No fundo, no fundo, falo de família. No fundo, no fundo é isso. Falo da minha experiência como parte deste grupo, seja do meu de origem, seja do que formei. E do processo de divórcio que reestruturou e redimensionou este último, que envolve a mim, aos meus filhos e ao pai deles. Mas o centro é ela, a família mesmo. Porque de tudo que passei, que envolve as realizações, as frustrações, as escolhas que fiz e seus efeitos colaterais, tudo era sobre o valor que esta fortaleza tem para mim. Esta que a gente constrói dentro de casa. Que passa a ser a vida da gente, o porto, o lar.

Releio pouco meus textos. Na verdade, de três a quatro vezes. Uma, ao final de cada produção, para ver se as ideias que se despejaram de mim estão encadeadas, fazendo sentido. A segunda já no blog, após o agendamento da postagem, para conferência e “grifadas” no texto, em negrito, que ostentem os auges da minha história. Das cenas altas da minha vida. Aqui falo de intensidade, é claro. Pois no que tange fatos, auto estima, experiência, muitos fazem partes dos baixos. Dos que atacaram a minha moral. E que mudaram a minha vida, pelas minhas mãos. A terceira leitura faço na revisão para publicação em livro. Que pode demandar eventualmente uma quarta leitura, por conta da demanda de um segundo revisor no processo de finalização.

Pois bem, nestas releituras, principalmente nas vezes que as fiz em sequência, em função do livro por exemplo, foram me mostrando de onde vieram minhas dores mais fundas. Onde elas me revisitavam. Em que momentos o tempo realmente fechava na minha escrita, o que por consequência, trazia a tona os cortes mais profundos. E não foi na dor de amor ou pelo fim dele. Não foi pelo casal ou pelos momentos em que a ausência dele tirou o sentido daquela nossa composição, daquele formato. O meu poço mais fundo foi quando a inviabilidade do casal daquela casa significou para mim, o fim da minha família. Da única que formei até ali, por mim mulher, adulta e mãe. Da que nasceu de mim e morreu, na sua constituição original, em mim também.

Ali estava ela, a família e seus significados na minha vida. Personagem principal das minhas conquistas e dos meus fracassos. E neste campo me vi nos primeiros rabiscos. Na construção da nova história da minha família.

Só que para falar de família, dessa que me é força, motivação, inspiração e esteio, preciso falar do amor que entendo precisar existir entre o casal que a constrói. Do amor que para mim é base para existir família. Seja com quem for, da forma que for.

E falando em amor, enfrentei o meu, esse maduro, forte e novo que nasceu na minha segunda chance. Vou explicar melhor…

Ocorre que, dia desses, em um almoço com casais de amigos, fui questionada por uma das esposas, quanto a história do meu marido, que cruzou com a minha, e que nunca foi tratada nas minhas escritas.

Verdade…. Em nenhum dos meus textos, falo da vida pregressa do homem que escolheu comigo a nossa vida nova e que edificou, há várias mãos, pequenas e grandes, a nossa família de afeto.

Mas antes de falar brevemente sobre a parte da vida dele da qual não fiz parte, e que por isso não me sinto apta a dissertar sobre, o que acharia também um desrespeito com ele, preciso confessar que não a fiz relevante para mim. Propositalmente. Foi um dos exercícios que aprendi e repeti durante a construção da minha vida nova à beira dos quarenta anos. Por um motivo muito simples: preservação. Minha e da família que queria para nós.

Como qualquer outra mulher de sorte, caí, perdidamente apaixonada, quando o conheci. E da paixão, logo nasceu o amor e a vontade de construir uma eternidade juntos. Como já vi em filmes e ainda não conhecia na vida real. Só que eu tinha consciência de que eu não era o primeiro amor dele. Independentemente do tipo de amor, e da intensidade do nosso ser grandiosa, forte, sabia que eu não era a primeira. Afinal de contas, ele havia sido casado antes de me conhecer, e um sentimento muito forte deve tê-lo levado à igreja, de terno, para casar com outra pessoa antes de mim. Assim como o moveu a montar uma casa e expectativas de futuro com esta outra pessoa. Inclusive a de ter filhos. E apesar dos filhos não terem vindo, nesta vida anterior a mim, a idealização e o casamento existiram. Tanto existiram que constituíram massa para rachar, como rachou o meu.

O meu grande amor não chegou a ter uma família, mas teve antes de mim, uma esposa. E essa é uma realidade que preferi, desde o início, sublimar. Simplesmente ignorar, não dar relevância. Porque assim, o nosso presente seria feito só de presente e futuro. Do que realmente importa para nós. E assim, fechei a porta para os fantasmas.

O conheci um homem de quarenta anos. Divorciado como eu. Sem filhos. Por óbvio, com histórias, importante para ele também, mas que absolutamente deveriam flutuar na nossa vida nova. Passamos ambos pelo processo da separação de um afeto, de panelas, de rotinas. Mudamos ambos as nossas vidas antes de nos fazermos aptos na construção de uma nova, nossa. E o processo, sofrido para mim, foi também para ele, que também, precisou buscar a segunda chance.

E o que importa para mim, disso tudo? Não é o seu passado. Não é o que ele foi, o que ele teve, o que ele amou. Isso foi antes de mim. Importa que nos achamos. E que sinto, todos os dias, que nascemos ali, há quase três anos atrás, na paixão e no amor que sentimos um pelo outro. Tipo aquele filme, Como se fosse a primeira vez…

E aí, a família acontece. Uma nascente do amor, como deveria ser, sempre. E então, nada abala. Nem as histórias e vidas que nos trouxeram até aqui.

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