A rapadura é doce, mas não é mole…

Não sou psicóloga nem neurologista, mas posso afirmar que existem áreas no cérebro que apagam as experiências de exaustão com os filhos, logo que elas passam. Algo como um aspirador de pó talvez, que suga os estilhaços das fazes mais difíceis, não deixando qualquer pista. Assim, a gente esquece. E se alguém contar o quanto era ruim e pesado, essa pessoa é simplesmente louca. Pois para uma mãe, jamais aconteceu bem assim.

Nossa bebê está com sete meses e eu me sinto exausta. Sem a minha capacidade completa de raciocinar, de elaborar questões simples do dia a dia. Senti essa dificuldade recentemente, pois até agora, parece que o meu corpo e a minha mente estavam usando combustível armazenado dos últimos anos… talvez aquele guardado nos finais de semana do compartilhamento os quais éramos só eu e o meu marido, na maior flauta.

Pois então, acabou meu gás. E aí, quando cheguei neste estágio abaixo da linha razoável do cansaço, o aspirador do meu cérebro cuspiu minhas experiências com Joana e Joaquim. Aquelas que eu havia esquecido. Aquelas da falta do sono, das dores nas costas, da falta de tempo para lavar o cabelo.

Difícil explicar para quem não é mãe. Para qualquer um, até para o pai que me assiste, ao meu lado. Porque mãe não dorme com os olhos fechados depois que tem filhos. Quero dizer, concentradamente, tipo entregue ao sono. Às vezes assisto meu marido dormindo cansado, entregue a Zeus, Deus do sono, e sinto saudade de quando dormia assim. Porque mesmo dormindo, o quanto posso, na minha rotina de três filhos em idades e demandas diferentes, estou sempre ligada, sobre aviso. Antenada aos barulhos da casa, ao choro de pesadelo ou insônia dos maiores, à fome da bebê ou quando ela perde o bico. Sempre acesa. Tipo fotocélula. A qualquer movimento, pá! Meus olhos acendem.

Assim, de arrasto, me vejo com dificuldade de organizar minhas ideias, naturalmente. Para fazer qualquer coisa preciso me concentrar. Até para escrever. Olho para o nada e as coisas que me tocam caem uma a uma no terreno fértil da minha mente, sem gerar a ânsia de pegar o bloco de notas do celular e desandar a escrever. Simplesmente porque me sinto abduzida. Fora do corpo. Talvez em uma nuvem, dormindo, pairando por aí. E então, ali e aqui, perco insights, e me ponho a cantá-los um a um, de joelhos, como faço com brinquedos, copos e roupas pela casa.

Essas são as “roubadinhas” dos filhos. Os pequenos furtos inocentes às nossas mentes, à nossa vida social, à nossa disposição como mãe e mulher. Que neste ato, nos exigem uma superação incrível para vencer a maternidade. Sair dela viva e melhor na condição de mãe e de mulher. Porque quem produz o que uma mãe consciente das suas funções produz, já pode se considerar um ser diferenciado, no mercado e em um casamento. Porque acreditem, eu nem sempre fui mãe.

Já fui uma gata disponível, com tempo para me arrumar e maquiar para o parceiro, para me manter em dia nos exercícios físicos, para ficar uma semana fora de casa à trabalho. Já foi bem mais fácil ser mulher e profissional. Já tive agenda de happy hour com as amigas, e vida social agitada. Já venci um livro de quinhentas páginas em três dias. Porque essa já foi a minha vida fácil, mas não a melhor. Não a que me envolvi e me assisti me superar e ir além. Não a que me fez descobrir como cuidar do meu corpo e da minha alma, além dos meus três filhos. Não a que me senti tão completa como mulher e amante do meu marido.

Pois nas adversidades que as minhas melhores habilidades se desenvolveram. Quando conheci uma mulher madura de testa franzida, mas elástica. Capaz de estar aqui e lá. De enjambrar o cabelo e descer, após por três filhos na cama, para um vinho com o marido, em comemoração ao fim da maratona daquele dia. E assim, às 23:30, dar risada do dia surreal que venci, ou chorar de cansaço. Vivendo um de cada vez. Sendo de novo criança. Se escondendo nos cantos da casa para uma paradinha, um rascunho no bloco de notas, um beijinho roubado na porta do banheiro, ou no entrelaçado dos pés, naquelas poucas horas de sono sobre a nossa cama…

Porque amanhã é outro dia. De pouco sono e trinta horas. E eu quero acordar uma linda mulher de quase quarenta, com três filhos massa e apaixonada pelo meu marido. Simplesmente porque no que só depende de mim, é minha responsabilidade. E agora eu sei, eu posso. Mais do que nunca. Pois eles me ensinaram, no amor e nos desafios que me trouxeram em ser mãe, que o prazer e a beleza se fantasiam nos cantos, nos bosques da vida. O que parece improvável e surpreendente.

E isso pode ser bastante sedutor…, além de feliz.

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