É férias que diz, né?

Escrevo do carro. Da cadeira do carona. Estamos com a caminhonete cheia, indo a Santa Maria para uma pequena temporada em família. São as nossas pequenas férias juntos… todos. E eu estava ansiosa antes de agora. Aquela ansiedade peculiar da mulher. Porque eu precisava estar trabalhando. Retomando, ávida, minhas atividades profissionais. Precisava estar arrumando os guarda roupas deles, precisava separar no meu algumas roupas para doar, ir ao banco, desenhar um processo para meu projeto novo, ler dois livros importantes para eles e que estão na minha cabeceira. Tenho crônicas par escrever. Para um jornal, para um cliente e para a minha paixão, o canal New Families. Tenho material escolar para providenciar, para o terceiro e o quinto ano do ensino fundamental…

Então olho para trás, para as minhas três crianças. Todos dormem, nos bancos do nosso micro-ônibus, que é o que parece o nosso automóvel. Temos uma tartaruga de malas sobre nossas cabeças e o carro lotado. Quase não coube uma garrafa de espumante para um momento de relax nessa temporada, não fosse eu achar um esconderijo abaixo do banco.

Pois bem. Respirei algumas vezes. Lenta e concentradamente. Já tive crise de ansiedade que me gera falta de ar, e aprendi a controlar devagar a minha respiração e os meus pensamentos para não me atrapalhar, não entrar em pânico em momentos de muita demanda. E a separa-los nas minhas gavetas, a fim de desmembrar uma possível avalanche em pequenos destroços, fáceis de superar, administrar e limpar. Mas nesse momento não há crise. Nada de falta de ar. Apenas muitas coisas acontecendo e a minha ansiedade de mulher, de realizar. De não deixar nada parado, nem ninguém. De ter tudo funcionando no seu propósito de existir na minha vida.

Esta semana pensei em não publicar nada no site, em não escrever com esse objetivo específico, nem com prazo. Pois por mais que seja para mim um prazer, é também um compromisso. E estou de férias e fui desafiada pelo meu marido a simplesmente descansar com os meus filhos, se é que podemos chamar uma viagem com três crianças pequenas de descanso. Mas enfim, a ideia seria apenas desligar e dedicar a eles e à nossa relação, cada minuto. Sem paradas, reflexões, computador ou posts. Apenas ócio. Só que não consigo mais… Bastou eu sentar no carro e ter aqueles minutos de paz.

Escrever, para mim, vem do sentir. E nada trabalha tanto com a minha emoção e com os meus sentimentos do que estar com eles, em família.  Do que lidar com tudo o que envolve o atendimento à essas crianças lindas que vieram para mim e com o que consigo fazer de mim nesse papel de mãe e mulher na minha nova família. Com todas as realizações e eventuais frustrações oriundas do cansaço ou do que simplesmente não consegui fazer acontecer do jeito que desejo. Em meio às tantas prioridades da lista de afazeres da Juliana.

Ser mãe envolve um tanto de escolhas importantes. Questões que eventualmente te desviam de outras que também tem relevância na vida da gente mas que não se comparam quando se trata da maternidade. Aqui, não quero romantizar, mas ilustrar uma realidade forte e que muitas vezes mal podemos explicar a quem não exerce esse papel. Porque é tanta responsabilidade, e são tantas as possibilidades de perda, as quais calculamos com os nossos poderes futuristas, que não se pode piscar. Nem se isentar ou abrir mão, ou trocar de prioridade. Nem deixá-los de lado por qualquer outra circunstância. Porque só o que querem e precisam está na presença. Na nossa, envolvida, na vida deles. E era disso que se tratava nossa viagem ou a proposta de férias do meu marido, que sequer estaria com a gente, já que alguém tem que trabalhar. Eu, simplesmente com eles. Conversando, jogando, fazendo um lanche junto, brincando de “pate combi, bate fusca”. E no sonho mais ambicioso, me ver, junto com eles, de cabeça na cachoeira artificial do parque das águas do nosso clube na cidade, despida dos meus cuidados de mulher. Dividindo um prato de batatas fritas. Relaxada, me cobrando menos. E era isso.

Então, divido com vocês o que está agora claro para mim. O que fica límpido na minha escrita, quando me proponho a compartilhar pensamentos e passos neste espaço. E que justifica o texto dessa semana, do jeito que deu, mas feito assim, como uma conversa com uma amiga próxima. Como um desabafo, um cochicho. Estes os quais faço como que deitada numa rede, com todo o prazer e leveza. Que dói às vezes, por ser franco, mas o coloca para fora. Que olha, reflete, entende e cura. E que não faltaria na minha semana, de jeito nenhum… ou faltaria comigo, abrindo mão do maior presente que posso dar a mim, como ser humano. Que é ar. Que é me sentir acompanhada. Que é entender o que se passa a minha volta e que às vezes é tão exigente que me tira a natureza de respirar. Que me pede socorro. Porque trata, na conversa amiga. Que me coloca face ao que me é dúvida ou angústia, para entender melhor e compartilhar.

E porque é comum a tantas… que vale. E todas nós precisamos relaxar e entender o porque de ser tão exigente às vezes faze-lo. Não atender a tudo e a todos o tempo todo e aceitar que coisas ficarão para trás. Que escolhas envolvem renúncias e escolher esse tempo de qualidade, às vezes, vale ouro. E colocar a cabeça escovada na cacheira gelada, mesmo que artificial. Sentada na prainha com as suas crianças e um prato de fritas…

Obrigada por ser motivação, movimento na minha vida. Estou de férias… É férias que se diz, né? Estou com tesouros à bordo. Pequeninos que sentem falta de atenção, de tempos nos quais foram um, depois dois, depois três. Que querem que eu mergulhe com eles e esteja ali, e só. Acho que consigo. É só uma semana. E o resto, todo, vai ter que esperar um pouquinho…

Menos a minha conversa aqui, essa que me salva.

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