Sobre se enfrentar

Quem tem filhos, desejou-os, e de fato se permite exercer na essência a maternidade, já se deparou com a expressão “ninho vazio” em conversas com outras mães ou casais que vivem ou viveram essa experiência: a de ver os filhos baterem asas para fora de casa. Para mim, era uma expressão familiar, porém ainda longínqua. Ou pelo menos assim era até meu ex-marido sair de casa e com ele o direito de, fora daquele ambiente, estar com os filhos em todos os momentos.

Quando a gente se separa, o pai estar com os filhos passa a significar a mãe não estar. E vice-versa. Fora raríssimas exceções, é assim que funciona. E confesso que quando a insuficiência do meu casamento bateu no limite, não dimensionei exatamente o peso dessa questão: os meus filhos não estariam mais comigo o tempo todo. Dividiríamos aniversários, caça aos ovos de Páscoa, Dia das Crianças, noites de Natal, feriados, finais de semana. Noites e dias. A vida deles. E essa foi para mim mais uma etapa de descobertas. De mim, das minhas capacidades como mãe, de mais uma sala escura a qual precisei iluminar.

Após a saída do pai dos meus filhos, ficou estabelecido que aquele primeiro final de semana seria dele. Era um feriado de Navegantes. Três longos dias. Três dias nos quais me sentia fragilizada de cogitar estar entre pessoas ou estar em qualquer outro lugar que não na segurança da minha casa. Passei três dias completamente só. Três dias normais, sem os meus filhos. Três dias anormais. Me engasgo toda a vez que lembro daquele final de semana quente de sol.

Foram três dias e três noites de roupa de banho, eu acho, dado o calor infernal. Só lembro de colocar aqueles trajes no sábado e tirá-los na segunda. Na segurança da minha casa. Senti naquele momento o maior vazio da minha história. Foi como se tivessem tirado de mim os meus filhos no parto, os meus dois bebês. Como que protegidos de mim, da própria mãe. Protegidos pela decisão da qual faziam parte. São tantas fantasias que passam na cabeça da gente nesse momento…. Quem iria acudi-los se caíssem? Eles não estavam sob minha proteção, sob meus cuidados, sob o meu amor infinito. E o abraço de mãe no choro da noite… aquele que acalma? Quem encantaria o meu coração, sozinha naquela casa? É aí que você se enfrenta. Seus medos, sua maternidade, sua competência, suas consequências, sua solidão. E foi então que eu conheci um coqueiro.

Você não deve estar entendendo a ligação entre meu primeiro final de semana sem eles e um coqueiro, não é? Começo então esclarecendo que foi um coqueiro que me salvou. Que no auge do meu “ninho vazio”, desnorteada, fui em busca de uma saída e encontrei em uma floricultura um coqueiro. Enorme, daqueles que as pessoas que tem casa plantam na frente e que dão aquele ar tropical e de paz ao lar. A minha casa não tinha jardim, mas eu queria tanto a paz para o meu coração que comprei um vazo e aquele coqueiro. O vendedor disse que eu jamais conseguiria planta-lo sozinha, que ele pesaria pelo menos duas de mim. Um peso morto. Mas que nada! Um peso vivo. Vivíssimo! Que me deu vida por três dias naquela casa vazia. Três dias plantando um coqueiro. Carregando ele da entrada da casa, pouco a pouco, perdendo terra, colocando força, vertendo lágrimas. Até o limite do fundo do terreno, onde seria sua nova morada, a do coqueiro, e a minha morada de paz.

E foi ali que plantei minha primeira árvore. Na morte do meu calendário diário e infinito com os meus filhos. No dia em que aprendi a não os ter somente nos braços, mas no coração. Onde aprendi que mesmo tão pequenos, não eram só meus. Eram do pai, são da vida. Onde experimentei tão cedo o meu ninho vazio.

Até hoje meu cunhado e a minha irmã, para quem doei o coqueiro quando da nossa mudança para um novo lar, me perguntam como plantei sozinha uma árvore daquele tamanho.

A minha resposta? Ah, com toda força do amor, da mãe de um ninho por vezes cheio, por vezes vazio.

 

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