Amor, do jeito que for…

Eis que em um domingo à noite, estamos os quatro assistindo ao Fantástico, programa da Rede Globo, e mais uma vez é trazido, no quadro da Glória Pires, no qual ela interpreta uma juíza de “casos de família”, o rompimento de um casal para o início de mais uma família diferente. Após o marido ter diagnosticado uma doença grave e ter realizado um tratamento agressivo, contando com a companhia incansável da esposa, com quem tinha um filho, ele se descobre gay. Se vê apaixonado pelo melhor amigo, o qual também o acompanhou e amparou no tratamento.

Até onde pude entender, o amor deles já havia nascido pouco antes do diagnóstico. Porém, foi na batalha contra a doença que se fortaleceu, e fez com que viver este amor virasse uma promessa do marido caso se salvasse daquela maldita. Como ele de fato se salvou, eis o desfecho da trama real: Ele deixa a esposa para viver a relação de amor profundo com o amigo.

Joana olhou a cena com os olhos marejados. Ela tem uma empatia fantástica, então não foi difícil para ela sentir a dor da decisão dele de trocar a mulher pelo amigo. Ou identificar o sofrimento e revolta de sua mulher e de certa forma, se colocar no lugar do filho. Ela percebia, assistindo conosco aquele pedaço de Fantástico, a quantidade de caminhos que a vida tem. Como ela pode fazer doer. Como pessoas machucam pessoas sem querer. Como o amor acontece.

Ela olhou para o pai emprestado, ao lado dela, e abriu seu coração. Comentou como deveria ser difícil para ele aquela situação, para o marido da história. Afinal, ele não largara a esposa por uma aventura, para viver uma farra solteira ou por novos ares e sede de vida pós doença. Não era falta de amor por ela, e a Joana percebeu isso. O amor da parceria, da gratidão pelo que construíram até ali ainda existia, e possivelmente existiria para o resto da vida. Pois além de mãe do único filho dele, ela era também a pessoa que esteve ao seu lado contra a doença que ameaçou a sua vida.

Ele largara ela por amor. Pelo amor que sentia por outro homem. E a nossa pequenina entendeu, e assim dividiu a sua angustia em ver aquela história.

– Que difícil para ele, né? (mãe, padrasto…)

Olhando profundamente para nós. Nestas horas meu marido costuma se chocar com a capacidade de entendimento dela, com sua sensibilidade, aparentemente incomum para uma menina de oito anos.

Ali, esta menina já entendia a dificuldade de viver o amor em qualquer tempo. Porque ele nasce sem escolhermos por quem, como ou quando. E se acontecer em terrenos desconhecidos, fora de hora ou fora do padrão, ele se torna mais difícil ainda. E como eu queria que ela integrasse ao seu coração que o amor é tesouro, que ele transforma, que ele se transforma e que ele é livre…. Mas principalmente que amar vale a pena.

Esse era o meu desejo ao acompanhar seus olhos, assistindo o sofrimento por conta do amor, por conta de fazer escolhas. E aí ela me surpreende. Porque o desejo pelo amor, no seu sonho de menina, de vê-lo acontecer como Deus mandar, já é dela. Por isso ela entendia a história e se emocionava. Porque pouco tinha eu a ensinar sobre o amor para uma criança, pura de coração e que reconhece relações de afeto profundo sem medo. Sem medo do que amar, desde que ame. Porque este é o valor do sentimento para ela.

E terminamos todos aquela noite com os olhos molhados e o coração cheio. Entendendo como família, sob a naturalidade do olhar de uma criança, sobre a emoção, a autenticidade e a verdade que o amor carrega. Sobre ele não escolher gênero, cor ou hora. Por ele ser amor, prazer e dor, do jeito que for. E que começou ali, por ela. Ao enxergar a dor do outro e a coragem do seu gesto de amor ao escolher vive-lo, os quais aquela pequena menina reconheceu e se emocionou.

Porque de amor ela já conhece e reconhece…. E este é o maior presente que eu, a sua família e o universo poderiam deixar para ela.

O de valorizar o amor, do jeito que for, desde que haja.

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