantos, buscando o perfume em algum lugar, em qualquer lugar. Mas só o que eu via era a luz baixa de duas crianças que iluminavam aquele túnel escuro no qual eu me encontrava.

Acredito que de alguma forma este seja o lugar onde o casal em processo de distanciamento se sente. Não se acha nada, nem a si mesmo na escuridão. E entre saídas e entradas em consultório de terapia de casal, viagem “salva casamento” e jantares mudos a dois, nada. Nada mais. E o melhor que se tinha no momento era uma boa taça de vinho ou uma refrescante espumante. Uma comédia esdrúxula no Netflix ou qualquer coisa que me levasse a viajar, a sair dali. A ter a sensação de liberdade, de flutuar sob aquele universo agora árido e irreconhecível.

Só que todo o fim precisa de um ponto. Um ponto final. E eu não estava achando este ponto, já que ele se encontrava em tantas coisas do meu dia-a-dia. Foi então que fui a Nova Iorque para uma viagem de reciclagem profissional. Sozinha. E nada me tira que é sozinho que achamos o ponto. Ele é pequeno, exige atenção, exige olhar para dentro. Exige olhar de fora. Ele ficava, pelo menos em mim, entre o meu esôfago e o meu estômago, o que me tirava realmente o apetite.

E foi lá, na cidade de Nova Iorque que pude enxergar de fora a caverna escura na qual estava vivendo já fazia uns dois anos, dos 10 de casada. Quando vi as luzes de Nova Iorque. Quando, daquela cidade, olhava para a minha vida e não queria mais voltar para casa. Acho isso simbólico. Não querer voltar para casa é um sinal importante. Pois pela ausência de luz, de saída, que tanto me afligia, deixava ofuscar o brilho mais precioso que lá se encontrava. O da presença dos meus filhos. E para mim, até então, o meu problema era uma luz de emergência que piscava pequenina.

Até o holofote que Nova Iorque empunhou em direção à minha vida.

Existem muitos motivos para um casamento terminar. Tem vezes que é a escuridão da solidão. Tem vezes que é o adultério, real ou imaginário. Ou a falta de confiança. Outras a baixa tolerância à rotina familiar. Outras quando o amor, no processo de transformação, se perde. Desaparece.

No meu caso foi a escuridão, que se fez ver nas luzes de Nova Iorque.

 

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