Sobre o dia de não tê-los aqui…

Falo agora como mãe. Egoísta com seus pintinhos, protetora, possessiva. Todas são, umas mais, umas menos. Eu, tenho exercitado a humildade neste sentido, escrevendo, escrevendo… me autoconhecendo, olhando para o fato dos meus filhos não serem meus, mas apenas virem de mim e por um tempo me habitarem efetivamente. Fisicamente. Mesmo que para sempre na alma. O resto é subjetivo, exige grandiosidade. Respeitar a distância, o silêncio, vê-los de longe… deixá-los irem e virem. Sem invadi-los, sem cobrá-los quando se trata de afeto e da forma de demonstrá-lo. Porque neste momento, este para o qual tento me preparar, o que ensinei sobre valores, afetos e família, já estará lapidado neles, ou a ferro e fogo, ou a pó de giz. E será, do jeito que for, o valor deles. Com tudo que receberam e receberão ainda dos seus mundos, das suas famílias, da vida lá fora.

Venho me preparando para o dia da escolha ser deles. Essa escolha que protejo, que torno hoje uma vantagem dos pais, dos adultos, e que dou o nome de responsabilidade, que soa mais bonito e me empodera.

Eis que exercitei com o Joaquim como seria a nossa vida o dia em que ele não morasse mais em casa. Desenhando sua vida de adulto, independente, sozinho, quem sabe casado, ou simplesmente o que seria o caminho natural dos filhos. Sair. Mas que no nosso caso de nova família, de filhos compartilhados, possibilitaria a mim o enfrentamento desta realidade antecipadamente. Pela escolha, quando pudesse fazê-la, de não morar na casa da mãe, mas do pai. Um dia que pode chegar, como já chegou para muitas mães de famílias diferentes.

Perdi a fome quando este pensamento permeou minha mente pela primeira vez. Considerei o Joaquim por ser um menino de personalidade livre, aventureira, moleca. Testadora. Por ser o que lida mais naturalmente com as idas e vindas das casas de suas duas famílias. Por ser o que menos se impacta com as trocas de ambiente, de organização, com a situação toda de uma forma geral. Diferente da mana que reconhece as diferenças de seus lares e tem mais consciente o lar o qual considera base, referência. Não por uma escolha de amor, mas pelo simples olhar organizado a que propõe sua personalidade, e que determinou que pode amar e conviver com o pai, morando na que considera a sua casa. Que por acaso é a nossa. E que poderia não ser, mas é.

Voltando então ao exercício com o Joaquim, ele sempre me surpreende. Perguntou outro dia se quando não estiver mais morando aqui, poderia voltar para casa quando quiser. Se eu o aceitaria de volta para dormir, para almoçar, para ver tv junto. E eu pensei…. Todo mundo tem medo. Cada um o seu. Eu com medo de perdê-los para outro lugar, para outra casa, para outra vida. O que preferiria não chamar de medo, mas que ajudaria se fosse assim, como forma de me preparar. Emocionalmente, honestamente, sem mexer no afeto como fuga, mas sim na capacidade de compreender as trajetórias da vida. De ama-lo sempre mais, independentemente de suas escolhas. Ele, na sua condição de criança, de filho, pensando em como se preparar para aguentar sair. Como ficar fora, longe da mãe, ou do que lhe é seguro. Como poder crescer mantendo as migalhas de pãezinhos, como fizeram João e Maria, que o trariam de volta para casa, lhe dando garantias. E buscando naquela conversa sentir a segurança de ter para onde voltar.

E o medo, aquele em mim e nele, mostrou mais uma vez a sua face amiga. Aquela, que protege, que valoriza, que reconhece, que vulnerabiliza. Que ama. Que cria empatia. Esse sentimento tão humano, tão afetivo, tão fraterno. E naquele momento, naquela conversa, nosso amor um pelo outro transbordou. Esquentou o coração e deu segurança. Segurança, sim. Não a de que estaremos juntos, na mesma casa, por todo o tempo que ambos gostaríamos. Não a de possuir um ao outro. Mas a segurança mais verdadeira, a melhor de todas. A mais honesta. A do afeto. O que naquele momento nos dávamos conta, ambos, que é a única da qual precisamos. A que nos fará bem, amados, completos, de qualquer lugar onde estivermos. E que nos faz eternos no amor, enquanto mãe e filho.

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