Família de margarina? Nós?

Ouvi estes tempos que a minha família parece comercial de margarina. Que as fotos lindas postadas em Instagram e como pano de fundo das minhas crônicas, assim como o meu olhar otimista sobre cada acontecimento no nosso dia a dia de nova família, torna a nossa vida referência. De uma felicidade idealizada. Criando uma impressão de que acordamos todos lindos, bem vestidos, em uma iluminada mesa de café da manhã, e nela todos rimos de piadas intimas.

Pois bem, não somos família de margarina. Quer saber? Somos melhores, até. Porque a nossa é de verdade e a de margarina não é. Porque não existem só dias felizes. Porque nem sempre acordamos, eu e o meu marido, com beijos intensos, até porque temos noites longas com uma bebê. Também não faz sol lá fora todas as manhãs. E nossos filhos, nem sempre acordam bem-humorados, nem sempre conosco, nem sempre educados. Temos dias estranhos, cansados. Temos também manhãs solitárias, quando meu marido está fora a trabalho ou as crianças estão na casa do pai. Temos manhãs chuvosas, e o meu cabelo, hoje ondulado, reage a chuva e altas temperaturas.

Aqui tem desafios, um monte deles. Afinal, somos uma nova família e vivemos a rotina do compartilhamento. Não gostamos todo o tempo das coisas como elas são. Nem sempre é do jeito que planejamos, pois decidimos muito a várias mãos, levando em consideração muitos indivíduos. Não só o nosso prazer. De uma simples viagem de férias a decisão de presenteá-los ou não com um PS4, um vídeo game, para os antigos como eu, que não dominam as novas siglas destes aparelhos modernos. Vivemos impasses de família, comuns na convivência em grupo. Temos contas e daquelas fora do planejamento também. Batemos o carro, ficamos a pé, andamos de Uber, pedimos carona. Temos dias ruins, como todo mundo. Inseguranças, medo de perder quem amamos. Erros de percurso que às vezes nos custam caro, financeira e emocionalmente. Porque somos seres humanos. Hoje muito mais conscientes dos caminhos que desenhamos para nós, mas gente. De carne e osso.

Todas essas coisas, toda essa imperfeição, é o que nos faz reconhecer a real felicidade nos momentos que temos, esta que construímos com cuidado no dia a dia do nosso lar, e que começa na mesa do café da manhã. Nesta que, a cada amanhecer, temos a oportunidade de fazer mais legal. Com mais amor, com mais respeito. Com mais cuidado com quem amamos. Porque já vivemos desconstruções, e mesmo importantes para nós e para estarmos onde estamos hoje, doeram. E repeti-las, depende dessas manhãs. Da intenção que temos ao acordar. Ao sentarmos nós cinco, às vezes nos três, às vezes eu e a bebê, e construirmos ambientes de afeto. E a nossa, é realmente muito boa. É feita de todo coração. Com muita vigilância em cada momento vulnerável de um de nós. Atentos a cada mudança que nos desafia. Essa, que ocorre organicamente com um, com outro, por conta de um acontecimento, de um comportamento, de uma fala. Daquelas infelizes. A que todos estamos sujeitos. Cheia de erros e acertos. Mas nos mantendo conectados, sempre juntos.

Talvez esse seja um ingrediente que faça a diferença. Passar por dores, por disrrupções, nos tornam mais atentos, mais cuidadosos. A escuridão de ver se esvair uma estrutura familiar uma vez, nos torna realmente vigilantes. Mas infelizmente não nos isenta de auto boicotes ou de sermos lavados por ondas de incapacidade ou incompreensões para lidarmos com algumas situações. Pois como coloquei aqui e em outras oportunidades deste projeto, não é fácil ser nova família. São muitos sentimentos, muitas pessoas envolvidas, novas e velhas conexões, redimensionamento de lugares e valores. E por isso, nos empenhamos tanto. Exige tanto de nós. E tudo o que é bom, é forte, dá trabalho para construir.

Pensei sobre este conceito por conta daquelas propagandas lindas, emotivas e engraçadas dos cafés da manhã das marcas de margarina. A vida imita a arte e a arte a vida, na minha humilde opinião. Cenas felizes acontecem o tempo todo. Não é incomum termos, como qualquer família que se quer bem e junto, viver momentos de alegria e leveza. Rir na companhia do marido e dos filhos. Mais fácil ainda no café da manhã, quando temos ali uma oportunidade de começar de novo, talvez melhor do que fomos antes de dormir na noite anterior. Mas ninguém é isso o tempo todo, e não há nada de errado em discutir, em sofrer de saudade, em precisar pegar pesado com as crianças ou ouvir dos que se ama que não está sendo suficiente na sua função. Foi em momentos assim que construímos nossas evoluções como indivíduos e como família. Que avançamos uns com os outros no respeito e na admiração. Que acertamos arestas. Ou mesmo, que nos vimos em situação de nos modificarmos, individualmente. Olharmos para dentro e vermos algo feio que precisava melhorar.

Aí que digo que as famílias, a minha e talvez a sua, seja melhor que a de margarina. Porque aquela, do comercial, acaba ali. Não precisa evoluir nem se conhecer melhor. Não precisa ser cuidada para não desmoronar. Não demanda de diálogos corajosos na construção de relações mais verdadeiras.

Por isso não se iluda com as aparências. São apenas fotografias. No íntimo, sem filtros, podem ser até melhores. Pois a família de margarina não é real, e se fosse, tenho certeza que não a faria feliz. Afinal, se cresce nos debates. Se embeleza a necessidade de um trato. Se ri junto na construção da intimidade, e nesta, só com dias bons e ruins. E margarina, ah… essa não é boa para ninguém.

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