Quis desenhar uma pomba, e fiz um urubu…

Na intenção de acertar as coisas para os filhos, de criar ambientes felizes, não é sempre que acertamos. Aliás, posso dizer, que este é um jogo de mais erros do que acertos. Um jogo de tentativas cautelosas. Criar cenários e dar passos em frente são ações bastante delicadas quando se tratam de crianças. Das tuas, após um divórcio, ainda mais.

Mesmo próximos aos filhos, temos que contar que eles, como seres humanos que são, não são tão óbvios. Eu diria até que são bem complexos. E no caso das crianças, nem sempre o que dizem sobre seu estado geral, sentimentos e expectativas, são verdade. Querem mais de uma coisa, mais de um lado. Alguns usam o ato de agradar para acomodar as coisas, outros o de desagradar. A questão é que nem sempre sabem o que estão fazendo ou mesmo o que realmente querem.

Por isso entendi pertinente, bastante pertinente, tratar as questões que envolvem os movimentos de agregação dos pais, demonstração de superação e posso dizer o ato de compartilhamento, após um divórcio. Aquele que, independentemente de ter ocorrido em comum acordo, em paz, ou com hostilidade e desentendimentos, gera ruptura. Gera o início de uma nova estrutura, de uma nova caminhada para os filhos. Para todos. Mas reconhecendo que são eles, os sujeitos que dali para frente passam a coabitar em dois ambientes distintos, em duas famílias, de funcionamentos diferentes, mesmo sendo deles.

Pois então. Um destes movimentos viu oportunidade de acontecer no aniversário da minha filha mais velha, no segundo ano pós separação. Decidimos no primeiro ano comemorar os aniversários de Joana e Joaquim de forma mais singela, já que estávamos no transito do processo todo de divórcio e da reconstrução dos nossos lares. Isso evitaria também um encontro entre famílias ainda machucadas e indispostas, entre amigos confusos e saudosos, e conhecidos curiosos. E assim tocamos o primeiro ano. Com festinhas particulares. A do pai e a da mãe.

Só que o segundo ano chegou, e com o passar do tempo a vida segue, não é? E seguiu para eles, que naquele ano ansiavam pelos parabéns entre amigos, pela casa de festas, pela casa cheia. Ansiavam pela vida normal. Sei que era o que queriam. Por muitas vezes verbalizaram o desejo de ter as famílias juntas. Convivendo, conversando. Se dando bem. Quem sabe amigas de novo. Mas isso era o que aquelas pequenas boquinhas diziam, em contraste com seus corações. Com suas emoções.

Primeiro, em maio, veio o aniversário da Joana. O pai promoveu, junto a mais dois amiguinhos de escola, um lindo evento em uma dessas casas de festas infantil. Ela chegou dias antes entusiasmada com um convite preenchido a mão. Com a letrinha dela. E nele, ela convidava a mim e ao pai emprestado para estarmos presentes. Transmitiu que este teria sido um convite do pai também. Que ele fazia questão das nossas presenças. E ela parecia feliz com aquilo.

Sei de boas intenções. Sobre a do pai de nos ter, mãe e padrasto, na festa da filha. De dar tudo a ela naquele dia. Festa e família. E foi o que nos pareceu. Da nossa parte, não tínhamos como negar. Era o aniversário dela. Da minha filha. Do meu primeiro bebê. E ela estava dando uma festa, e ao que tudo indicava, queria a presença da mãe e do pai do coração. Ela fez aquele convite para nós, então estava decidido. Estaríamos lá.

Só que por motivos de trabalho, meu marido se ausentou da cidade. Então confirmei minha presença sozinha. Preciso resumir como forma de mostrar o urubu que nasceu da pomba. A festa era grande e linda, e lá estavam todos os parentes por parte de pai, os avós e padrinhos da família da mãe. O pai e a namorada. A mãe sozinha. E todos os amigos da escola. E ela sofreu. A minha filha não ficou nada bem em termos feito aquele movimento. Ela não sabia o que estava fazendo quando nos convidou. Quando misturou a todos. E desorganizou todas as gavetas no seu peito. Na sua cabecinha. Àquelas que há pouco, com a nossa ajuda, organizou. Um lá, outro cá. E me pediu que fosse embora.

Saí devastada aquele dia, daquela festa. Do dia feliz da minha filha. Que era para ser e não foi. Sofri não por mim, mas por ela. Por mim, só repudia por não ter me dado conta do que estávamos fazendo. Por não ter sido a adulta. Por achar que posso desenhar pombas no universo dos sentimentos. E então fui embora.

Refletindo sobre o fato, identifiquei o erro naquela intenção toda. O ambiente que criávamos não era equilibrado aos olhos deles. O pai estava acompanhado e a mãe não. Assim era mais fácil para o imaginário criar ilusões e frustrações. Eram também as duas metades da foto rasgada daquele jeito, exposta, na frente de todos, e com a mãe sozinha. E entendemos o ponto da dor. E o tratamos com cuidado. E naquele mês retrocedemos no processo de reorganização das gavetas. O fizemos de novo.

Não satisfeitos, no mês de novembro de Joaquim, repetimos a doze, cheios de boas intenções. E nele o contrário aconteceu. Por acontecimentos da vida estávamos eu e meu marido, e o pai sozinho. E desenhamos da pomba o segundo urubu. Segundo e último, é claro, pois de erros aquele ano já teria nos banhado…

Mas o interessante de tudo é que não dá para saber exatamente quando a hora chega. Quando evoluímos em nossos sentimentos, entendimentos sobre o momento de evolução no qual estamos e na compreensão do outro. Dos outros, no caso daquela grande família. E que talvez a mistura leve tempo para agradar ao paladar. Que é mais fácil ser feliz passo a passo, uma coisa por vez. Que talvez tudo junto seja muito para uma criança, mas que ela pode não saber chegar a esta conclusão sozinha. Que tudo não garante felicidade a ninguém. E que esta dádiva está nos momentos, únicos e pequenos, que se tem com cada pessoa que se ama. Com seu pai. Com sua mãe. Com seu pai emprestado. Com laranjas no saco das laranjas. Com maças no de maças. Até que o tempo e a maturidade possibilitem testar. E aos poucos, misturar. Permitindo que desenhos se formem naturalmente e quem sabe, pombas sejam somente pombas e não mais urubus.

 

5 comentários Adicione o seu
  1. Maravilhoso cada relato do seu blog. Conheci seu blog hoje e não consigo parar de ler! Estou passando por uma separação com um bebê de quatro meses. Obrigada por compartilhar!

  2. Nossa! Consegui me colocar no lugar… O seu sentimento, o dela… Não é fácil, necessária maturidade que nem sempre temos ou sabemos se temos. Só vivendo e é muito dolorido.
    Parabéns, você não faz ideia de como norteia outras mulheres que estão em situações semelhantes.

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