Dia D: Conversa de Família

Passado o momento de decisão quanto ao fim do meu casamento e aos seus alinhamentos, chegara o dia de contar para eles, os nossos filhos, o que seria das nossas vidas daquele dia em diante.

Fazendo um parêntese aqui – ou mais de um – considero que este é um momento que exige alguns esclarecimentos e que exige principalmente a verdade. Cabe ao casal a tomada de decisão quanto a sua vida conjugal. Sou eu quem decide com quem eu durmo, com quem divido contas, sonhos e pesadelos. Na minha opinião, essa é uma posição bem pessoal, que não envolve a mãe, a sogra, o melhor amigo ou a terapeuta. E para mim isso nunca foi pauta com ninguém. Não permiti que fosse! Que dessem opinião quanto ao que era melhor para mim.

Eu sabia o que não era bom para mim, e isso já me bastava.

Porém, superado o fato de que em “briga de marido e mulher ninguém mete a colher”, e que “cada um sabe onde o sapato aperta”, existem sim mais envolvidos em um divórcio quando se tem filhos: OS FILHOS. Não cabe a eles opinião, decisão, responsabilidade ou culpa quanto ao fim do casamento dos pais. Mas cabe o conhecimento, a participação inerente, a verdade na exposição e transparência quanto ao veredito.

Portanto, mesmo os nossos filhos sendo muito jovens, eu decidi que não iria tratá-los como bobos. Ou como seres incapazes de perceber o que estava acontecendo à volta deles. Pais não precisam brigar para que os filhos percebam que as coisas não vão bem. Eu e o pai da Joana e do Joaquim não brigávamos. Porém a dita verdade sempre bate à porta. Tem vida própria. E não precisa ser conhecida abertamente para existir e fazer doer. Já fazia um ano que a minha filha entrava e saia de consultórios médicos e hospitais com pequenas mazelas. Ela sofria com muitas tristezas. Isso durante todo o ano anterior ao meu divórcio. Aquela verdade já batia à porta dela, da minha pequenina…

E foi em um almoço de verão que nos encontramos todos em casa para almoçar. Para oferecer a eles aquela verdade que os filhos precisam conhecer quando se trata de família. Para digerirmos juntos o que não tinha mais remédio. Para o que é, ou que não é. E no nosso caso, não era mais.

Fizemos os quatro um círculo na cama e de mãos dadas contamos aos nossos filhos que o namoro do papai e da mamãe havia acabado. Explicamos que eles jamais estariam sós. Que estaríamos para eles, por toda a vida, juntos nesta empreitada.

Juntos, mesmo que separados.

Eles tinham quatro e cinco anos. Jamais vou esquecer o choro calado dela. Seus olhos verdes ardósia conhecendo a nova realidade da sua família. Ah, pequenina…. Ela encarou que não seríamos mais nós quatro naquela casa. Mas sempre em suas vidas. E ela entendeu isso de cara. E doeu. E descobriu que a verdade é boa, mas dói. Que mudar é preciso, mas dói. Que crescer é da vida, e dói. Mas que a verdade cura. Que com ela fomos bons um com o outro e com eles. Legais com a vida. E ela entendeu que ia doer, mas que era da vida.

E assim é até hoje. É da vida. E talvez o maior legado daquele círculo rompido é que ele ensinou que a felicidade se busca. Que crianças precisam de pais, não de casais. De verdades, não de abnegação. De vida real, não de montagens. Precisam do amor da mãe e do amor do pai. E de quem mais der e vier. E precisam de paz. E então a vida segue.

8 comentários Adicione o seu
  1. Adorei teu texto! Lembrei de mim! Passei por esta mesma situação, a força para seguir em diante é a baseada na confinaça de estar fazendo o melhor para todos os envolvidos, pais e filhos.

  2. Tem um velho ditado que diz: “depois da tempestade vem a bonança “. Participei da tua tempestade, chorei e sofri contigo, mas sabia que, o tempo ia mudar. E mudou. Veio a bonança, e veio junto a alegria dos nossos pequenos, a tua alegria. E vendo a felicidade de vocês, meu coração ficou aquecido e em paz.
    Parabéns, filha! És uma mãe maravilhosa para teus pequeninos! Bjs no coração.

  3. volto a te dizer, ler teus textos nos fazem vivencia-los. Parece que estamos juntos de mãos dadas, em circulo, na cama. Segue. beijo grande

  4. Linda Ju, revivo muitos momentos da minha vida lendo teus textos, com meus pequenos Nicolas e Marina na época com 5 e 3 anos e, me dispo de algumas culpas que muito carreguei! bjs

  5. Nossa Ju, isso parece um filme amiga, um filme da vida…..é incrivel a maneira com que escreves, conseguimos imaginar a cena, o momento e ate o sentimento de vocês…minha linda, parabens, orgulho da minha amiga cronista….muito feliz com a certeza de que agora transbordas de felicidade❤️❤️❤️Um grande e carinhoso beij, Lê

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