Tem alguém no lugar do papai. Calma, não estou começando a 3ª Guerra Mundial. Não se trata da posição de pai aqui. Da substituição da paternidade. Do desvio do afeto. Não, não era essa a conotação dos olhares deles. Meus filhos têm pai, um pai presente, que eles amam e reconhecem. Não era no lugar de pai que tinha alguém. Era o preenchimento do espaço dele, antes ao lado da mamãe. E tinha alguém ao lado dela.

Observava as crianças atentas a cada gesto daquele novo homem. Cada fala, cada carinho dado à mamãe deles. Cada demonstração de afeto dirigida a eles. Tinha alguém no lugar do papai. Puxa, entrou alguém. Percebia a ambivalência dos pequenos no início, quando com aquele acontecimento morria a possibilidade daquele lugar ser do papai de novo. Mas o prazer de ter aquela nova companhia, aquele novo amigo, tomou conta logo. Quando a primeira possibilidade ficava cada vez mais distante, mais remota. Quando aquela casa foi tomada pela sensação de segurança, de cada coisa no seu lugar, da presença do amor. E isso eu descobri vivendo, assistindo acontecer.

Como é importante para a criança a posição das coisas e das pessoas nas suas vidas. Como lugares vazios não são bem-vindos.

Aquela presença nova, para a minha sorte, já começara bem quando a empatia foi geral entre os três. Se gostaram. Isso já foi grande coisa. Estavam os três a fim. Os três abertos. Cada um com os seus motivos, cada um cumprindo a sua lacuna. E eles me amavam. E eu estava feliz. Então acredito sinceramente que todos queriam que aquilo desse certo. E esse foi o nosso primeiro grande passo para aquela nossa nova família.

Mas o maior desafio aconteceu primeiro no mundo dos adultos, quando o espaço e a confiança tinham de ser dados por mim. Só pensava na segurança. Aquela que se eu não desse a ele, ao meu amor, ao Tio Le deles, para agir, ele não a teria para tal. Nem para me ajudar no objetivo maior de educa-los, já que era agora parte da nossa família e do nosso dia a dia, nem para ama-los. Quem sabe como um pai. E para o amor acontecer ele precisava tê-los. E eles a ele. É uma via de mão dupla. E eu dei. Com a fé que se tem na vida, no bem, no amor. Com a fé que eu tenho nas pessoas. Que eu tinha no meu parceiro. Que eu tinha nos meus filhos.

Segurança e confiança me parecem ter a mesma relação do ovo e da galinha. Quem vem primeiro? Segurança ou confiança? Tanto faz.  São ambos importantes e um depende do outro. Eles fazem com que acreditemos na gente. E no outro. Tive que construir a minha segurança e a minha confiança durante a vida. Elas não me foram dadas. Mas sempre me prometi que facilitaria o caminho para os meus filhos, quando desde pequeninos tiveram elas de mim. Desde a minha autorização para levar um copo de vidro de uma mesa a outra, aos momentos em que a versão que me valia quanto a uma arte ou acontecimento infantis era a deles. E ali se desenhava o cenário perfeito para atuarem, os três, sob meu olhar atento. Sob a minha admiração.

E eles construíram uma relação sólida, independente de mim. Em paralelo. Só deles. Só dele com ela. Só dele em ele. E assim a Joana e o Joaquim construíram seu presente. Foram operários da sua própria família. De suas vidas. Do que mostraram saber sobre se permitir. A viver uma vida feliz seja no formato que for. Que é. O Tio Le construiu a dele. Diferente, mas dele. Desenvolveu a sua relação de amor, cumplicidade e amizade com aquelas duas pessoinhas, além de mim. Além.

E ensinou futebol, a escovar o cabelo. A se perfumarem, a escrever “nariz” com “z”. A desenhar letra caixa, a passar café. E aprendeu. A se divertir e educar duas crianças. A viver o dia bom e o ruim. A receber o amor de um pequenino e de uma pequenina. Ter a admiração de cada um e o abraço de coração com coração. E uma família se formou por laços de amor, além do sangue. A margem dele, que jamais deixará de existir. Apenas subsistirão juntas, nas casas de Joana e Joaquim.

Se tive sorte? Pode até ser, mas sorte todos os dias não existe. Todos os dias se chama trabalho. E dedicação. É colocar força no movimento, e amor. E cada um de nós fez conscientemente a sua parte.

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