– Qual o seu estado civil?

– Como?

– Seu estado civil, senhora?

– hum… ham… hum… entendo… Sou divorciada.

É, soa mais bonito. Menos pior. Mas é separada que vem à mente depois daqueles milésimos de segundos os quais você não se reconhece naquela situação. Nem sequer entende a pergunta. Até hoje me atrapalho as vezes. E já fazem mais de dois anos. Confesso que nas primeiras vezes em que a enfrentei, a esta pergunta que desnuda e é ingrata, lacrimejava. Por dentro. De vergonha, não sei. Não queria ser uma mulher separada nunca na vida. Ninguém sonha com isso, acredito eu. Mas eu, principalmente, tinha ojeriza de pensar sequer nesta possibilidade. De um dia estar separada, divorciada. De ser parte dessa situação tão danosa. Porque no real significado deste movimento, era a palavra fracassada que ecoava em mim.

Pensei muito sobre como escrever sobre este status e seus efeitos colaterais porque é uma questão muito pessoal. Porém me proponho exatamente a isso na minha escrita, então fez sentido trazer a questão. Ninguém deseja se separar. Nossa cultura condena há séculos o divórcio como o movimento de destruição da família. A mulher separada é tema de filmes dramáticos que normalmente retratam a luta, a falta de recursos, os filhos problemáticos e a solidão desta condição. E é a partir destas fotografias que me vi no universo das divorciadas. E isso não aconteceu do dia para a noite. Assim seria bom. Aconteceu na hora do questionamento sobre o meu estado civil em um balcão de cartório na venda do meu carro. Depois no banco, depois na assinatura da compra do meu primeiro imóvel como divorciada, depois no crediário da Magazine Luíza. Foi ontem, pelo meu consultor do plano de previdência privada. E as vezes ainda é desagradável. Mas ok. Sabe aquela tatuagem que a gente faz na barriga, para não dizer virilha, em plena instabilidade emocional adolescente? Pois então. A adolescência passa e a tatuagem fica. E o divórcio passou. Tudo se acomodou e o meu estado civil ficou. Divorciada.

Chegar a este status não define o que uma pessoa é. Não define que ela é menos forte, menos determinada ou tem valores menos admiráveis. Quando um casal se separa, essa decisão vem após inúmeras lutas, tentativas, um tanto de esforço, mesmo que as vezes de forma velada. Dois operários trabalham da forma em que acreditam para manter aquela relação, que parece ruir em um canto, em outro, se esfarelando. Não deixando mais tijolos visíveis aos olhos. Matéria prima para recomeçar. E vai sobrando só pó. Em meio a lembranças felizes, mas passadas. E de repente ao menos um sabe o que quer, sabe que não dá mais. Infelizmente quase sempre não há sincronia neste movimento. E aí dois sofrem. Um pelo que sabe que tem que fazer, outro por ser vítima desta decisão. Mas o fato é que para acabar não basta ser ruim, estar mal. Precisa não ter solução. E aí nascem dois divorciados. Duas partes de família. Dois embriões de uma nova.

No meu divorcio fui leal a minha luta. À minha coragem em reconhecer quando o fim chegou. A não me diminuir. Ao contrário, a crescer. Em respeitar no processo, o outro. Quem me acompanhou e construiu comigo até ali. E o status de divorciada passou a mexer menos com os meus dias.  Porque simplesmente não diz nada sobre a imensidão de ser humano que se faz daquilo que sobra. Da conquista de novo do perdido. Da autoestima. Da nova mulher e da beleza que nasce. Uma nova, diferente do que foi. Mais madura, reforçada. Mais viva, e porque não dizer mais ousada, mais destemida quanto as surpresas que a vida prega.

E neste meio tempo, como já citei antes, encontrei uma pessoa especial. Vivemos juntos, e exceto nos balcões da vida, meu estado civil é amada. É mulher. Meu estado civil é mãe da Joana e do Joaquim. É mais, bem mais do que uma experiência dessa vida, do divórcio, que já passou.

É divorciada mais tudo isso. Mas inteira, e em paz.

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