O peso da abelha operária…

Se as minhas amigas psicólogas e psicanalistas me lerem, vão me atribuir o auge da arrogância. Mas sim, é a pura verdade. A mãe da nova família, essa que compõe com todos os seus amores a nova constelação, está no centro de tudo. Na base deste empreendimento. É quem segura a viga principal da construção. Quem administra todas as demandas para que não explodam as partes, para que não se ultrapassem limites. Para que flua o amor, para que ele aconteça. Cria ambiente, condição. Protege, administra situações atravessadas que acontecem eventualmente em qualquer família, mas que na nova exige um cuidado especial. Estímulo, doses de otimismo nas dificuldades. Enfim, sempre orquestrando coisas, rotinas e pessoas. Ou seria um potencial campo minado, como são os campos familiares. Mais duro do que já é a reconstrução em terreno compartilhado. A obra que envolve juntar novas pessoas e afetos.

E aí, fica no meu imaginário se dariam certo, as novas famílias. Ou a maioria delas…

Esse pensamento repugnante me tomou outro dia, e resolvi externa-lo só porque ele existiu. Porque passou na cabeça e me judiou por instantes. Porque me revisitou vez ou outra, em momentos de dificuldade. E talvez, porque ele tem um valor importante, peculiar, que deve ser trazido, por ser fruto de uma sensação que averiguei ser comum às mães das novas famílias, mesmo que não o tempo todo.

Falo porque é uma arapuca verdadeira. É, mas não poderia ser. É, porque somos humanas, de carne e osso. Porque queremos fazer dar certo, porque queremos um mundo melhor para o nosso espaço íntimo. Mas é arapuca por constituir um peso enorme à essas mulheres. À essas mães. A essas pessoas que merecem ser felizes. Mas que não isentas do trabalho. Ou existe construção sem ele?

Então achei melhor reconhecer esta sensação, esta posição aparentemente feia. Pois independentemente do que deveria ser, do que é o emocionalmente e politicamente correto, ninguém quer mais que dê certo do que a mãe da nova família. Ninguém deseja mais que tudo se encaixe, se ajeite. E esta intenção tão elevada, tão cheia de valor, tão cheia de amor, não pode estar errada, me perdoem.

Nesse momento tenho vontade de abraçar cada uma das minhas amigas que vivem essa realidade. Que a relataram a mim… Elas sabem quem são. Somos um exército bem-intencionado, mas que, ao tentar desenhar pombas, desenha urubus, como diz uma amiga da cidade de Santa Maria…  No intuito de harmonizar, buscam controlar o incontrolável, que são as relações afetivas. Que envolvem humor, amor. Limites, que cada um tem o seu. Espaços, que precisam se desenhar dentro da casa. O lado do “não dá” para algumas coisas, que no nosso íntimo de mães, queríamos que desse de algum jeito. Que na esperança só nossa, deseja um mundo sem dor para os seus.

Só que o mundo a tem. A dor é parte do que cresce, do que amadurece. Dói quando pernas, consciência e mesmo o amor, esticam. Porque passam a exigir novos espaços que não ocupavam antes, bagunçam nosso íntimo original e às vezes nos demandam o que simplesmente não sabemos dar do jeito que o outro quer. Enfim, as relações não são perfeitas e é isso que as fazem reais. Mas dizer “te isenta!”, “deixa se virarem”, seria hipocrisia minha, mãe da nova família. Porque não é assim. Talvez em algum lugar, em algum acompanhamento, te digam isso. Talvez não. Mas a verdade é que quando queremos muito que uma coisa funcione, a gente põe fé. Põe força, empenho. Faz uma costura aqui, outra ali. E harmoniza como o faz o bom vinho.

Por que não, se assim lidamos com os negócios, com os amigos, com a grande família, que vem da nossa origem e do nosso parceiro, e até na realização de grandes sonhos e projetos? Por que não quando se trata dos maiores valores que temos e que estão lá, conosco, dentro do nosso ninho, do nosso lar? Por que não buscar compor, com sensibilidade, estratégia, planejamento e diplomacia ambientes onde vivem pessoas diferentes, mesmo que alinhadas no amor?

Por que a vida íntima, tão cheia de rotinas, limites, necessidades de espaço, além do amor, não pode ser administrada e pensada cuidadosamente se queremos perpetuar nela a felicidade e o bem querer, assim como nos negócios queremos realização e resultado?

Sou emoção, e quem me lê, sabe. Mas preciso racionalizar partes profundas do processo do recomeço que deseja acertar. Que revisita erros para não mais fazê-los. Que se respeita como indivíduo, mas que quer fazer a sua parte para que a roda toda ande. Para o sucesso do que mais desejamos. Ou nos tornaremos um monte de individuais incapazes de melhorar para o outro. De ajustar um tom, um jeito, uma postura inflexível, para conviver bem em grupo. Mesmo quando se fala de amor. Porque no amor existe casa, contas, filhos, acidentes domésticos. Existe operação na emoção. Porque na nova família existe o ex-marido, a guarda-compartilhada, o amor novo, os filhos que vieram antes, os que chegam depois. E se não olharmos com o cuidado de quem realmente deseja acertar, que permita que todos fiquem realmente bem na nova constelação, estaremos jogando para o universo. E isso não é uma loteria. É a vida da gente viva, com braços e pernas, andando por aí. Tudo sob uma cabeça e um coração.

Então queria abraçar cada uma de novo. De verdade. Profundamente. Desejar força na peruca e conversar sobre os tantos jeitos que damos no dia a dia para fazer com que o negócio das nossas vidas dê certo. Seja feliz. Tenha a nossa marca. A marca do nosso amor por ele, da nossa fé no levantar, no amor capaz de nascer e prosperar em cada um da nossa casa. Dos frutos de origem aos frutos do encontro. E que na dificuldade, nas arestas, têm acolhida no nosso colo de mãe. Na nossa força de mulher. No nosso olhar. Tão capaz. O qual admiro tanto. Que nos fazem grandes operárias.

Afinal, não viemos exatamente a passeio. Viemos para liderar grandes projetos de vida, a começar pelo que acontece no nosso lar. Seja ele sob a primeira, a segunda ou a terceira tentativa de busca da felicidade. E se nesse caminho pudermos amá-los, parceiro e frutos, com todas as nossas capacidades, estaremos realmente nos superando enquanto seres humanos. Estaremos realmente vivendo grandes construções. Lindas relações. Que não são só lazer, que não crescem sozinhas e que dependem de trabalho.

Quando falo que pesa, é porque às vezes sobrecarrega mesmo. Tem dias e dias. Mas todo o empreendimento exige da gente aposta e mão na massa. E se eu tiver que suar e me sujar, que seja por quem vale a pena, que seja por eles, pela nossa família.

Dedico às mulheres e mães de costas largas. Abelhas. Humanas. Somos muitas. Meu carinho… Não estamos sós.

 

 

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