Sobre coragem e um novo bebê…

Nosso novo embrião. Preciso contar de onde surgiu nosso novo bebê, este que dividi com vocês no último texto. Sobre quando ele começou a vir. Nos sonhos e desejos daquela casa. Daqueles integrantes da nossa nova família. Para um filho vir à uma constelação já formada e isso ser bom, ser mágico, é preciso que seja construído. E essa entrada começou a ser construída primeiramente pelas pequenas mãozinhas de Joana e Joaquim.

Tentava entender porque duas crianças de enfim, seis e oito anos, pediam desde seus cinco e seis anos por um novo irmão. Porque os fantasmas que perambulavam a minha cabeça não habitavam nas deles. Porque não tinham medo da vinda de um bebê oriundo do meu novo amor, do meu novo casamento, que não com o seu pai. O medo talvez do amor do pai emprestado por eles mudar após a chegada de um bebê seu próprio, de sangue.

Não acreditava mais na importância dos laços de sangue somente, desde a formação da minha nova família. Entendi, com a chegada do meu novo amor, que afetos se constroem em terrenos férteis, como crescem plantas. Que no ato da permissão, minha e das crianças, à entrada de alguém na constelação, esse amor nasceria como nascem os amores verdadeiros da vida. E assim vi acontecer na minha casa. Só que os meus filhos queriam mais, queriam um irmão. E esta seria a consolidação da nossa nova família, de forma a atender a todos, a realizar também o sonho que era daquele que estava entrando, e que agora era parte de nós. E que sedimentaria nosso casamento. E aí entendi que isso sim era fantasma para as crianças. O medo de que, sem laços mais fortes, simbólicos como o casamento, como são os filhos, aquela família fosse de papel, apenas conveniente, ou fácil de desmanchar.

Mais uma vez os simbolismos tão necessários às crianças mostravam sua força.

Independentemente de estes apenas simbolizarem. Mostrarem um mar de intenções. E só. Mas para os meus filhos já era o bastante. Mostraria o tamanho da brincadeira. Da estrutura e da vida juntos que queríamos para nós. E ali, mostrávamos disposição para viver tudo. Tudo que a vida der e vier. E que estaria naquela permissão de deixar vir um bebê. E assim, o que a princípio deveria ser um desejo principalmente do pai emprestado, que ainda não tinha filhos diretos, virou um desejo da família. Fortalecido por duas crianças desprovidas de preconceitos, de medos. Duas crianças que enxergavam somente os pontos positivos, só luz. O nascer de uma família.

Confesso que na prática, a vinda de um filho me assustava um pouco. Sobre como seria o embate quando filhos do coração e filho de sangue ocupassem suas posições.

Que medo de mãe…

Mas tinha a consideração de Joaquim. Sob o olhar de crianças quanto ao mundo a que pertencem, quanto a simplicidade das coisas: Sobre merecimento do pai do coração. Sobre se enxergar como filho também… sobre se tornarem três.

Um, dois, três. Joana, Joaquim e um bebê. Um, dois, três.

Números iguais entre si, independentemente do valor. Era como meus filhos viam sua relação com o pai emprestado. Era como viam a chegada de um bebê. Um de três. Não único da mãe e do pai emprestado, não diferente deles em importância. Apenas o terceiro. Marcando profundamente o meu coração de mãe, que vive a administrar culpas e desenhar pombas no lugar de urubus.

Meus pequenos nos entendiam, naquele momento, como uma família normal. Logo aquele normal do qual fugi desesperadamente como forma de justificar nossa nova constelação. Mas assim somos aos olhos deles. Uma família normal, que se gosta, e que pediu por mais um integrante para completar a sua estrutura. O seu círculo de afetos.

Pode parecer romantizado da minha parte, mas meus filhos pediram pelo meu casamento novo com o Tio Lê deles. E depois, pediram por um irmão. E isso, quando genuíno como foi, é muito mais que romance para mim. É música aos ouvidos de uma mãe. De uma mãe de uma família diferente.

E assim se desenhou o cenário para a minha coragem de ter mais um filho. Precisei conta-lo para saberem que a coragem de uma mãe não é insana, não vem do além. Ela é construída passo a passo, por muitos atos de permissão, com responsabilidade e com amor. Precisa querer construir ao invés de destruir. E assim aconteceu. Assim, em mais um ato, permitimos que um anjinho viesse. Virasse nosso pequeno embrião. Conhecedores do caminho que percorremos até aqui e das dificuldades que virão. Mas agora em um piso amigo, seguro. Nas bases de uma família que realmente quer que funcione. Que pensa nos detalhes. Que dá passos adiante com parcimônia e equilíbrio. Que se permite. Olhando uns aos outros com amor e cuidado.

E aqui não estou falando só de adultos. Estou falando também de duas crianças. De Joana e Joaquim. E da escolha que fizeram em usufruir de suas casas de afeto e delas fazer nascer vida. Da nossa, fazer nascer flor. Nosso novo amor, Antonella.

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