Sobre túneis e adoecimentos.

Existem coisas que me encantam e me assustam ao mesmo tempo na vida. Me encantam pela capacidade mágica de se parecerem diferentes a cada ângulo. De, conforme a posição que você senta para encara-las, parecerem certas de um jeito, ora parecerem erradas, ora parecerem de outro jeito completamente diferente. Por serem em alguns momentos exigentes, em outros, oportunidade. E assustam por, em alguns casos, nos fazerem mudar de ideia, mudar de lado, reescrever. E aí, precisa coragem.

Olha, viver tem me exigido coragem de uma forma geral. Porque não sou perfeita. Sou de carne e osso. E tenho uma mente, que apesar de aberta e profunda, de poucos finitos, vacila. Se perde. Se atrapalha. E eventualmente, adoece.

Aprendi na vida a me respeitar. Não foram poucos os meus enfrentamentos, quem conhece a minha intimidade, sabe. E por este motivo, também não foram poucas as atrapalhações, os percalços, e até os adoecimentos. E não foram poucos os túneis escuros. Estes sobre os quais hoje escrevo, a fim de ressignificá-los.

Quando comecei a escrever crônicas, trouxe em um dos meus primeiros textos o túnel no qual me encontrava quando cheguei à luz que culminou na minha separação. Às luzes de New York. E naquele texto minha visão de túnel escuro era sinônimo de fim da linha. De fundo do poço. De encerramento de um ciclo.

Só que a vida ensina. E para me fazer aprender, me trouxe outros túneis, me mostrando que estes não são fins, e sim caminhos. Em uma jornada, altos e baixos, planaltos e planícies e curvas e transições são marcadas por túneis. Alguns curtos, outros mais longos. Alguns com iluminação e super infraestrutura, outros que exigem da gente lanternas. Alguns fluentes e claros, outros claustrofóbicos. Alguns esculpidos na natureza, outros construídos por nós mesmos.

O que ocorre é que todos possuem uma saída do outro lado. E o que diferencia a passagem por eles, levando em consideração todas as suas possíveis características, são as ferramentas que possuímos disponíveis na mala. E aí, nem sempre estamos carregando uma lanterna. Nem sempre achamos o interruptor que ilumina o caminho. E nem sempre somos capazes de atravessa-los sozinhos.

Ressignifiquei o túnel que separou o meu antes e o meu depois. Aquele que, na época, foi fim de linha para mim, sem saída. O considerei apenas um túnel dos vários que encontrei depois. Um túnel, do qual saí de mãos dadas com dois dos meus filhos. Um daqueles carregados de medos, de expectativas e idealizações frustradas. Carregados de vida real. Mas que teve a saída possível. Da qual eu fui capaz naquele momento. E que não seria referência de desfecho para os tantos que viriam e virão no decorrer da minha vida.

Então…. Na minha licença maternidade, logo após o nascimento da minha caçula, iniciei a entrada em um túnel o qual não estava exatamente preparada. Digamos que, no universo das idealizações, fui acometida pela arrogância e ignorância de achar que em casa na qual comem quatro, comem cinco. Que quem cria dois filhos, cria três.  Que eu e o amor da minha vida somos invencíveis. Que os meus filhos são as crianças mais resolvidas emocionalmente que eu conheço. Que controlo a minha casa.

Muito dessa minha crença foi minha realidade também até ali, aquele ponto.

Então nasceu a nossa bebê. E eu caí do cavalo. Na queda, bati a cabeça e me atrapalhei. Abri minha mochila, esta que carreguei e alimentei de ferramentas a partir de uma vida de experiências, minhas e assistidas, e não achei a minha lanterna. E na completa escuridão, tateei derrubando coisas, misturando pessoas e expectativas, sujando tudo. Que difícil isso…

Em muitos momentos eu, que sempre fui completamente atenta aos meus filhos e marido, subestimei os reflexos da mudança em cada um de nós com a chegada da nossa pequena.  No que era além da alegria imensa de tê-la. Mais fundo, mais profundo. Na dor. Na perda que cada um de nós tivemos no nosso íntimo. Na falta da liberdade do casal que, de quinze em quinze dias, tinha um final de semana só seu. Naqueles pais que éramos, de duas crianças criadas, e adaptadas à realidade que escolhemos para nós, após atravessarmos o nosso túnel da construção da nossa nova família. Na falta do sono. Na perda da mãe como ela era, para os meus filhos mais velhos. Na rotina bagunçada de uma casa na qual até a ajudante do lar se atrapalhou no serviço. Naquela linda bebezinha, que neste ambiente de tensão, pouse a chorar, e chorar. E na mãe que me tornei a partir de todos estes acontecimentos, e que, arrogantemente, achou que só no meu colo ela se confortaria.

Que atrapalhação. Quantas portas usei para fugir da responsabilidade de olhar sobre a minha necessidade de pedir ajuda, sobre a minha falta de ferramentas para este momento….

Nos bagunçamos todos. Mas nessa bagunça generalizada, orquestrada de certa forma por mim, e que nos colocou em um túnel familiar, me senti mais humana e imperfeita do que nunca. Uma mulher que, em um lapso na sanidade que entendeu estar conquistada, menosprezou as curvas e túneis que a vida ainda traria. Na emoção dos filhos e do marido, que por óbvio, não estavam sob o seu controle. No fato de que eles têm seus tempos, seus jeitos de atravessar a mudança. Que neste processo de construção do nosso novo mundo, agora de cinco, iríamos todos errar, naturalmente. E em alguns momentos acertar, por existir naquela casa, amor.

Mas voltando na frase que fala sobre eu aprender a me respeitar, preciso dizer que neste caminho, ouvi vozes amigas de coração aberto. Aceitei ajuda oferecida de profissionais das emoções atentas a mim. E na escuridão de mais este túnel da minha vida, e que está longe de ser o último, dei às mãos a quem estendeu a mim. Busquei os braços e o abraço do meu parceiro de vida. E respeitando os nossos tempos, os nossos entendimentos, e considerando as ferramentas que cada um de nós possui para atravessar momentos exigentes como estes, iniciamos a construção de novos degraus na nossa história. De novas conversas. Com horizontes mais reais. Com mais vulnerabilidades e menos fantasia. Encarando o fato de que vamos errar. Mas também acertar. De que algumas conversas são muito exigentes, e demandam de muita coragem. E que pode se passar por túneis escuros de mãos dadas, e assim deixá-los para trás.

Basta compreender que é nesse trajeto, escuro, que a evolução acontece. E que é dele que saímos melhores, com bagagens amigas e com construções fortes construídas sobre genuína vulnerabilidade. E que edificam a real felicidade em cada depois.

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