Tive um pesadelo estranho esses dias. Eu era desabonada como mentora no projeto New Families por ter descoberto, naquele contexto, daquele “sonho”,  um ato de deslealdade do meu esposo. Algo que no pesadelo, me tornava aparentemente, por uma decisão minha, uma divorciada outra vez, considerando que lidar com a deslealdade é e sempre foi uma dificuldade para mim.

Acordei assustada. Não pelo episódio que envolvia o meu marido, pois quando estamos felizes, acontece do sonho retratar o boicote ao que temos e que valorizamos mais, e o medo de perder o que conquistamos até aqui. Além disso, na noite anterior havia jantado pouco antes de dormir, o que me gera uma noite pesada e agitada, com pesadelos, nada incomum.

Mas o que me assustou foi a minha capacidade de resiliência em vencer desafios da vida, e o jeito como as traduzo nas minhas crônicas, deixarem de valer “de repente”. Por conta de um acontecimento infeliz e além de mim. Construindo ali uma cena na qual pesa o meu crachá de casada e não minhas evoluções na qualidade de mulher e mãe. Não o fato de eu ter desenvolvido a habilidade de reconstruir a minha vida das cinzas, o que resultou nessa realidade gostosa que vivo agora.

Sentei para conversar com o meu marido. Nada pessoal, já que o amo e sou correspondida, e como disse antes, entender ser natural o medo de perder tudo isso bater na porta dos meus sonhos e do meu inconsciente para me lembrar do quanto amo o que eu vivo em família, no meu casamento. Mas debatemos sobre o eterno crachá de empregado, de rico, de bem sucedido ou de feliz que se faz mais valioso do que as pessoas. Do que suas potências, do que é próprio e além de acontecimentos que envolvem terceiros ou que são da vida.

Considerando que não há garantias nem para os empregos, nem para a riqueza, e muito menos para o casamento ou para relacionamentos afetivos entre seres humanos, me senti fruto de um julgamento frágil por conta daquele sonho. Como quando elogiam a minha vasta cabeleira e eu me dou conta que poderia não tê-la, de repente, por circunstância de qualquer doença, e ali, desejar não ser olhada com menos apreço. Desejar não valer menos para as pessoas que me importam. Desejar que o meu afeto e a minha capacidade de troca e acolhimento pese mais do que os momentos ruins que eu possa passar na vida, frente aos quais hoje, com certeza, sei que posso me levantar.

Nos acostumamos a desejar e admirar a linha de chegada, sem valorizar o caminho. Sem valorizar as nossas capacidades de vencer tempestades, buracos e lamaçais, sempre buscando seguir a jornada da vida, desbravando-a, buscando o que ela tem de melhor. Desenvolvendo a consciência de ser feliz com o que se tem. E fez sentido propor a vocês uma reflexão:

Minha posição de escritora e mentora de um projeto que fala de recomeço, de construção da felicidade no depois de grandes disrrupções, e de amor, deixaria de fazer sentido se o meu mundo caísse? Se por motivos além de mim eu precisasse mais uma vez recomeçar?

Se sim, devo ser melhor que vocês. E como não acredito nisso, acho que não deveria fazer a menor diferença, sinceramente.

Entendo que hoje o funcionamento do “seguir” pessoas e conteúdos se baseia muito no sucesso, na beleza aparente. No “case” daquele ser que resultou em algo extraordinário. Mas quando penso nas histórias que admiro, de verdade, e que me passam consistência e capacidade real de construções emocionais e de grandes impérios, elas são reais.  

Elas sofrem as intempéries da vida, os desafios humanos. Elas demonstram que a resiliência está no saber cair e levantar, e que não há talento na vida que não traz exigências. Que não desafia a buscar alternativas e a vencer obstáculos imprevisíveis. Que navega somente em mares calmos.  

É só olharmos atentamente para a história do mundo. Na qual grandes nomes sofreram incrivelmente de crueldades físicas, intelectuais e emocionais para realizar mudanças importantes ou de grande representatividade em cenários nada frutíferos. Em ambientes inimigos, antagônicos, mas nem por isso, capazes de frear o talento, a determinação e os ideais de muitos. Muitas vezes, demandando a abertura de caminhos na selva. Desbravando o desconhecido, encarando obstáculos na escuridão. E nela, conhecendo através do toque e do sentir, quem realmente se é e do que somos capazes na dificuldade.

Muitos foram enterrados como loucos sem valor. Simplesmente por serem diferentes, por defenderem novas ideias, por olharem para o desconhecido e sobre ele empunharem luz. E isso é tão importante para a nossa evolução humana que precisamos questionar aqui o que é realmente o sucesso na vida. O que é realmente admirável no mundo e nas pessoas. O que é especial e que pode ser seguido, na rua ou pelas redes sociais, pelo seu propósito. Por ele, na essência, fazer diferença na sua vida e na vida de outras pessoas. Na orientação e no impulso do “fazer”. Do melhorar, do construir, do tentar de novo. Mesmo que seja na inspiração de um “look do dia”. Em uma dica de receita “fit” ou na discussão de boas formas de lidar com os filhos nas suas diferentes fases, através de técnicas e experiências vividas. Ou na discussão de caminhos possíveis para se levantar de grandes tombos. Das ondas que nos derrubam na nossa jornada e que muitas vezes acontecem além da gente.

Como a depressão, a sensação de fracasso, a perda dos bens maiores que temos na vida. Coisas que muitas vezes não podemos evitar. Das quais, eventualmente, fazemos parte, estamos misturados e somos envolvidos. Na condição de humanos. De imperfeitos. O que só nos tona mais interessantes. Donos da habilidade de, a cada dia, descobrir e lapidar novas ferramentas capazes de abrir novos buracos. Novas florestas. De construir novas pontes nos ligando a mundos os quais não conhecíamos. Que podem ser melhores que outros ou no mínimo, novas alternativas de viver e lidar com a vida.

E não a foto da bandeira no topo da montanha, ou do crachá de diretor. Não, da foto de família feliz, como a da propaganda de margarina. Essas são capturas prontas as quais não vimos acontecer. Nem a quantas mãos. Nem, se são de verdade ou apenas montagens para fazer bonito ou para vender. Ou mesmo, que não retratam as lágrimas derramadas para ali chegar.

Imagens bonitas que não deveriam ter valor, ou pelo menos, não pesar mais do que passos vencidos a cada dia nas cenas exigentes da vida. Reais. Que tomam tudo da gente, até descobrirmos forças e formas desconhecidas de sobreviver àquilo. E que são de um valor imensurável, e dignas de admiração e aprendizado, por serem reais.

Sobre a pergunta que fiz quanto ao valor que tenho embutido em mim pelo sucesso da empreitada na minha nova família, maravilhosa e imperfeita, não se incomodem… Foi apenas uma provocação. Tenho o valor do renascimento em mim. E acredito na construção da felicidade em todos os depois da vida. E que a vida não é um algodão doce, mesmo que possa ser docemente deliciosa, se assim a vermos e quisermos desfrutar. Nem sigo as aparentemente “perfeitas” em redes sociais, já que não acredito em perfeição. Só me traria frustração, quando me dou conta que para ter o que desejo trabalho arduamente e nem sempre venço.

Este é o meu valor há tempos… E falarei sobre este caminho enquanto fizer sentido aos que acompanham este trabalho. Este que comecei sozinha, lá atrás… Sem qualquer seguidor ou admirador. Apenas com a minha vontade de mudar o que já não cabe mais no mundo que queremos para nós e para as nossas crianças. Este sem garantia alguma, mas cheio de florestas selvagens para desbravar. Este, cheio de homens e principalmente mulheres corajosas, prontas para subir vários cumes na vida. Sentar em várias cadeiras e vestir vários crachás. E além deles, se constituir um ser de profundo valor.

Porque a felicidade está no construir. No trabalho. Na jornada. E esse valor ninguém tira nem de mim, nem de você, e muito menos da gente. Da discussão, do fórum de evolução que estabelecemos no intuito de levantar melhor. De compreender os caminhos da vida e a beleza do aprendizado dos momentos ruins. Do que não registramos para o social, para a posteridade. E isso vai além. Da fotografia e do mundo das redes sociais.

E além das quedas. Dos buracos e tempestades que ainda não passamos mas que podem estar por aí, para nos fazerem melhores. Quem sabe?

Comentários

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *



NEW FAMILIES