Doces Olhos Azuis…

Não se tratam dos meus. Não tive essa sorte toda. Doces são os olhos azuis do meu Joaquim. Gerados da inspiração dos meus castanhos, dos meus sonhos de menina, quando idealizava crianças de olhos claros…  E somados a muita, muita sorte.

Fui presenteada. Ela, minha Joana, com expressivos olhos verdes ardósia. Ele com lindos olhos azuis. E se não bastasse os olhos transparentes e claros como água, como céu, como um vestido de cetim, azul celeste do meu Joaquim, ele nasceu doce. Nasceu todo de afeto. Todo da mamãe. O bebê da casa, que fez nascer o amor em todos por ele, no cenário improvável dominado pela princesa Joana. E ele conquistou seu espaço. Carinhoso e sapeca. Com um senso de humor único, nos surpreende com sacadas fenomenais. Mas o que mais o representa é o seu estado de espírito, desde pequenino. Ele é um menino feliz. Sempre foi. Sem drama, sem traumas, sem desânimo, ele vive a vida com uma alegria e um otimismo contagiantes. Não importa o tamanho da tempestade. E no círculo rompido da nossa família, não foi diferente.

Ele era pequeno no dia em que contamos, eu e o pai dele, sobre a nossa separação. Ele tinha quatro anos, recém feitos. E ele ouviu sem falar nada. Só nos olhava com aquela carinha sapeca e sorridente. E o que era de se esperar, nos surpreendeu com um único comentário: “Então eu vou ter dois quartos??” E um sorriso se abriu. Isso representa muito vindo dele, um menino tão afetivo. O tamanho imenso do seu coração somados ao modo otimista como enxerga a vida, o fez identificar os pontos positivos naquele desfecho. Como faz em tudo. E sem saber nos acolheu. Com seus profundos olhos azuis e seu sorriso compreensível.

No primeiro final de semana meu com eles, na rotina do compartilhamento, o Joaquim me acordou para tomar café e se deu conta de que não tinha a presença do pai. Não teria mais o café da manhã em família, e a rotina construída com o papai de dividir a cozinha nas primeiras horas da manhã, como fez desde que era um bebê. E neste dia ele chorou, com o coração. E fez rachar o meu.

Confesso que esta foi a primeira vez, e me atrevo a dizer que talvez a única, que vi nele tristeza de verdade. Tristeza que conheceu através do mundo dos adultos. Que na “terra do nunca” dele não existia nem rastro. Porque assim como no mundo dos adultos, no mundo das crianças ninguém sonha com a separação. No caso deles, a dos pais. Mas ele me abraçou, acalmou seu coraçãozinho no meu, e sorriu. Sorriu de novo e lembrou que tinha a mim para o café. E que isso já era muita coisa.

Dali para frente ele acomodou a vida nova na nuvem flexível regida pelo seu coração. O Joaquim me ensinou a cada dia que passamos nos últimos dois anos, sobre o lado bom das coisas. De como podemos facilitar o caminho. Sobre como adaptar agendas no mundo dos afetos. E ele construiu a sua vidinha nas suas duas casinhas. Criou seus mundinhos sem se desconectar de si mesmo e de onde veio. Estabeleceu suas conveniências, as quais acompanhei de perto. Quando estava no pai, estava lá. Quando estava comigo, estava aqui. E se permitiu se misturar e amar seus dois lares. Suas três avós, seus três avôs. Sua mamãe, seu papai e seu padrasto, ou papai emprestado como por muitas vezes prefere chamar. E com cada amor, desenvolveu suas afinidades e rotinas, sem culpa. Só de prazer. E assim, conquistou a muitos corações.

Estes dias recebi um presente. Em uma noite de verão, após um dia agitado de criança na Universidade de Santa Maria, o Joaquim prostra, quietinho na sua caminha, reclamando de frio e dor de cabeça. Nada diferente de um mal-estar normal de criança. Exceto pelo fato de, com aqueles olhinhos azuis lacrimejantes, amolecer o coração sensível da mana Joana. Minha “enfermeirinha” me ajudou o tempo todo a medica-lo e a trata-lo, atenta às minhas necessidades, mas principalmente às dele. E ele, quietinho, nos observava.

Até que uma das frases mais lindas que meus ouvidos me permitiram acessar e que levaram suas palavras direto ao meu coração de mãe, saíram daquela boquinha cor de rosa de menino: “Mamãe, quero dormir de mão com a minha mana. Ela pode dormir junto de mim?” Com uma resposta rápida a maninha se colocou ao lado dele e juntinhos dormiram, um cuidando do outro. Porque dos presentes da vida, a separação gerou uma união. Profunda e sincera de dois pequenos coraçõezinhos. De um menino que descobriu no seu mundinho, a sua melhor parte. A sua melhor amiga. O seu apoio para a vida toda.

E o que mais eu poderia querer? Os gerei para ela, para a vida, e eles encontraram um ao outro. Misturados, irmãos e amigos. Sempre juntos e coloridos. Do verde da esperança ao azul da cor do mar.

5 comentários Adicione o seu
  1. A separação em qualquer momento é difcil. Romper laços e muitas vezes o afeto por mais amigável que queiramos que seja. Fiquei emocionada com este texto, ao envolver os filhos, desperta os mais fundos dos sentimentos. Que linda maneira de retratar! Parabéns! me senti lendo um conto de fadas de uma situação tão critica.

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