Com quem contar…

Com minhas crônicas, tenho tido a oportunidade de conversar com leitoras que as vem acompanhando pelo blog. O que constitui um verdadeiro presente para mim. Uma oportunidade de dividir experiências comuns mesmo com jornadas e destinos eventualmente diferentes.

Sob o guarda-chuva do processo de divórcio, discorrem diversas histórias. Além da minha, muito além. De todos os tipos, com problemas em posições diferentes. E um em especial me provocou a escrever. Sobre as pessoas com quem contar nesta jornada. Sobre o apoio recebido ou não. Sobre a presença ou ausência do colo da família.

O processo de divórcio é um acontecimento profundo de dor e de enfrentamento na vida da pessoa que o atravessa. Quem já passou, tenho certeza de que entende do que estou falando. Quem não teve a experiência, acredite. É de fato um momento muito doloroso na vida dos envolvidos. Agravado ainda quando se tem filhos gerados deste casamento que findou. Não interessa se de comum acordo ou não, se com brigas pela partilha de bens ou não, se com uma reação mais dócil do filho ou filhos, ou não. É doloroso igual. Representa o fim do ciclo daquela família, naquele contexto. E dói. Pois aquela realidade não mais é revisitada, revivida. Ela morre neste processo. Ela fica para trás, como um livro velho no sótão ou álbuns de fotografias empoeirados embaixo da cama. Passa a fazer parte de outra vida sua, dentro da de sempre. Dessa que você conhece e nela tatua um marco: o do antes, e do depois.

O que ocorre é que, para tornar essa jornada ainda mais pesada, falta apoio. De uma forma geral. E não necessariamente por mal. Nem sempre porque as pessoas acham que você não é merecedor ou é culpado. Ocorre que simplesmente a maioria das pessoas a sua volta não sabe lidar com isso. Não tem a menor ideia do que você está passando. Não consegue entender como uma pessoa pode escolher este caminho para a sua família. Simplesmente não conseguem colocar “os seus sapatos”, como se diz. Ao contrário, não é incomum estas pessoas se entristecerem pelos efeitos colaterais da sua separação na vida delas. Seja pela perda da parceria, do casal amigo, do genro ou da nora preferidos, seja porque a coisa toda toca em feridas parecidas, escondidas em corações calados, imóveis frente aos seus problemas conjugais.

A empatia neste processo, falo por vivência, é praticamente impossível de acontecer. Ninguém que não tenha passado, entende. É como tentar imaginar como se sente uma mãe que perdeu um filho. Tentar entender seu sofrimento. Simplesmente impossível. Essa é uma dor que só quem sente é capaz de compreender a profundidade do dano. E assim acontece com o divórcio.

Pois bem, ouvi de muitas pessoas nesta situação o quanto se sentem sós. Muitas vezes sem abrigo até, ou principalmente, no ceio familiar. Nos pais e irmãos. Nos sogros e cunhados. E isso é, além de comum, muito, muito triste. Porque se vai ao fundo do poço. E para se sair de um poço com o mínimo de preservação física e emocional, de dignidade e com alguma força para recomeçar, é preciso ajuda.

Tenta imaginar! É uma pessoa sofrida que está ali! E tanto ouço declarações de amor de pais para filhos, entre amigos, entre irmãos, sobre estar sempre por perto…. Sobre contar quando precisar…. Na hora boa e na ruim. Então… essa é a hora! E a pessoa, na pior das piores condições, perdendo o dia a dia junto dos filhos, perdendo casa, patrimônio, auto estima e a vida construída até ali, precisa de apoio. Muito apoio.

Na minha história, conforme já mencionei em outros textos, tive os meus pais ao meu lado. Ouvi eles dizerem uma vez à família do pai dos meus filhos, em alto e bom tom, que a minha vida pessoal não era da conta de ninguém, nem deles mesmos, e que por isso não cabem julgamentos por parte de qualquer um, mesmo na melhor das intenções. Minha mãe me defendeu muitas vezes dizendo que eu sabia o que estava fazendo e que isso não me diminuiria como mulher, como mãe e nem mesmo como ex-mulher daquele casamento, daquela relação. E me senti digna por isso. Me trataram com confiança, com respeito. E tenho certeza de que isso fez muita diferença em cada passo que dei a frente. Na minha segurança. Porque acredito sinceramente na importância do apoio para a retomada das pessoas que sobram deste processo todo. Principalmente do que vem da família, seja ela feita de laços de sangue ou de escolhas. Seja ela feita de amigos.

E essa é aquela “hora ruim” das declarações de amor e amizade às quais me refiro.

Então aproxime-se. Abrace. Vai fundo. As pessoas que estão passando pelo processo de divórcio precisam do seu colo, como nunca antes.

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