Logo que me separei, o meu primeiro final de semana sozinha com as crianças foi na casa de praia dos meus pais, em pleno Carnaval. A viagem era curta. Era o lugar mais fácil para aquela nova família que tínhamos nos tornado. Mãe e dois filhos. De certa forma, havia a ajuda do vovô, da vovó e das minhas irmãs, já que agora éramos eu e um casalzinho de 4 e 5 anos iniciando uma vida diferente. A família tratava minha nova condição com respeito e proteção. Meus filhos estavam em terreno amigo, cheio de carinho e cuidado. E eu podia descansar.

Entre um chimarrão e outro, a minha madrinha, que estava de visita, desejou-me um novo amor. Vislumbrava que logo eu estaria casada de novo, que era o que eu merecia depois da minha coragem de mudar, no auge dos meus 35 anos. Aquilo me arrepiou na época. Era tão difícil imaginar um homem de novo na minha casa que eu prontamente disse que isso jamais iria acontecer de novo. Jamais. Jamais! Quem sabe namoros, alguma paixão… mas um marido? De jeito nenhum!

Só que existe aquele ditado, no qual eu acredito, que diz que Deus quando fecha uma porta, abre uma janela. E foi por uma janela improvável que uma pessoa muito legal entrou e conquistou seu espaço quando o meu coração estava vazio, chato e cansado. Ele apareceu e trouxe sonhos de volta para mim. Reais, maduros e claros como água. E doces, como a vida deve ser. E eram para mim. Porque desde a separação só me importavam as crianças, e a vida que eu queria garantir a elas.

Pessoas felizes criam crianças felizes. Já ouviram isso? E esse amor já me fazia feliz. E me fazia valorizar e passar esperança, bons valores e ensinamentos resilientes àquelas pequenas pessoas em formação. E eles pegam tudo. Como disse antes, a verdade bate à porta. E crianças são um terreno que a verdade adora, acreditem. Percebem cada detalhe. E assim perceberam a minha mudança, a minha improvável felicidade, a minha renovada alegria de viver. E amor tem tudo a ver com alegria de viver. Era mais divertido estar com eles, achava mais graça das coisas, das nossas novas rotinas, daquele tanto de mudança. Minha nova vida estava se iluminando. Eu agora via que a vida podia ser mais completa. Que eu podia ter as minhas duas maiores razões na vida e ter um amor. E ser amada.

E foi aí, antes que ela me pegasse, a espertinha Joana, que eu resolvi dividir com ela o que estava me fazendo mais feliz. Mais do que já era como mãe. Joaquim, ainda era um pequenino. Bastava para ele me ter bem. Por isso me concentrei nela. E em uma volta da escola resolvi contar que estava gostando de uma pessoa, que ela já o havia visto uma ou duas vezes. “Aquele amigo legal da mamãe, sabe?” E disse que ele gostava muito de mim. E deles. Que ele desejava em sã consciência entrar nas nossas vidas. Viver conosco. Abraçar nós três.

Para a minha surpresa ela me observou, e disse que não queria falar no assunto, não naquele momento. Que estava cansada. E ela não estava, só não estava pronta. Precisava pensar em como lidar com aquilo. Com o novo. Com o real fim da realidade que ela conhecia, que tinha em sua memória infantil. O casamento do pai e da mãe. E eu respeitei, e calei.

Dois dias depois, me aparece aquela pequenina dos olhos verde ardósia com a proposta de voltar ao assunto. Não me refiro a uma mocinha. Quero lembrar que ela só tinha seis anos. E ela me disse que achava tudo muito rápido, mas que me queria feliz. Que agora conseguiria conversar. Que queria saber mais. Que queria conviver com aquela possibilidade nova. E me pediu que não contasse para o pai. Ela surpreende. Protegendo sempre a quem mais ama. Protegendo a mim, à minha felicidade. Protegendo ao pai, à ilusão de que aquele casamento passado ainda pudesse ser objeto de desejo dele.

E isso acontece até hoje. Essa menina acolhe com carinho cada uma das suas partes. De suas famílias. E fico pensando no papel que temos de ensinar aos nossos filhos sobre a imensidão que é o amor. A importância de fazermos movimentos com afeto. Quando ele é presente, é exemplo, ele não falta. E no coração, espaços novos vão se criando, com novos nomes, com novos significados.

E assim, a nossa família recebeu mais um integrante. Naquele mar de amor que preservamos sempre em nós. E muitas histórias vivemos neste caminho, nem todas fáceis. Vou contá-las aqui. Muitas que trouxeram o medo mais profundo de sermos incapazes de reconstruir uma nova família com um outro homem, que não era o papai. Mas deixamos acontecer, e ele se tornou mais. Se tornou o Tio Lê. Um padrasto açucarado, um mais-que-tio, um pai do coração. Retribuindo com amor o lugar criado para ele com tanta bondade de criança, ao lado da mãe.

Nem sempre encontramos o amor. Pode-se passar pela vida sem vivê-lo. O que sei é que é preciso tê-lo no coração. Quando não falta, ele pode encontrar o amor no outro, e quem sabe, abrir uma janela.

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