Sobre saber pedir ajuda…

Tenho muito a aprender… esse é um processo diário que me comprova o quanto posso ser melhor quando me assisto em algumas situações desafiadores e reajo de formas que ainda me envergonham. Essa semana aprendi mais uma vez através da minha filha Joana. Minha pequena grande mulher. Forte e vulnerável, me admira cada dia mais a sua personalidade. Porque este ensinamento eu já tive: o de que a fortaleza está na vulnerabilidade. Na humildade em reconhecer suas dores, suas fraquezas, seus limites. Mesmo que me debata ás vezes, sob a serpente da falsa fortaleza e do falso controle.

Estamos neste momento às vésperas da chegada da bebê da casa e tudo ficou meio turbulento por aqui. Aquela tal de lei de Murphy, que se apresenta nos momentos super adequados para este tipo de ocorrência mágica, se fez real nas nossas vidas, quando demandas de trabalho, pessoais e financeiras se apresentaram. Todas juntas, exatamente quando o mar deveria estar calmo e sob controle. Pois então, não controlamos tudo. A vida tem vida própria. E um vento trouxe desafios bons, e outros nem tanto para o nosso lar.

Já fazem pelo menos quatro semanas que trabalho de casa. Por conta de uma ameaça de parto prematuro, precisei repousar. De pernas para cima. Evitando caminhadas pela casa, subidas de escada, mas principalmente, me tirando da minha rotina louca do dia a dia.

Olhem como as coisas são. Este foi o primeiro dos desafios que chegou. No mês do lançamento do meu livro, oriundo deste projeto o qual mergulhei com tanto afeto, orquestrei-o sentada. Com toda a energia imputada neste sonho, o sonhei de casa. Até o dia da sua realização. No qual fui levada e o vivi emocionadamente sentada. Da mesma forma, na minha profissão, na qual realizo uma atividade executiva, precisei me ausentar “presencialmente” logo no período que deveria estar sendo preparado para a minha saída de licença maternidade. O construí, inevitavelmente, de casa. Meus pequenos, Joana e Joaquim, em mês de início de aulas e compra de material escolar, contaram com a participação incansável e querida do pai afetivo, que por muitas vezes precisou me substituir em filas de compras de livros e nos “leva e traz” de crianças. Os assisti de casa.

Falo deste como primeiro desafio porque limites cada um sabe dos seus, quando se conhece. E um repouso mexe bastante com a minha natureza agitada, livre e envolvida. Neste tempo escrevi muito, muito mais do que fazia na minha rotina normal. Li livros, respondi e-mails concentrada, enxerguei novas alternativas para o tanto de projetos que tenho agora, com três filhos. Vivi um pouco da rotina da minha casa. Vi meus filhos iniciarem o ano letivo, arrumei suas mochilas com calma, estive com eles todas as manhãs. Um monte de coisa boa que tive que saber receber em troca da perda da minha livre movimentação diária. Daquela que sempre foi grande parte de mim, da minha personalidade, da minha necessidade. Porque estamos aqui para aprender, e saber mais de mais coisas. Não só do que achamos que dominamos. E nestes terrenos desconhecidos, ficamos pequenos, frágeis, vulneráveis. Talvez porque simplesmente não sabemos como agir, como se portar.

Desta nova cadeira na qual me coloquei, vi outros desafios chegarem. A proximidade do nascimento da Antonella e os medos de cada amor meu dentro da nossa casa. Estes que transitavam entre preocupações naturais com a saúde da bebê, até a pintura do antigo berço da Joana para uso da mana, ainda pendente. Ou a ausência de estoque de fraldas, a movimentação de funcionários importantes nas nossas empresas, e os desarranjos que acontecem na vida de quem vive muitas coisas e pessoas ao mesmo tempo… E do ponto de onde pude acompanhar a chegada de cada um deles, de fora da maratona, me permitiu perceber a angústia, sentir a impotência e me colocar vulnerável. Quieta, apenas observando. E administrei, sem pedir ajuda. Seguindo ali, no meu repouso, ajeitando as pontas. Buscando um olhar otimista sobre a vida do jeito que é, e do que não é, deixando passar. Apática, deixei as coisas acontecerem da forma possível, considerando um cansaço real de final de gestação e do ciclo da espera.

Eis que em uma noite de domingo, após um final de semana pré nascimento da bebê e cheio de emoções a flor da pele por este tanto de mudanças, a minha Joana, com toda a sua sensibilidade, me pediu ajuda. Chorou. Se viu carente, com maior necessidade de colo, principalmente do pai afetivo, no qual percebia preocupação. Queria estar mais perto de nós, mais ainda. Mais perto dele, o grande acumulador de funções do mês. Porque ela é doce, sensível e perspicaz. Percebeu a situação dele, a ansiedade da espera da bebê, e precisou estar junto. E assim, me pediu ajuda por não saber como chegar.

Cansada nesta noite, neguei ajuda a ela. Quando desvalorizei a sua preocupação, seus sentimentos, e pedi que ela simplesmente entendesse que existem momentos assim, e que neles é preciso respeitar o tempo de cada um. Eu não estava errada sobre cada um ter seu tempo, suas reações a momentos desafiadores. Mas me equivoquei quando sublimei o que ela sentia a respeito e o quão grandiosa estava sendo dividindo comigo sua vulnerabilidade, seus medos, dificuldades e ali, pedindo ajuda. E nada é mais forte do que isso.

Fui dormir estranha. Para a minha sorte talvez, estar conectada aos meus sentimentos e ao que é valor para mim permitiu que nesta noite meu corpo adoecesse pelo que fiz com aquela reação junto a minha filha. Ela dormiu chorando a partir de uma exigência minha de objetividade. Logo eu, que sou tão subjetiva. E não consegui dormir. Torcendo para que o dia chegasse logo e eu pudesse abraça-la. Porque não interessa como o mundo é ou como as pessoas são. Interessa o que está acontecendo dentro da gente e a forma como tratamos isso. Este ser humano a partir de onde tudo acontece na vida da gente. Que nos faz próprios. E não será de mim, da sua mãe, que ela aprenderá a se colocar de lado e aos seus sentimentos.

Acordei e corri para ela. Ela levantou doce, como se, ao contrário de mim e da minha culpa, sua noite tivesse sido de sinapses. De entendimentos. E ao dividirmos o quarto, entre uma trança no cabelo para a escola e um bate papo despretensioso, tive medo e admiração por ela. Porque naquela noite foi ela quem me ensinou. Fui eu quem não dormiu. E ali, ouvi dela que a noite tinha sido tranquila. Que ela descansou. E que existem situações e pessoas, fora da gente, que são do jeito que são, e que não nos cabe mudar. Mas sim fazermos nós, no âmbito do que controlamos, o que achamos certo.

E aí desceu para o almoço, parou em frente ao pai afetivo e perguntou se poderia abraça-lo. Ofereceu genuinamente seu afeto, ao invés de pedir, como na noite anterior o fez. E nos emocionou, porque simplesmente aprendeu na sua simplicidade, que só pode controlar e depender do que vem de si própria. Que a partir de si poderia mudar as coisas, os ambientes, o sentimento de fazer a sua parte, de dar o que pode a quem ama. Sem esperar de fora. Sem cobrar. Apenas atendendo ao seu coração. Ao que achava ser certo.

E aí aprendi com ela. De novo. Com essa menina que entende de sentimentos. Que os escuta, lá dentro de si. E que me esforçarei para não mais sublimar.

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