Mulher separada, com filhos

Te assustei? Bom, esta sou eu, há pouco mais de um ano atrás, quando então me casei de novo e mudei meu estado civil. Esta pode ser você. Ou alguma conhecida. 

Tenho conversado com dezenas de mulheres sobre relacionamento afetivo e matrimônio. Sobre recomeços no amor romântico. Natural, desde o início do projeto New Families. Este tem sido pauta dos meus estudos e do meu desenvolvimento pessoal. Pois desde o meu divórcio, vivo o medo de “falhar” de novo misturado ao tanto de desafios que a nova condição de mãe de uma nova família, com três filhos, sendo estes de pais diferentes, estabelece. De errar, de fracassar com eles, com a minha família. E de falhar comigo, esta mulher que reconstruí e que hoje busca de forma consciente a harmonia, o amor e a felicidade na vida. Coisas que acredito verdadeiramente que sejam nossas, merecidas, desde que vivam dentro da gente. De cada uma. De cada ser nesta terra.

A “falha” nunca é só nossa. Relações não são feitas de um. Mas o medo permeia as escolhas, o modo de fazer, comportamentos repetidos ou atitudes movidas pela necessidade de adequação ou da vontade enorme de fazer dar certo, no que tange a minha parcela de contribuição. Pelo que cabe a mim.

Nessas conversas percebi este medo generalizado. O fracasso como fantasma. Um filme de horror no mundo feminino no qual transito, com o meu projeto debaixo do braço e o meu natural interesse pelo tema, este que rege a minha vida. Rege, porque não passa. O processo de dissolução de um casamento, e principalmente nos que geram filhos, deixam marcas profundas e eternas. Na alma, na autoestima, no convívio familiar e social, na expectativa de futuro da vida da gente e mesmo nele. Porque a rotina do antes vive em parte no depois. Seguimos com uma relação familiar “diferente” com o passado, que segue parte do que orquestramos no dia a dia, no campo operacional e das emoções. E porquê?

Porque o sentimento do fim sempre bate a porta. É uma brisa sorrateira que sopra no ouvido enquanto vivemos a vida nova, com avisos cruéis quanto a repetição de comportamentos, de histórias, de posições ou mesmo do fim. Ou através de olhares envesados e piadas sem graça proferidas por amigos e familiares que brincam com a realidade alheia, a qual desconhecem. E por isso vamos falar. Eu e você. Você, que busca amar de novo, que busca no seu coração, no seu ideal, uma relação de amor.

Sou uma vigilante. Me perdi muitas vezes na vida até quase não me achar mais. Dentro das minhas relações. No excesso de entrega, o que eu prefiro chamar de intensidade na vida. Esta que entrego em tudo o que faço parte. E as minhas relações me tiveram de uma forma, que quase me misturei, me desfiz. Tenho um mapa, que vive na minha agenda hoje, no qual trabalhei a minha proposta de valor, as minhas potências como mulher e como mãe, o qual revisito com mais frequência do que acreditava precisar. Porque a nossa tendência como mulher é a de acomodar situações, ceder, reconsiderar. E a mãe da nova família faz isso com uma carga ainda mais pesada. Pois traz, além da sua bagagem afetiva, filhos compartilhados. Dependentes financeiros e emocionais. Pessoas em formação. Amor materno. E isso acaba pesando na equação, no estabelecimento da nova vida. Na melhor das hipóteses, na quantidade de gente para estar atento. Para amar, o que também dá trabalho se avaliarmos amplamente o afeto.

Ocorre que tudo depende da forma como olhamos, do que temos como conceitos cristalizados quanto a padrões e a nossa inadequação em formatos diferentes de família. Tudo depende da construção dos nossos valores e do reconhecimento deles. Tudo depende do que achamos de nós mesmas e do legado que construímos.

Pois bem. Quero trazer a minha experiência no caso. Desejei demais os meus filhos. Eles são crianças lindas e bacanas aos meus olhos, e com eles construí uma relação de acesso, de verdades, de afeto e de parceria que é mais do que eu imaginava quando sonhei em ser mãe. Porque eles são filhos e amigos. São empáticos, generosos, sensíveis. São educados e de valores que as vezes não sei bem dizer se fui eu, o pai deles ou alguém o qual eles admiram muito que ensinou, mas que me surpreendem todos os dias. Crianças fora dos padrões. Aquilo que talvez um dia tenhamos sido, na infância, e que já não existe mais no mundo adulto. Isentos, livres, de análises puras e simples…. E de repente me vi sozinha com eles. Com estes dois seres especiais.

Te provoco a esta reflexão por achar que são muitos estes seres especiais apesar da minha preferência natural em falar dos meus filhos. E estes não são malas, nem cargas. São companheiros estimados os quais nos acompanham no início da nova vida e a constroem conosco. Por isso, quando comecei a minha nova relação afetiva, jamais os considerei um peso. Pensava a todo o tempo que aquele homem que chegava recebia de mim dois presentes. E que honra a dele conviver com as minhas doces crianças! Era ele quem ganhava com a nossa relação. Era ele quem receberia amor de três. Que, se bem construída, viveria uma relação de afeto e aprendizado com duas crianças “massas”. E assim toquei em frente.

Assim, tive mais uma filha, fruto dessa relação. Porque crianças não são pesos. Não te depreciam, desde que não enxergues assim. Desde que representem grandes e conscientes valores na sua vida. E quem os considerar diferente disso, não serve para você. Nem para ser pai de um possível novo filho, nem para te acompanhar na vida, nem para uma taça de vinho. Não serve. Porque eles são o seu valor, talvez o maior deles. E parte do que você é.

Dito isso, sendo você uma fortaleza, que renasceu uma nova mulher e uma nova mãe após uma separação, que acumula aprendizados e estrada na arte de amar, de falhar, de acolher e de acertar, sinta-se apta. Mais preparada do que qualquer uma para viver o amor. Cada vez melhor. Mais consciente e conectada com si mesma. Mais honesta com o parceiro. Mais madura, mais forte. Uma companhia incrível, cheia de histórias e experiências.

Pois estas são as dezenas de mulheres com as quais converso. Pessoas realmente interessantes. Com uma capacidade de construção admirável. Sensíveis e doces, além de fortalezas. Mulheres reais.

Quem não as amaria? Só quem não serve.

2 comentários Adicione o seu
  1. Nossa tudo tão real! Escutei de muitas pessoas quando me divorciei que “agora eu era um kit” e depois escutei de outras tantas, falando sobre a minha nova relação que eu tinha que valorizar por ele gostar do meu filho, aceitar”…como assim, eu não ficaria com ninguém que pensasse algo diferente…este não pode ser um ponto para eu decidir casar novamente, por exemplo. Por que isso, para mim, tem que ser assim com qualquer homem que queira uma nova família comigo!
    Eu tb sou inteeeensa, como me identifico quando dizes “me misturei, quase me desfiz”, desde o primeiro namorado com quem fiquei por 5 anos, do noivado que tive antes de casar com o pai dos meus filhos…ainda não sei avaliar se é bom, mas eu estou deixando de romantizara vida e para uma canceriana este é um suuuper desafio. Para mim isso é um poco triste, mas criando menos expectativas, vivendo mais o presente, me parece que tem mais chances do futuro me surpreender.

    1. Carolina, olá! É disso que se trata. De um tanto de desencorajamento por parte do mundo a nossa volta. E para se encorajar, precisamos construir essa segurança dentro. Essa confiança em si mesma, a certeza do que queremos, do que merecemos, e que não é menor do que o de qualquer mulher. Existe vida no depois. Amor, intensidade, sonhos novos. Basta, além de toda essa construção interna e nas ações da vida nova, não esperar o pior. Beijos querida, és um linda mulher. Desejo uma vida cheia de felicidade e de amor, do jeito que for.

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