O tempo, ah o tempo…

Tenho uma admiração honesta pelo tempo. Desde sempre. Talvez porque sou uma pessoa bastante sensível, que guardou durante a vida todos os momentos no coração. Nas lembranças. Momentos pequenos e grandes. Desde refeições em família, conversas entre primos e beijos de boa noite, até as vezes nas quais vivi sofrimentos, como o medo da morte dos meus pais, a saudade da distância quando morei jovem, fora do país, ou as dores de amor que geraram letras autorais, em músicas tocadas ao violão, no escuro do quarto à noite.

Guardo com muito carinho e gratidão cada dia que vivi. De forma intensa, profunda. Nasci assim, fazer o que? Sinto o tempo na pele. Valorizo cada grão de areia da pipeta do tempo porque sei que ele vai acabar, e quando acontecer de nada valerão os arrependimentos, os “e se?”.

O fato de senti-lo, no corpo e na alma, traz sensações deliciosas e incomodas as vezes…

Pois bem, primeiro as incomodas, ou menos convenientes. Aqui poderia citar que um menino de em torno de treze anos, me abordou no corredor da escola das crianças achando que eu era a mãe de um amigo dele, também de treze anos. Me senti realmente velha neste dia, considerando que não fui mãe jovem. Que meus filhos são ainda pequenos. Que aquele menino me chamou de “tia”. Mas isso foi só uma sensação de uma superficialidade vaidosa e feminina tamanha, que eu poderia ter suprimido. Porém ok, costumo abrir o coração aqui.

Prefiro então citar neste quesito a minha deliciosa gravidez aos quase quarenta anos. Com todo o respeito às mulheres super ativas da minha idade e mais velhas do que eu, me sinto cansada. Meu corpo não me respeita mais. Vive vida própria. Ganhou este direito nos seus quase quarenta anos. O de não mais acompanhar a minha cabeça agitada, cheia de rotinas, atividades e correrias. O de sentir a rotina com dois filhos nos braços e um na barriga. Meu corpo pede mais sono, pede pés para cima, pede cremes anti-idade, pede botox na testa. Só que grávida, posso no máximo dá-lo uns pés para cima de vez em quando. Com atividades profissionais intensas, dois filhos e duas casas, uma em Porto Alegre e outra em Santa Maria, nem mais sono rola. No entanto, cada um vive e faz do seus dias o que pode. O que tem capacidade de fazer por si e pela sua vida. E eu faço o que posso e vou sendo feliz do meu jeito, na minha condição, chocando meu bebê. Aos quase quarenta.

Só que nada disso realmente me incomoda. Incômodos físicos são da jornada, e estou aberta para abraça-los com todos os recursos que estiverem disponíveis nas prateleiras da vida.

Vou citar então as sensações profundas e vibrantes que o tempo promove. Estas sim me lambuzam. Me enchem de prazer, de gratidão. De tatuagens que coleciono pelo corpo e pela alma. Como os ajustes que o tempo faz na vida da gente. Acomodando as melancias. Sentimentos. Expectativas. Vidas. Porque não dizer aqui, amenizando as experiências fortes, trazendo compreensão, permitindo evolução. Esta última eu acredito que acontece principalmente com o tempo. Por isso o admiro tanto.

No caso, aqui, posso falar da nossa nova família. Das famílias de Joana e Joaquim. Que deram o seu primeiro passo em direção a esta construção quando tudo eram cinzas. Que permitiram o tempo agir. E com ele, aos poucos, fazer melhor.

Eis que neste universo de oportunidades que o poderoso tempo nos dá, vivemos novamente a história do desenho da pomba, que em outros tempos se fez urubu. Em outros tempos, não mais agora. Aos sete anos de Joaquim, por conta da evolução do tempo e da compreensão que ele nos trouxe, o comemoramos em casa, com a presença do pai dos meus filhos. Pela primeira vez no nosso ambiente, no nosso novo lar. Na casa dos filhos dele. E este foi realmente um lindo momento. Sem abraços, sem distribuição de sorrisos, sem falsidades. Apenas real. Feito de adultos operários das novas famílias e que juntos deram mais um passo adiante.

Mais uma vez este foi um pedido deles. Desta vez, de Joaquim. Que queria o pai no seu dia de aniversário, que pelo calendário da guarda compartilhada, era da mãe e do pai afetivo. Que injusto, na cabeça dele!! Não estava certo! Então verbalizou novamente, mais este ano. Ocorre que o tempo e sua magia nos permitiu a todos sermos melhores, desta vez. O que não conseguíamos antes, conseguimos agora. Todos nós, pais e pai afetivo de Joaquim, cantaram parabéns para ele. Comeram sua torta de aniversário, o curtiram uma tarde inteira. Não mais lá, outro cá. Mas tudo junto. E eles, Joana e Joaquim, levaram o pai nas mãos para conhecer a sua casa. As suas caminhas. E assim, como mágica, unimos as vidas de Joana e Joaquim em um momento humano, de evolução, de gente que por amor dá passos largos.

Ao fim, no anoitecer do dia, éramos todos paz. E assim estava a nossa casa no dia de Joaquim. Evoluindo no tempo, construindo amparo, permitindo a nós mesmo chances de desenhos melhores dos que já foram, com fé na pomba que a vida pode ser.

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