Cuidei de mim… E não há nada de errado nisso.

“O enfrentamento é admirável e libertador. ”

Agradeço de todo o coração o carinho da amiga que postou em uma das minhas primeiras crônicas este comentário. Sua visão sobre o movimento que fiz quando decidi tratar das minhas dores através de crônicas. Quando me propus a escrever sobre a morte e o renascimento de uma parte da minha vida. Que foi luz para mim. E que era também a minha única saída, na direção de encarar medos, de vencer esta etapa, de evoluir. Que me levou a reconhecer a minha verdadeira razão. Aquela que está em mim, e que não depende de mais ninguém.

Que medo disso, não é? Como é fácil responsabilizar marido, filhos, chefe, o pai e a mãe… A vida, à Deus. Enfim, ao outro, que não nós mesmos, por aquilo que não conquistamos, pelas escolhas que não fizemos. E foi essa a minha busca. A de não culpar ninguém pela vida que estava a ponto de escolher. Simplesmente porque ela foi minha. E naquele momento escolhia por mim. Cuidei de mim mesma quando busquei ser feliz. Além da minha família. E na nossa sociedade, com os estereótipos e vidas modelos de família ainda enraizados, imaginem como pode ser difícil um movimento destes.

Não falo contra o modelo de família tradicional, porque para começar, na minha opinião, não existe modelo de família. A palavra modelo vem de referência. Modelo vem de perfeição. E famílias não são iguais umas às outras, nem são perfeitas. Envolvem um tanto de combinações, um tanto de razão e emoção, uma mistura de gente. E não é porque você é uma pessoa de valores, os quais consideram ouro a entidade familiar e o casamento, que você tem garantia de que casará e estará a salva. Comigo não funcionou assim.

Confesso que quando casei, e idealizei a minha vida e a minha família, jamais levei em consideração que a vida me apresentaria uma saída no divórcio.  No meu. E que eu precisaria ser o indivíduo a enxergar esta situação. A identifica-la. A traze-la para a realidade. Aquela saída que se tornou o meu passaporte para uma viagem em mim mesma. Aquela que me deu uma chance de recomeçar. De cuidar dos meus sentimentos. De atender a mim.

E nessa trajetória descobri e enfrentei muitas verdades. Genuínas. Amedrontadoras. E para as quais resolvi olhar nos olhos. Aquelas verdades que me levaram ilusões. Me tiraram bengalas. Como a de que os meus filhos, meus grandes amores, não são as únicas razões da minha vida. São sim uma delas. Juntamente com os sonhos que carregava comigo e que ainda carrego. Junto também com as minhas inspirações. Com o amor que queria sentir por alguém. Que me desse vida. Que me fizesse também amada. Com a razão que está em cada pedacinho de mundo e pedacinho de vida que ainda quero viver.

E aí, enfrentei o medo de enfrentar a solidão de ser o que eu era, o que eu sou. Enfrentei a ilusão de que meus filhos são meus. Os vi gente. Os vi seres humanos livres. Os vi amor. Os vi parte desse mundo grande, não de mim. E apesar de inicialmente doer, essa sensação crua de ser só, consegui entender a minha dimensão. Que começa e acaba em mim, não neles, nem em qualquer outra pessoa. E que me fez razão do meu viver.

E então, passei a cuidar ainda mais de mim e dos meus sentimentos. E assim encontrei o verdadeiro amor. Pelos meus filhos quando deixei de me apoiar neles como minha única razão. Pelo meu marido, meu novo amor, quando amei a ele, antes de a nós. Antes de estereótipos. A mim mesma, quando para a minha evolução, passei a viver e me entregar. E assim, acomodei as coisas. Assim respeitei a mim. E a partir daí, à todas as tantas razões do meu viver.

Me permiti dar um passo à frente. Com coragem. Porque para querer dos outros amor, respeito e liberdade, precisaria começar por mim mesma. E valeu a pena demais, acreditem. Valeu a pena demais…

Obrigada, querida amiga, dona do comentário que me inspirou. Não sei sobre o enfrentamento ser admirável, pois de fato não levei a admiração em consideração na época.

Mas pode acreditar, nada pode ser mais libertador.

 

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  1. E como somos julgadas, quando decidimos cuidar de nós mesmas… De parar de usar situações ou pessoas para culpar ou vangloriar. Quando decidimos que para darmos felicidade a alguém: filhos, marido, pais ou quem quer que seja precisamos primeiramente estarmos felizes. E não é errado, e não é errado!!!!
    Vale a pena e como vale a pena esta desconstrução.

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