Nossa Criança Interior, por Isabel Silveira

O termo inteligência emocional surgiu nos anos 90, e se destacou com o livro de Daniel Goleman de mesmo nome.

E nestes quase 30 anos, em que muitos autores abordam este tema, ainda assim, me parece que estamos gatinhando neste processo.

Nesta semana, iniciei a leitura do livro A Inteligência Emocional e a Arte de Educar Nossos Filhos e percebo o quanto me sinto mergulhada neste propósito diário de saúde emocional e da minha ocupação com as famílias e principalmente as crianças. Talvez, porque vejo nelas a minha criança interior e também entendo que a possibilidade de reconhecer nossas emoções e agir de forma empática, ainda na infância, pode impactar positivamente o futuro de muitas relações adultas.

Neste universo familiar, venho participando de um projeto muito lindo de uma amiga minha, a Juliana Silveira. Ela criou um canal chamado New Families, onde inicialmente ela aborda a história do seu divórcio, e entre tantos outros desafios, a intenção de manter saudavelmente sua relação com o pai dos dois filhos deles, neste novo cenário de pais separados. Neste processo, ela também conta que foi reconectando com versões dela que ela própria desconhecia. Toda a quarta ela compartilha um novo texto e é uma delicia acompanhá-la e me reconhecer em muitos textos, mesmo que eu não tenha tido filhos humanos envolvidos no meu processo de divórcio, ainda assim, tenho as minhas “filhas de quatro patas”.

Quando passamos por processos e rompimentos que nos trazem muita tristeza, frustração e desconstrução de uma vida sonhada, o mais importante é termos consciência que somente o trabalho de educação emocional pode ser um bom guia neste processo. Caso contrário, podemos ficar muito tempo presos em um mundo que não existe mais. E foi assim que eu fui aprendendo a construir a minha saúde emocional, no meu caso, foi bem exigente lidar com uma Isabel teimosa e pouco íntima das minhas emoções e sentimentos.

Hoje, percebo que para lidar com a minha situação de divórcio, eu entrei em um “modos operante” mumificado. A forma que consigo descrever é de uma pessoa meio nocauteada, assim, meio tonta, e em alguns momentos como alguém que estava se afogando e tentava buscar forças para se manter com a cabeça fora d´água. A pouca intimidade com meus sentimentos e emoções não me ajudaram a estabelecer uma honestidade comigo e por conta disto, por conta de uma negação, me parece que fiquei mais tempo presa no processo, ao invés de abraçar minha fragilidade e o que realmente eu sentia.

Não admitir sentimentos negativos é um padrão de comportamento que muitos de nós usamos para nos proteger. Uma forma equivocada para não remoer emoções por muito tempo. Uma ilusão, porque elas continuam lá, escondidas, mumificadas. A verdade é que eu sempre tive muita dificuldade em acessar meus sentimentos e entender as minhas emoções. E percebo que esse exercício de empatia e sensibilidade com nossos sentimentos está diretamente relacionado com a educação emocional que recebemos dos nossos pais.

Por conta disso, para mim, foi bem trabalhoso identificar o que me causava medo, raiva, ansiedade, frustração e por ai vai. Identificar com clareza o que estava por trás dos meus descontentamentos foi um processo de “Sherlock Holmes”. Hoje, me sinto muito feliz por este processo, pois percebo que dia a dia venho descobrindo coisas muito importantes sobre meu “modos operantes”, principalmente sobre o que eu desejo manter e o que vem sendo muito bom para mim, transformar.

E claro, a minha família tem sido o meu melhor laboratório. Nos almoços aos domingos eu costumo levar tudo o que venho aprendendo e principalmente sentindo. E certamente isso já nos causou muitos desentendimentos, choros, brigas e tudo o mais que pode acontecer quando percebemos que nós e nossos pais não somos exatamente as pessoas mais preparadas emocionalmente que desejaríamos que fôssemos. Descobrir as minhas fragilidades e as deles, tem sido um desafio para todos nós – incluindo os meus irmãos. E vamos nos reorganizando da melhor forma que podemos. Afinal, a gente sempre faz o melhor que a gente pode, mesmo que esse melhor ainda seja um passinho curto.

E hoje, em mais um almoço de domingo, quando eu conversava um pouco sobre este livro que estou lendo, meu pai disse o seguinte: – Então para ser Pai a gente precisa fazer um curso, uma terapia, algo assim? Ninguém nos ensinou isto. Ninguém me disse que tudo isso era importante. Ele pareceu um pouco frustrado. Como se estivesse se sentindo enganado pela vida, ou pelos pais dele.

E eu achei tão linda a sinceridade dele. Ele começa a perceber esse universo junto comigo. No meu processo de autoconhecimento, eu venho oferecendo algumas falas bem exigentes ao meu pai. A gente vem elaborando muitas coisas que ficaram perdidas e desassistidas na nossa relação nestes 41 anos e, perceber que não bastava ele querer ter filhos, que era preciso muito mais para ser Pai e Mãe, também não é algo muito bom de descobrir quando os filhos já são adultos e quando eu demonstro ter sentido falta deste preparo emocional.

E, ao contrário do que a maioria de nós pensa sobre ter filhos, cada vez mais, por tudo que venho estudando e acompanhando, ser Pai e Mãe é aprender a educar emocionalmente os filhos. E, se podemos ensinar somente o que já aprendemos, esta razão se torna a importância do autodesenvolvimento emocional dos pais.

Como diz Daniel Goleman, “embora eu acredite que os pais sempre amaram seus filhos, há provas históricas revelando que, infelizmente, as gerações passadas não necessariamente reconheciam as necessidades emocionais das crianças”. As crianças, talvez por serem menores e mais frágeis, historicamente vêm sendo tratadas com descaso, principalmente no que refere aos seus sentimentos e emoções. Uma das maiores responsabilidades dos pais é escutar seus filhos. Escutar não só o que eles dizem com palavras, como também os sentimentos por trás das palavras. Portanto, inteligência emocional significa perceber os sentimentos dos filhos e ser capaz de compreendê-los, tranquiliza-los e guia-los.

Assim, a conversa com meu pai terminou com ele relacionando esse meu processo com o “desenredar novelos de linha”. Imaginou um atelier cheio de “novelos com nós” e que mexer em tudo isso parecia ser bem trabalhoso. E, principalmente, trouxe sua preocupação comigo, por perceber a dificuldade de elaborar tantas coisas da minha vida e da possibilidade de receber a aprovação, como também a desaprovação dos que convivem comigo e da forma como se estabelece a sociedade com relação a este assunto. Da minha coragem e entrega neste propósito, mesmo que para ele não seja tão confortável mexer em tantos nós assim. E acredito que para nenhum de nós é. Nem para mim.

E quando recebo o apoio do meu pai, percebo o quanto sentir-se emocionalmente ligado aos pais é um elo que nos ajuda a regular nossos sentimentos e resolver nossos problemas. Estudos mostram que crianças com preparo emocional são mais saudáveis e sociáveis, tem menos problemas de comportamento e se recuperam mais facilmente de experiências tristes. Ou seja, a criança emocionalmente inteligente está preparada para lidar com os riscos e os desafios futuros.

E a preocupação do meu pai é bem pertinente. Realmente tem sido bem exigente, principalmente ao lidar com a minha ansiedade em querer dividir tantas coisas que eu venho aprendendo sobre mim, nas minhas relações. Muitas pessoas não estão interessadas em saber ou aprender. Às vezes erro a dosagem nos meus oferecimentos, mesmo com as melhores intenções com todo o amor que eu tenho por estas pessoas.

E assim cada dia é um novo aprendizado. O meu aprendizado. O de respeitar o tempo e a disponibilidade de cada um de nós. Eu precisei do meu tempo para sair da mumificação que eu me encontrava. Cada um de nós merece ser respeitado no seu tempo. Afinal, desatar nós necessita muita paciência, compaixão, empatia e uma boa dose de inteligência emocional.

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