Pós-Guerra: Expectativa X Realidade

Neste canal honesto, escrevi há uma semana sobre a minha saída em férias com meus filhos e a minha expectativa de mãe quanto a este período que desejo tanto. Mas como disse, esse canal é honesto, e nele registro sentimentos reais da maternidade, que acredito serem comuns. Li outro dia que ficar com os filhos em casa cansa mais que trabalhar… Que estar em um escritório com ar condicionado, música ambiente e uma pilha de desafios. Real e oficial. Então, aí vai.

Escrevo da cadeira na qual fechei meu texto da semana passada, sobre a minha parada de férias de uma semana com os meus três pequenos. Sete dias depois. Do mesmo lugar. Hoje vamos embora de onde nos propomos a descansar, eu e as crianças, e após seis dias de chuva em um apartamento, estou deitada ao sol, olhando eles correrem na piscina que desejaram por toda a semana, e me dou conta que estou exausta. Que esta semana exigiu tudo de mim. Que nasci para ser mãe, mas não ter essa atividade em tempo integral. E indo um pouco mais longe, que neste momento, aposto que ninguém nasceu para isso.

Não tem escola de mãe. Muito menos para ser mãe de Joana, Joaquim e Antonella. Não diz no Google o que fazer quando estamos todos com energias retidas por dias enclausurados, em um apartamento, enquanto lá fora a chuva cai solta. Não explica quais são as alternativas realmente efetivas frente ao desejo de fugir em alguns momentos, que me coloque em equilíbrio de novo. E por isso, por mexer aqui, e eu achar que mexe em qualquer lugar, vamos falar no New Families.

Amo as minhas crianças mais do que tudo. Quem convive comigo e com a minha família sabe que o bem-estar deles rege todos os movimentos meus e do meu marido. Aqui, não falo em colocar os filhos na frente de tudo, pois isso não seria certo também ao meu ver. Precisamos estar todos bem para a felicidade realmente acontecer. E aqui falo em bem-estar, não no humor do dia. Estarmos todos equilibrados, vivendo o que se acredita, é condição essencial para construirmos degraus de subida e momentos de alegria real. Porque eles acontecem quando estamos ao lado, alinhados com quem amamos, e não atrás. Não sustentando, abaixo. Não só um fazendo força. Mas todos em linha na vida. E aqui é assim que construímos a nossa jornada de família.

Só que tenho refletido neste monte de funções que exercemos e só ratifico no meu dia a dia a necessidade de termos um pouco de tudo para sermos felizes. E estar só com eles, o tempo todo, não me completa. Me deixa em falta comigo. Não serei hipócrita, afirmando que estar com eles é só o que eu preciso na vida. Preciso realizar projetos. Trabalhar duro na construção de sonhos. Gosto disso. Preciso encontrar amigos. Adoro dançar de vez em quando e namorar em uma noite não planejada com o meu marido. Adoro saltos altos e roupas transadas que falem um pouco da minha personalidade, do meu humor do dia ou na vida. De fazer exercícios físicos e de ler. Amo ler. E desde o final do ano não consigo avançar nos meus estudos pois vivo a maternidade quase integralmente por conta das férias escolares. Somadas a ausência da família na cidade e de retaguardas, o que me colocou realmente no ferrolho. Na gestão ativa da colônia de férias dos meus pequenos, que já não são mais bebês, todos, e agora querem participar das decisões desse tempo de ócio deles.

Essa semana vivi momentos intensos com os três. Antonella ficou doente pela primeira vez, Joana e Joaquim me acompanharam neste período 100% do tempo. Até no banho. Fiz meu texto da semana passada com um de cada lado dos meus “três lados”, estes que só quem é mãe de três conhece, olhando um mergulho, uma marca de biquíni, um machucadinho, comprando um picolé. Um café quente na padaria, pois até frio fez. E eu fui mãe. Em tempo integral. Enquanto meu marido atendia sua agenda de trabalho na cidade, eu realizei o trabalho mais exigente do mundo, vinte e quatro horas por dia, durante oito dias. Feliz, mas exigente.

E aí, na manhã de ontem, sentei na beira da cama, após secar e dobrar pilhas de roupas das férias, e chorei. Com eles me olhando. De tão cansada. De saudade de casa. Da nossa rotina equilibrada, mesmo considerando que desde o nascimento da nossa terceirinha, minha agenda anda mais flexível. Pois fiz escolhas profissionais importantes para dar conta de acompanha-los bem de pertinho nestes primeiros meses de vida nova. E eles me abraçaram e entenderam. Estávamos todos cansados dessa semana de chuva, deste tempo sem fugas, sem os amigos, sem a fugidinha para curtirmos um a um do nosso clã pelos cantos da nossa vida. Pois sabem quem são e quem eu sou, e gostam daquela mãe que faz várias coisas além de tocar a nossa rotina juntos. Gostam da vida deles e das suas possibilidades além de mim, a todo o instante. E por isso, choraram junto.

Então ganhei um escalda pés e uma massagem nas costas e nas mãos. E morri de amor por eles. Por essa relação honesta que temos. Que compreende, que não depende, mas escolhe construir junto o caminho. Porque amar, mesmo esse amor de mãe, não significa abrir mão de si ou estar grudado o tempo todo. É uma orquestra onde cada um dá o seu melhor, mas o seu. O que é capaz. E que não é para doer.

Trago esse assunto para provocar o olhar que faço dentro de mim mesma refletir em cada mãe, em você. Porque se não nos propusermos a tirar máscaras e óculos escuros e encararmos de fato quem somos, quais são os nossos desejos, e com empatia olhar os que amamos e as suas necessidades e expectativas, teremos relações frustradas e de cobrança em família. De abdicação. E o que há de bonito nisso? Eu, como filha, não me sentiria feliz em ouvir dos meus pais que abriram mão de si próprios para me manter, me “criar”, como se dizia em outros tempos. Acredito que nos acompanhamos na vida. Que pais são fios condutores para o mundo. Responsáveis por bons exemplos, boas conversas, por cuidado. Que somos responsáveis por dar e ensinar amor. Diferente disso, construímos uma grande promissória, que nos cobra lá na frente e não beneficia em nada nossas crianças.

É uma reflexão. Que começa com o meu coração aberto. Contando da minha angústia. Essa que realmente acredito ser comum.

Amanhã, pós-guerra de sentimentos, estarei no escritório, no meu meio turno de trabalho, escolha que fiz este ano para poder ser uma mãe suficiente para eles, dentro da nossa realidade. Que me permitisse dar o que acredito ser essencial para a formação afetiva de cada um dos meus três amores. Mas sei que, estranhamente, cheia de saudade dessas férias malucas, de ser chamada oitocentas vezes no dia, por todo lado. Por tê-los no colo, os três, e seus diferentes tamanhos e demandas. Da nossa misturança. Porque essa ambivalência é ser mãe.

Então volto feliz. E sei que estarão felizes por mim também. Porque assim, sou melhor. Para mim e para eles. E eles estarão bem, sendo crianças, na grande rede de afeto que possuem na vida, e que sei que foi o maior presente que pude proporcionar a cada um como mãe. Quando não os mantive só no meu abraço. Quando aprendi sobre cuidado compartilhado. Quando permiti que outros se aproximassem com o intuito de ama-los.  Pois o mundo é grande e há felicidade por toda a parte, se tivermos coragem e formos generosos. Honestos e gentis. E precisa mais? Me parece suficiente.

 

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