Sobre a nossa espera… O nosso Chá de bebê.

Joaquim ficou sentado nas minhas pernas, me beijando, me curtindo. Me alcançando presentes, se surpreendendo com o tamanho das roupas da irmã, das fraldas…. Ficou ali, mudando. Fazendo tudo de forma diferente, conformada. Criando seu novo espaço, de filho do meio. Procurou no dia a dia das últimas semanas as vantagens de ser promovido a ex caçula, mesmo após a provocação do primo sobre o filho do meio ser excluído da família. Crianças realmente sabem ser cruéis e inventar coisas! Mas enfim, conversa de criança que não abalou Joaquim. Encontrou na sua busca um punhado de vantagens e com elas, pulou de cadeirinha. Virou um filho grande, ajudante, companheiro da mãe nos momentos de repouso, irmão do meio…

Joana veio crescendo, virando nestes quase oito meses a irmã mais velha, responsável, cuidadora. Organizou a vinda da sua mana caçula desde que ela era um desejo. No chá de fraldas, não foi diferente. Ciceroneou as convidadas mesmo sem conhecer a muitas, como a dona da festa deveria fazer. Seu carinho comigo e com a minha barriga não deixava dúvida quanto a sua segurança. Quanto ao seu amor por aquela que está chegando.

Eu estava ali, no meio daquela família e daqueles amigos, que há pouco menos de três anos eu não conhecia. Que não eram meus. Que ganhei da relação com o amor que conquistei, pai da minha filha. Que magicamente curtiam o nosso momento nesta história nova, recente e grande. Com frutos profundos, todos naquela sala. E ali eu estava bem, feliz. Em casa. Adaptada. Talvez porque ali, neste tempo, criei meu novo espaço. Construí para mim e para os meus dois filhos. E agora para a bebê Antonella. No lar de amigos e da família que era dele. Do amor a quem ofereci o meu coração, a quem dei o meu melhor. E que agora, compartilha comigo e com os nossos filhos o seu mundo.

Esse mundo, que nos abraçou, fez uma festa à várias mãos, e feita a mão. Cada detalhe foi idealizado e confeitado pelas integrantes da nossa nova família. De enfeites de parede a lembrancinhas. Do clericot ao bolo em forma de roupinha de bebê. Tudo pensado e feito com carinho. Por aquela gente toda que espera esta filha comigo. E a festinha para poucas pessoas, naquela tarde de chuva, transbordou sentimentos bons.

Eis que passado um dia da festa, recebo uma mensagem querida de uma das amigas convidadas. Ela comentava do amor que viu entre minhas crianças e eu, elas e a barriga da mana. E encantada com o carinho que assistiu, me mandou um texto chamado “O menino invisível”. Um texto realmente especial.

Nele uma mãe com um bebê no colo e o filho mais velho nas pernas, pega o elevador do prédio onde moram com um vizinho. Este então pergunta sobre o bebê, com quantos meses está, e outras perguntas referentes a ele, encantado com a criança. Quando o vizinho sai do elevador, o filho mais velho, até então quietinho, comenta com a mãe que se sente invisível. Deste papo, a mãe emocionada explica que todos da família ficamos invisíveis por um tempo quando chega um bebê, e que ele, o mais velho, já viveu este momento. Ela também reforça sua invisibilidade e a do pai, e que este momento dura o tempo de uma novidade. Que logo passaria. Então o evento se repete outro dia e o menino assiste feliz. Agora com o entendimento da coisa toda. E ao ficarem sós novamente no elevador, ele confessa à mãe que este é o momento da mana, e que está tudo bem. Que ele já viveu o dele…

Não fiz jus à emoção deste texto. Contei rapidamente para trazer o episódio ao contexto da minha realidade, da minha escrita. Mas ele é realmente lindo de ler. Porque traduz o poder do bom encaminhamento das coisas, dos acontecimentos, sejam eles quais forem. Independente da força deste movimento, que muitas vezes, como neste caso, move pessoas de seus lugares. Move crianças. Os retira do papel que era deles na vida. Como muitas vezes irá acontecer durante ela toda. Mas que para os filhos tem muita representatividade na chegada de um irmão.

Não fiz toda essa reflexão no nascimento do meu segundo filho. Me arrisco a dizer que quando vivemos na família tradicional pensamos menos. Temos menos cuidados. Deixamos rolar mais as coisas. Porque os componentes responsáveis por todas as escolhas que aquela família faz estão bem ali. Desde seu início. Então prevalece o poder do obvio e de poucas palavras.

Só que na nova família, cada um traz suas escolhas anteriores. Traz outras realidades para coexistirem juntas. E aí, cada novo ingrediente é cuidadosamente pensado, dosado e observado. Se cria com todo o zelo o espaço para ele. E foi assim que a sementinha da Antonella brotou na nossa nova família e no coração de cada um. Devagarinho, fazendo espaço, cuidando para não roubar nada de ninguém.

Dá trabalho, oh se dá…. Mas é lindo de ver. E quem estava conosco naquele dia, naquela festinha pequena de um sábado chuvoso, assistiu. E agradeço pelo carinho de trazerem a mim esta percepção. Pois nem sempre sabemos se o resultado de tudo que construímos no dia a dia está legal, está certo. Está fazendo feliz quem mais amamos.

E saber que transborda, pelos olhos de fora, enche o meu coração.

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