O valor do que fica…

Essa é a lógica da vida, ou deveria ser para a maioria. O que vale é o que fica. É destes que a gente deve cuidar. Dos valores que ficam. Dos sentimentos que ficam conosco. Do “eu” que fica com você. Das pessoas. Principalmente, quando se tratam de crianças. De quando são suas. Porque é do que fica que se gera o presente e o futuro. A soma disso tudo com os que chegam. Os novos afetos, as novas pessoas, a nova jornada. E aí a vida cobra que sejamos atentos e melhores. Porque quando ficam filhos, devem ficar pais. Não só um homem e uma mulher. Não só o recomeço dessas duas vidas. Mas o seu compromisso. De uma dupla que carrega a grande responsabilidade de criar caminho para os filhos. Que seguem, até o dia de tocarem suas vidas por conta própria.

Quando trato do que fica, falo no meu caso na mulher Juliana, e nos meu filhos, Joana e Joaquim. Do divórcio, pela minha ótica, ficamos nós três. Do outro lado, e também para eles, o pai. Mas aqui falo por nós. Nós três que ficamos juntos e naquele momento com a tarefa de construir um novo começo.

Sempre quis ser mãe. Então não é de hoje que coloco o meu foco nos meus filhos e em mim como provedora. Construo essa mãe desde menina. E no caminho, com a chegada deles, minha convicção clareou minhas possibilidades e me fez escolher a eles sempre que constituíam uma opção.

Nunca perderam para ninguém nem para nada. Não no meu projeto de vida. Na vida de uma mulher que sempre precisou trabalhar. Que construiu uma carreira profissional.

Mas os escolhi quando neguei propostas de trabalhar em outros estados, ou de atender, na minha atividade comercial, à várias regiões, que exigissem mais ausência do que presença minha em casa. Quando me separei e não os privei da verdade e do senso de busca pela felicidade, como legado daquele processo todo. Quando permiti que participassem sempre da minha vida e das minhas escolhas.

Os escolhi também quando priorizei e priorizo a eles ao celular. Quando escolho, mesmo em uma noite corrida e cansada, com duas crianças, a comida de verdade à industrializada. Sem desmerecer as alternativas que as vezes parecem ser as únicas para muitas mães, e que vez ou outra precisaram ser para mim, fiz escolhas. Escolhas por eles. E quando conheci um amor, o trouxe para nós. Nós três. Para que nunca tivessem de mim somente uma parte. Para que eu pudesse ser inteira, de qualquer forma.

Mas acho importante aqui clarear as consequências. Este foi um movimento que fiz, que exercitei mentalmente antes de cada passo. Imaginei os diversos cenários nos quais a minha vida poderia acontecer, junto aos meus filhos, a uma nova pessoa, com o pai deles em casa separada, e como desejava realmente que isso fosse. Avaliei possíveis traumas, questionamentos e até posicionamentos dos meus filhos, que poderiam em algum momento, serem contrários a mim. À minha proteção. Ou em meu julgamento.

Enfim, polares. Porque um dia cresceriam. E com o tempo buscariam mais respostas, que quem sabe, os levassem a escolhas também. E é isso que difere adultos de crianças. Ou deveria, no meu entendimento.

O adulto tem que exercitar, tem que mensurar, tem que controlar ambientes, impulsos e sentimentos. Em proteção a eles, os filhos. E por isso, não chorei na frente deles. Uma ou duas vezes, chorei de cansada. Como crianças fazem no final de um dia cheio, e caíamos os três em risadas depois quando perceberam que a mamãe também cansa… Que a mamãe também chora. Mas nunca por conta daquele movimento todo que eu estava fazendo.

Não queria que por qualquer interpretação culpassem ao pai, ou a mim. Ou ao padrasto, que estava também ali, fazendo a sua parte. Porque para uma criança, culpa gera castigo. E ninguém ali merecia ser castigado, ao contrário. Precisávamos de compreensão, de acolhimento. Porque eles precisavam e precisarão toda a vida do pai. E da mãe. E de seus afetos. E se um dia, enquanto adultos, identificarem desalinhamentos ou ausência de afinidades com qualquer uma de suas partes, de seus pais, esta será uma posição madura, formada, do seu ser. Não a posição de uma criança. De um filho. De personalidades apenas em formação.

Cuidei destes detalhes. Com atenção e carinho. Engoli jacarés, e por eles engolirei elefantes e crocodilos se for necessário… ouvi que estes últimos, os crocodilos, tem cinquenta quilos somente na cabeça! Mas os engolirei se precisar. Porque escolhi formar os meus filhos com isenção. Livres para fazerem suas escolhas. Nunca vítimas de alienação. Porque quando sonhei ser mãe, fiz também uma escolha de vida. Escolhi o que fica. O que fica sob minha responsabilidade e na minha vida. E o dia em que meus filhos forem trilhar seus caminhos, o que realmente fica no meu coração. E no meu fim, o que fica de mim neste mundo. No mundo deles. Mundo este que me presenteou com o maior valor que se pode ter. O da capacidade de reconhecer e gerar o que continua, além de mim.  Esse amor que vive aqui dentro do meu coração e que é infinito. E que será companhia que terei para sempre, além daqui. Que supera todo o resto que passa. A infância, as dores, os amores, um processo de divórcio. Os sonhos que não deram certo, ou os que deram.

E aí, ficam eles… Joana e Joaquim. Que no ambiente seguro de hoje, constroem o amanhã. Fazendo do que ficou, o melhor que se pôde. E fazendo eu, a minha parte de mãe.

2 comentários Adicione o seu
  1. Ju minha linda amiga, que texto profundo, verdadeiro , que transmite o sentimebto de uma maneira tao real que parece que estamos juntas conversando! Parabens minha amada, muitoa beijos e cheia de saudades! ❤️

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