Resiliência e seus efeitos colaterais…

Quando você decide mudar a sua vida e a dos seus dois filhos, a sensação é de poder absoluto. Afinal, chegou até este ponto. Teve coragem para tal. Dada a decisão do divórcio, era hora de enfrentar a avalanche que vinha e tornar tudo o mais cor de rosa possível. Só o que eu pensava era em como minimizar a dor deles, dos meus pequenos, perante ao que eu estava fazendo, eu e o papai.

Precisava desenhar algo rápido a partir do fim daquela família. Eram duas crianças, tão pequenas… Tinha o dever, como a mãe que sempre me propus ser, de colocar luz sobre o que estava por vir. Otimismo. Fé mesmo. Com verdade e sem maquiagem. Com amor. E assim eu fiz, desde o primeiro dia…

Preciso dizer que o pai deles me ajudou no processo, quando escolheu a eles antes dele mesmo. Quando priorizou, assim como eu, o bem-estar das crianças. Quando evitamos atritos e jamais trouxemos à percepção deles as nossas diferenças. E passo a passo fui reconstruindo nosso dia a dia com entusiasmo.

Eles não me viam chorar. Até porque com relação ao meu fim, chorei antes de fazê-lo. Estava bem. Me preparei. Porém muitas vezes chorei por eles. Pelas dores da mudança, mesmo que minimizadas por todo o meu esforço diário. Tinha consciência do que eles ganhavam comigo estando bem, mas também tinha consciência do que perdiam como filhos daquela família que se acabou. Não tinham mais o papai ali, ou não tinham a mamãe. Suas rotinas passaram a funcionar como um relógio, guiado por uma planilha Excel. Por orientação do juiz, a fim de minimizar atritos, suas agendas eram inflexíveis. Eu trocava os “pacotinhos” com o pai deles com sorriso no rosto, mas a cada troca, eles perdiam alguém.

Meu corpo e minha alma sentiam o que eles estavam passando, mas por uma questão de sobrevivência, eu acho, não enxergava assim na época. Procurava identificar em cada situação o seu ponto positivo e vendia isso a eles e a mim com toda a fé que se tem em uma manhã ensolarada. Mostrei a eles, a cada dia, que “aquela água não era tão gelada assim”. Que a vida apronta circunstancias e mudanças, e que os corajosos como nós, integrantes daquele lar, venceríamos os desafios numa boa. Venceríamos as perdas e nos atentaríamos ao tanto de ganhos que a vida nos traria se fossemos compreensivos uns com os outros. Com a situação. Se fossemos alegres. E gratos pelo que tínhamos. Pela chance de recomeçar.

Coincidência ou não, acredito realmente que as coisas são da forma que às enxergamos, de como lidamos com elas. Que essa forma define o resultado de nossas vidas. Que o nosso futuro é determinado pelo modo como vemos o mundo, como vivenciamos os acontecimentos. Naquele ano vendi uma casa, a que eles nasceram. Construí um novo lar em um apartamento. Minha Joana iniciou o primeiro ano do ensino fundamental em uma escola nova. Se adaptou, fez amigos. Quis ir bem naquela nova empreitada, e foi. Meu Joaquim se desenvolveu normalmente na escolinha, surpreendentemente mais maduro, mais calmo, mais afetivo, e feliz.

Acompanhei cada passo deles de perto. Olhava nos olhos, no coração. Na dúvida levava-os a um atendimento pontual psicológico. Mas nada estava mal. Nossa vida estava dando certo e errado, como a de todo mundo. Mas incrivelmente mais certo do que errado. E naquela nova rotina eram buscados e levados em suas atividades às vezes por mim, às vezes pelo pai, e em determinado momento pelo padrasto, o qual consideraram mais um presente da vida.

Incrível como tudo pode ser bom quando se quer ver assim. E assim aconteceu. Nossas vidas foram evoluindo naturalmente, calmamente, cheias de afeto, acolhidas e novas aventuras. Exatamente como queríamos que fosse. Como construímos juntos no momento em que decidimos fazer daquela situação de reestruturação da nossa família e de nós mesmos, melhor.

E quando falo nós, falo de mim e deles. Eles fizeram este movimento comigo quando acreditaram em mim, no pai e no que estávamos fazendo. Tem a ver com ser bom. E eles são. E enxergaram a situação com o coração. E como sou grata a eles. Quando era eu quem tinha que ensiná-los a levantar, eles levantaram ao meu lado. Com aqueles sorrisinhos de quem também quer ver tudo bem, me provaram e provam todos os dias a sua capacidade de elaboração das coisas da vida. Do ganhar e do perder. Do perder sem desfalecer. Da força que temos dentro de nós mesmos para reconstruir.

E isso não quer dizer não sofrer. Carregamos as lembranças das nossas conquistas e das nossas perdas neste caminho. Me refiro a reconhecer, sofrer e retomar. Ainda melhores. Fazendo mais. E muitas vezes choraram e fizeram todo o movimento, até se levantar. Muitas vezes sentem e espiam as memórias da família de antes. Ainda o fazem. E nessa hora acolhemos uns aos outros. Identificamos o que ficou melhor, o que eventualmente ficou pior. O que temos de bom no hoje e o que ficou para trás. E nos fazemos especiais, pelas bênçãos que tivemos até aqui. Por termos a capacidade juntos de criar alternativas felizes para as nossas vidas.

Como me alimenta a alma tê-los no meu caminho…

Hoje, quando escrevi este texto me emocionei. Por entender em mim e nos meus filhos o processo da resiliência. Que ele tem efeitos colaterais. Porque ele transforma. Um processo que envolve a queda, a dor, mas o levantar. Da forma que for. Da forma que soubemos fazer. E cada um de nós fez do seu jeitinho. O deles, posso garantir como mãe, que os fez pessoas melhores, mais fortes e conhecedoras do caminho que percorreram até aqui e que ainda vão percorrer na vida. E o fazem com a alegria de criança.

A mim, por uma questão de sobrevivência minha e do meu coração de mãe, renasci e me permiti ver aos poucos por onde passamos. Olhando para frente, e vez ou outra para trás. E para minha felicidade, eles não estavam nem em um lugar, nem em outro… Minhas luzinhas estavam ao meu lado.

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