Cada uma com seu decote vermelho

Estava em férias, na beira da praia, quando meu marido me convidou para ouvir a entrevista da tal “deputada do decote”, em um fone de ouvidos. Aquela que se apresentou na posse do seu cargo de deputada com uma cava generosa na blusa, deixando os seios em evidência. Confesso que não acompanhei o caso nem tampouco debati seu traje, por total desinteresse na pauta. Mas fiquei curiosa em entender seu ponto de vista frente a verdadeira avalanche de críticas que recebeu publicamente, em redes sociais e no próprio meio jornalístico e político. E, também, era uma partilha do marido, que me pareceu querer companhia no debate.

Ouvi a entrevista sem nunca tê-la visto, e fiquei realmente impressionada. Honestamente. Por sua argumentação consistente, seu jogo de cintura, sua inteligência, e a mais incrível das qualificações que referi a ela, sua autenticidade. Eram vários jornalistas respeitáveis com perguntas diretas e encurralantes, as quais ela respondia como que declamando um poema, organizado, consistente e até com rimas. Calmamente. Brincando com as palavras… De verdade. De um preparo admirável. De uma confiança de deixar o povo besta. Mas humana, acima de tudo. Vulnerável e verdadeira. E eu, sem nunca ter a visto, já era uma fã, caminhando nas areias da sua Santa Catarina, sua terra de origem e vida pública, o que descobri também naquele bate-papo passivo do qual participava, pela Rádio Gaúcha.

Não quero criar um fórum para discussão sobre o certo e o errado da sua vestimenta, pois sinceramente, isso nem deveria ser assunto. Mas ok, vivemos em uma sociedade que utiliza a liberdade de expressão para o uso dessas “liberdades” com a vida das pessoas, de forma cruel e invasiva. Que apesar de, pelo simples fato de existir “ser pública”, não respeita indivíduos. E isso vai além do que é íntimo e do que não é. Se trata do limite do individual do ser humano. De suas escolhas, atitudes e posições serem próprias, únicas, e por isso, um direito. Que não deveria ter de ser defendido a cada esquina, andar ou fala.

Em um país culturalmente desenvolvido, sua roupa não seria pauta. E aqui é. Fazer o quê? Só que me chamou a atenção seu histórico positivo na política, seu posicionamento autêntico e bem fundamentado na posição de mulher, e sua humana vulnerabilidade frente a proporção que o seu decote tomou, nacionalmente.

Na mesma hora, me coloquei na posição dela. Em seu lugar. Não teve como não comparar ao processo de decisão por um divórcio, quando de repente, sua vida está na boca das pessoas e na mesa de jantar do vizinho, sendo discutida e julgada abertamente, como se certo fosse. Porque este é um direito, falar e até julgar…. mas não é certo. Como se alguém pudesse avaliar uma decisão da sua vida como certa ou errada. Pode isso? Pensa? Com que informações e com que emoção uma pessoa se sente apta para julgar e se posicionar quanto a vida afetiva e em família de outra? Como pode deduzir que sua relação de amor acabou por culpa sua, do outro, da amiga do trabalho, do professor da aula de sei lá o quê, do ex, do excesso de trabalho de um ou da falta do que fazer do outro?

Quanta pretensão e falta de educação. Este é o cerne de tudo. Educação e empatia. Coisas que não identifiquei em tantos na jornada pós divórcio, de construção da minha felicidade no depois, e que ali, também não vi no trato daquela pessoa na atividade de deputada.

Já falei aqui antes sobre minhas considerações quanto a palavra conveniente. Esta que sempre cabe tão bem às mulheres e tão pouco aos homens. Palavra sempre usada na referência a comportamentos femininos, coisa que ouço desde criança, de forma ampla. Enquanto para homens é utilizada no máximo quando ele fala alto demais em ambiente público, para não dizer que por vezes é considerado um ato “engraçado”.

Mulheres sempre foram cobradas por sua postura conveniente. Nos trajes, no tom da voz, na escolha da atividade profissional, na troca de parceiro afetivo, na escolha das amizades… E que triste é isso. Quem de nós não paga o preço de se entregar a algumas conveniências até hoje?

Esta deputada, em suma, vestiu o que queria para se sentir forte, naquele momento de vitória pessoal, em um ambiente ainda masculino. Sua roupa não era conveniente para eles, mas era para ela. Deixou de proteger a limitação e incompreensão dos outros e escolheu a si. E por este motivo já a admiro. Pois se levou em consideração. E na sua entrevista inteligente, deixou isso muito claro para bons entendedores de coração aberto e para o constrangimento de outros. Pois assumiu sua escolha e seu ideal. O que é raro, seja ele qual for.

Não há nada mais corajoso, mais forte, mais feminino e mais autentico do que ser o que se é independente das conveniências. Nada é mais honesto com o mundo e consigo. Nada é mais amoroso com si próprio. Nada empodera, nem liberta mais. E isso, é liberdade de expressão. Decidir por sua vida é. Para onde vai, com quem anda, o que veste, com quem deita na cama. Isso é liberdade. E aceita-la do vizinho se chama respeito. E não julgar, se chama educação e empatia.

Pois bem, deputada Paulinha. Já tive meu vestido vermelho de decote na vida. Deitaram e rolaram sobre o meu posicionamento, sobre a minha decisão. A parabenizo por estar de pé e defender a sua conveniência, as suas escolhas e os seus ideais. Escolhi viver os meus, assim como muitas, e exerço a minha liberdade, o que é gigante e forte. O que me faz uma mulher a qual eu respeito. E como a jornada da felicidade começa por aí, tenho quase tudo o que eu preciso. Liberdade e respeito por mim mesma.

Sucesso na nova empreitada. Começaste bela aos teus próprios olhos, e isso te faz forte. Pois no mundo, cada uma tem guardado seu vestido de decote vermelho. Desejo que saiam do armário e desfilem por aí, nas passarelas da vida. Quem sabe assim, mais felizes e menos convenientes.

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