Sobre coisas que quebram.

Em um domingo destes me agarrei a Revista Donna, sedenta pelas crônicas daqueles profissionais que semanalmente nos banham com seus assuntos humanos, mundanos, da vida das pessoas. Esse, que já era um hábito meu, agora virou quase uma obsessão. No bom sentido, se é que há. Uma mistura de curiosidade sobre o que virá desta vez nas pautas referentes a pais e filhos, amores, feminismos, profundidades quanto a dificuldade de sobreviver hoje em dia no mundo do bulling, da perfeição… Mas de uma forma geral, sobre olhar de gente sobre gente. Se relacionando nos mais diversos cenários da vida, nos mais variados papéis.

Adoro todos os colunistas, mas confesso que dois deles, que falam de relacionamentos amorosos e familiares, me instigam mais. Me emocionam, e me tiram o sossego, às vezes.

Eis que neste dito domingo, acho que véspera do Dia dos Namorados, um deles fala da separação do casal. Daquele casal que tem filhos, que tem família, e que levanta a bandeira branca.

Se referia àquele casal que desiste.

Este texto foi trazido pelo colunista Piangers, um profissional que escreve de um jeito leve, que eu adoro, e que costuma descrever situações cotidianas da vida de pai com muita sensibilidade e com muita emoção. Por isso com todo o meu respeito e admiração, preciso dizer que é necessário passar pelo divórcio para falar genuinamente dele. Para saber descrevê-lo. Para saber do que se trata.

O colunista descreve uma crise em sua crônica. Entre ele e a esposa. E ele termina o texto afirmando que tudo o que se quebra na sua casa, é consertado. E não jogado no lixo. Como as pessoas que se separam fazem, ficou subentendido…

E confesso que me senti mal na condição em que fui colocada na crônica, no papel de mulher separada. De fracassada, nas entrelinhas. Como se as pessoas, parte do grupo das que não consertam as coisas, e que desistem dos seus casamentos, fossem menos determinadas. Como se não tivessem se esforçado, tentado tudo. Como se tivessem aberto mão da família. Aquela que o colunista tão delicadamente valoriza em seus contos semanais.

Por isso achei pertinente trazer o assunto, com todo o respeito. Porque é uma decisão tão doída, tão avassaladora, que se tivesse conserto, o seria feito.

O divórcio mexe com a estrutura emocional e física da pessoa. Esta mudança te tira na maioria dos casos a tua casa, a rotina de uma mãe e de um pai com seus filhos. A dádiva de vê-los crescer diariamente, em cada gesto, cada milímetro a mais de altura, marcado na parede. Te tira o sono, te tira o peso corporal. Te enche de peso a alma. De uma mistura de culpa e de fracasso. Daquele que, mesmo conhecendo todo o caminho frio e escuro que percorreste, bate à porta. De ver seus valores mais sólidos, aqueles pelos quais levanta bandeira e levanta da cama, irem pelo ralo. Por que no teu caso, não deu. Não teve conserto. Porque ali, quebrou-se mais do que qualquer móvel passível da ação de uma cola Bonder, de uma boa viagem a dois ou de tratamentos psicológicos feitos à quatro mãos.

Simplesmente porque ali, quebraram-se cristais. Quebraram-se sonhos e corações. Deixaram desnudos os dois, na ausência de vida e de alma.

E aí, sem menos admiração, gostaria de deixar o registro ao Piangers e aos tantos operários de famílias felizes ou nem tanto, que se houvesse qualquer chance, ela seria do casamento que ampara os filhos. Só quem passou por todas elas, as chances, de A a Z, pode afirmar que infelizmente em algumas casas quebram-se mais coisas do que se pode consertar, e que o pior dos consertos é o conserto do que sobra de tudo. Das pessoas que estavam ali e precisam se reconhecer e recomeçar. Nada é mais doído, mais profundo.

E nada é mais libertador.

Com todo o meu carinho, aos que passaram pelo divórcio.

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