Puerpério: Culpa silenciosa, oficina do diabo…

Totalmente culpada. Caí na armadilha da culpa neste momento vulnerável e novo para o qual tanto me preparei. Logo eu, uma pessoa treinada para não cair nessa… não nessa. Que arrogância a minha. Afinal, não sou melhor do que ninguém. Me trato, me preparo, falo e escrevo sobre tudo o que é exigente para mim, e mais especificamente sobre os desafios da família. Mesmo assim vivo as surpresas e os sentimentos dos otimistas, que não perdem sequer minutos do seu tempo elaborando cenários de turbulência.

E não sou daquelas que ignoram cenários. Principalmente os de família. Dos que mais me importam.

Desenho cada aresta com minúcia, com cuidado nos atos e nas palavras, ao ponto de ser um tipo de chata. Daquelas que observa detalhes e os coloca no grande quebra cabeça que são as relações humanas. Passo atenta aos meus amores, filhos e marido, e sobre cada passo que dão, cada escolha, cada resposta, cada pergunta. Observo cada olhar, cada expressão. Acho que essa foi uma forma de eu garantir, desde o início, que este cuidado me permitiria fazer o melhor possível. O meu melhor. Na busca de realmente contribuir com eles e nas suas dificuldades. Mas principalmente, intuindo não repetir erros antigos, modelos do que fui e os quais quero mudar, evoluir no que for possível, considerando quem eu sou. Considerando a minha natureza. De fato, uma leoa, e um pouco controladora, sempre querendo proteger, garantir e organizar tudo do jeito que acho mais certo, melhor. Além da necessidade de ser útil nessa vida, sem ser esquecida por mim própria. Produtiva nas minhas relações mais caras. No caso com eles três, agora quatro, comigo cinco.

Justo, não é? Afinal, vim do fundo de um poço e seus aprendizados me dão subsídio para não mais voltar lá.

Só que me vi naquele momento, pós operada e com a nossa bebê nova em casa, com menos de uma semana, culpada frente as crianças. Atrapalhada. Decepcionada comigo e com o meu plano de tudo sair às mil maravilhas na nossa adaptação em casa. Conforme treinamos com tanto cuidado por mais de nove meses. E que decidi contar aqui, por conta de seus efeitos devastadores, considerando sua chegada traiçoeira.

Saí em uma quinta-feira de sol para parir a nossa Antonella. Saí quatro, voltei cinco. E essa chegada da bebê, preparada desde que ela era só um sonho, veio balançando estruturas sedimentadas com muito cuidado nos últimos três anos. Mostrando que o fato de planejarmos as coisas, não evita o “golpe”. Apenas cria condições de resposta, condições de levantar. Dá base para isso. Porque na prática, na vida, são outros quinhentos, como se diz por aí.

Tive uma cesariana complicada. Fiquei mais tempo em cirurgia do que o previsto por conta de um vaso importante que foi rompido durante a retirada da bebê. Sangrei muito, o que me fez deixar a sala tonta, enjoada e com muito frio, dado o tempo em que fiquei aberta em mesa. Saí dali feliz. Muito feliz. Assisti ao nascimento do meu terceiro bebê, da minha Antonella. Sensação genuína a qual subestimei quando achei que por já conhecê-la, pela experiência com Joana e Joaquim, me emocionaria menos, ou, de novo, estaria mais preparada. Que nada… golpe de novo. Vivi minha terceira primeira vez. Tomada de amor e emoção.

Só que na maca, naquela situação de desconforto e sentimentos fortes e bonitos, tive também culpa. Um monte dela. E ela foi maior do que a minha consciência naquele momento. Daquela que sabe que culpa é arrogante, que é se achar no poder de destruir ou elevar a vida alheia, de dominar pessoas e momentos, de controlar tudo. De ter outros dependentes da gente a tal ponto, que a nossa falta seja irreparável, insubstituível, devastadora na vida do outro. Quando na verdade, muitas vezes, mal damos conta das nossas próprias demandas.

E assim cheguei em casa. Culpada. Por ser mãe de três e naquele momento ter que estar mais para um do que para os outros dois. Mais para o bebê. Por, naquele momento, não poder ser a leoa controladora, das emoções dos meus filhos, da casa ou do meu marido… tão arrogante. Culpa que nasceu no terreno fértil e doente da ilusão do controle. Tudo o que passei os últimos três anos trabalhando contra.  E aí, contei com a base. E com o meu companheiro, meu computador.

Sentei em uma noite após coloca-los na cama e escrevi. Coloquei a sensação ruim, a frustração, a culpa, para fora. Fora de mim. Na tela. E aí, me salvou a base. O trabalho emocional que venho fazendo comigo mesma nos últimos anos. O que me permitiu tirar de mim a arrogância que me manteve no casamento pelos meus filhos. A que me povoou antes de eu encontrar no compartilhamento deles um modelo para as nossas vidas. Para a construção de uma vida nova. Quando entendi que não posso protege-los de tudo nessa vida, e que alguns acontecimentos serão parte da jornada deles, de amadurecimento, de evolução, de construção.

E então, voltei para o meu lugar. Venci pela minha escrita a culpa, e saí deste papel onipotente e onipresente de rainha do lar, da família, para a posição simples de mulher. Mãe, operada de uma cesariana. Com dor, precisando de recuperação, precisando reconstruir a muitas mãos a nova rotina. Não ditada por ninguém, mas feita por vários, por amor. E assim redesenhamos nossos dias na nossa casa, diferentes de antes, acomodando as novas posições, felizes com o nosso bebê. E tudo ficou bem aos poucos. Nós cinco fomos ficando. Nos recuperando, nos reconstruindo. Eu, cada vez mais apaixonada por eles e pela sua capacidade de abraçar, com o trabalho que fizemos juntos.

E foi-se a culpa. Vai saber até quando esta maldita se apresentará a mim ainda… esta inimiga da vida, da liberdade, da lucidez. Da autenticidade. Da verdade. Odeio ela. Juro. Porque ela é cobra, espreita os mais preparados e os menos, pois chega licenciosa e se estabelece. E aí te pica, te envenena. E te consome.

Assim foram meus primeiros momentos felizes ao lado do nosso novo presentinho. Felizes e cheios de culpa. Essa que logo me dei por conta e mandei para a tela, e depois para o espaço. Que tentou estragar o meu momento lindo. Mas que não me pega de jeito mais. Não enquanto eu me conhecer. Não enquanto eu tiver o meu computador, a minha consciência e esse tanto de amor.

 

 

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