O medo, que ela tirou debaixo da cama.

Chegamos em casa aquele dia com o semblante sério, escuro.

Vínhamos no carro resolvendo algumas questões desafiadoras daquele nosso momento, eu e o meu marido, o meu amor. Tratávamos da minha virada profissional e, naturalmente, do “gap” financeiro em tempos de três filhos pequenos, necessidade de babá e serviço doméstico, simultâneos, para eu poder trabalhar, contas de mercado estratosféricas, e falta de tempo. Tempo para nós, para o que adoramos fazer juntos. Sobrecarga no trabalho dele, sobrecarga nas minhas noites e dias de mãe. De mulher que recomeça mais uma vez, agora na vida lá fora.

Coisas que nós, casais, tratamos por trás das cortinas.

Reservados, em proteção aos filhos e a nós mesmos, quando a palavra tem o poder de salvar. Aqui não falo de nada religioso, acreditem… Falo da conversa. Do diálogo, tão vital nos momentos de crise. Tão iluminador. E eu precisava, naquele momento, colocar as minhas questões, as minhas dores e preocupações, e ouvir também como ele se sentia. Libertador, para variar. Dolorido, como é às vezes, mas libertador. Pois nada como saber a verdade, as profundezas do outro, que importa tanto para a gente. Que nos acompanha na vida.

Dito isso, entramos assim em casa. Carrancudos. Absorvendo e administrando sentimentos. Verdades daquele nosso momento.

Cada um segurava as suas coisas, ao contrário do nosso habitual. Costumamos entrar misturados em casa para almoçar. Um segurando as coisas do outro. Um amparando o outro. E naquele dia, entramos individualmente. Cada um com seus pertences e pensamentos. Era afinal um momento de lido com o que não é só amor no dia a dia.

Infeliz de quem acredita naquele “algodão doce” de vida sobre o qual falei outro dia. Amar e ser amada envolve um monte de outras coisas, às vezes ácidas, outras insossas, e muitas vezes doces, o que viabiliza tudo. Ingredientes da receita da vida real. Essa que acontece à margem de idealizações. E aqui em casa vivemos uma vida de verdade, por decisão nossa, na janela da “segunda chance”.

Eu e o meu marido brigamos pouquíssimas vezes. Digo essas brigas de casais que assistimos em filmes, quando um sai caminhando para um lado e o outro bate a porta do quarto buscando o isolamento daquilo tudo. Me arrisco a dizer que assim nunca vivemos por aqui. Mas algumas vezes mergulhamos em assuntos difíceis. Desses da vida. E novas famílias possuem uma gaveta deles, daqueles delicados, em geral guardados no sótão. Mas que aqui, na nossa casa, mantemos sem chaves no móvel do hall de entrada, para não perdê-los de vista.

Essa é a nossa receita. Tratar os assuntos pontiagudos. Com delicadeza e respeito ao outro. E por isso nada de portas batidas ou fugas de casa, evitando o enfrentamento. Mas conversas feitas de passos delicados, reflexões e muitas vezes, a interrupção, já que não avançar também me parece sábio e é um artifício que nos utilizamos bastante, quando nos falta condições sadias de continuar ali, naquele ponto.

Minha filha mais velha e algumas amigas costumam me falar do seu desejo em me ver explodir nas situações que exigem a exposição do meu ponto de vista e posicionamento pessoal, mas confesso que teria que nascer de novo para ser assim. Então ando no meu ritmo, mesmo. A passos lentos e pacientes. Evitando as grandes explosões. E esse meu ritmo foi o que coloquei, no que diz respeito à minha contribuição, na minha relação de amor. Não menos posicionada ou forte, mas realmente paciente. Com paz e tranquilidade, buscando a clareza quando tenho dificuldade de enxergar, e não o debate, muito menos em mim mesma, por dentro.

É um exercício que realizo diariamente, com a ajuda do meu diário e da minha proposta de valor, e que hora dessas divido com vocês com mais detalhes.

Mas naquele dia entramos em casa, distantes. Não misturados, como sempre.  Acompanhados dos nossos pensamentos, dos nossos pontos de vista, da nossa necessidade de tempo e empatia para entendermos um ao outro e o melhor caminho a ser construído naquele momento, que amparasse a nós dois, aos nossos medos e demandas individuais, e enquanto família. Enquanto essa grande família que construímos juntos, de três filhos em idades e necessidades diferentes. Principalmente sedentos da presença de mãe e pai. De mãe e pai afetivos.

Foi então que ela, a minha Joana, que nos esperava ansiosa para um almoço em família, percebeu o nosso distanciamento nada habitual. E a reação imediata dela me chamou a atenção. Ela me abraçou visivelmente emocionada, me perguntando se estava tudo bem. Percebeu o quase imperceptível, considerando, como eu disse antes, que não somos de grandes cenas quando se trata de momentos de desacordos. Mas ela percebeu a diferença sutil na gente. No que entende quanto a nossa conexão no dia a dia e aquele momento de solidão aparente, tão necessário às vezes na relação. Mas que ela não conhece sobre.

Procurei acalma-la na hora, dizendo que estávamos resolvendo um problema da nossa rotina e que ficaria tudo bem. Que é natural que possamos tratar seriamente de assuntos sérios, mesmo que às vezes o façamos abraçados, enrolados.  Mas ela realmente ficou mexida. Percebi durante o almoço, e depois no caminho da escola, a nuvem imensa de preocupação sobre a sua cabecinha.

Então a peguei para uma conversa das nossas e me dei conta da dimensão de alguns acontecimentos dentro da gente. A importância de jamais diminuí-los na vida. Nem em nós, nem nos outros. Do quanto uma dor pode iluminar se acolhida. O quanto as experiências que uma criança vivencia na sua infância, marcam a sua história e constituem eventualmente medos, defesas, pensamentos cristalizados, e até compreensão do que é felicidade, enfim…

Ela estava apavorada com o fato de ter entendido, pela primeira vez, que podemos passar por situações na vida adulta que nos fragilizem como casal. E isso parecia novo para ela, pois eu e o pai realmente não brigávamos, não discutíamos, o que possivelmente tenha contribuído para o nosso natural distanciamento. E ali ela percebeu que entre eu e o pai afetivo acontecia. Que tínhamos nossos momentos de debate, de eventual discordância ou mesmo aqueles “travamentos” que nos mantem em distância de segurança por algumas horas. A fim de preservarmos um ao outro e de nos respeitarmos, às nossas dores. Mas ela não conhece isso ainda, apesar de saber mais do que eu esperaria de uma menina de nove anos. E ela falou do medo de nos ver separados.

O maior medo dela, exposto ali, naquela conversa, era viver um divórcio de novo. Pois a sua grande força na época teria vindo da minha fortaleza, das minhas certezas, da minha felicidade. A qual ela não conseguia ver naquele momento. E assim, não poderia aguentar. Não sem uma base forte e feliz em mim.

Me dei conta ali que o divórcio aconteceu para ela, para eles. Para Joana e Joaquim. E que foi profundamente doído, como foi para nós, os pais, por mais que eu tenha tentado protegê-los com as minhas certezas, com a minha força e com a minha felicidade construída no depois. Eles sabem pelo que passaram. Está marcado para sempre nas suas vidas. A primeira história de amor que viram acontecer e acabar. O amor novo, que nasceu após tudo isso, a nova família que não só viram crescer à sua volta, mas da qual fizeram parte na sua construção. E que começou na esperança deles de uma vida melhor, da felicidade de novo, da família, no formato possível a partir dali. Daquela separação dos pais.

E no que se difere do que eu queria lá atrás para nós, naquele momento de dor e de disrrupção do maior valor que eu tinha na vida? Em nada.

Eles, dos seus em torno de um metro de altura, queriam o mesmo que eu. Uma vida de volta. Assistir de novo o amor em sua casa. Assistir a família acontecer. Tão importante para eles, crianças criadas por gente que tem eles como valor. O amor e a família. Então, nada mais justo do que, amparada pela sua consciência sã, mesmo tão menina, ter receio de passar por um novo divórcio.

A abracei forte. Ninguém quer viver um divórcio de novo. Ninguém. O desmanchar é triste como é a morte, a perda de uma rotina em família ou qualquer outra coisa que faça terminar algo que temos e que valorizamos, mesmo com defeitos. E então não a enchi de promessas de que a vida é aquele “algodão doce” de certezas e águas paradas, a qual eu já acreditei, mas não acredito mais. Mas que é uma jornada encantada. Cheia de altos e baixos, de desafios que às vezes vencemos e às vezes não, mas que propõe novos recomeços, novas oportunidades, todos os dias. E que nada é mais valioso, mais mágico do que isso.

Mas também disse que enquanto debatemos a construção de caminhos, estamos mais do que nunca juntos. E é assim que estamos eu e o pai afetivo dela. Construindo novas saídas, novos mundos, novas cenas para esse contexto desafiador que é a vida real em família. De verdade. Que posiciona pontos de vista, que acolhe, que vez ou outra discorda, conflita e se encontra no desejo de acolher o outro para mantê-lo perto. Que entende limites e potenciais do outro. Que percebe intenções. De compreender para construir o caminho do meio. E que este trabalho tem a ver com fazer crescer a relação, e não mata-la. Que o debate quer dizer evolução de ambos e consequentemente do todo, e não o fim dos tempos. Mas que, se um dia fosse, pois do futuro não sabemos nada, mesmo dedicando tudo de nós no presente, já sabemos o caminho a fazer. A ideia do bem. O olhar sobre o que ganhamos de cada oportunidade. De cada escolha, troca de afeto e decisão de fazer melhor que antes e assim, identificar a felicidade. Pois já o compreendemos, e à nossa total falta de controle sobre, a não ser quanto ao que somos e queremos realmente dar àquilo e àquelas pessoas, naquele contexto.

Só isso nós dominamos nessa vida. As nossas escolhas, a nossa forma de dar afeto e de recebê-lo, o nosso investimento. Este será sempre um movimento individual, e por isso, onde temos que nos segurar e onde construímos o olhar feliz.  Onde nos fazemos capazes de grandes realizações, de reais evoluções. Com quem negociamos novos caminhos, mudança de rota, acolhida às limitações nossas e incríveis transformações para o que queremos realmente ser na vida. Aí, deixamos de depositar apostas e expectativas no outro, o libertando, libertando a nós mesmos, e no fundo, sendo mais generosos nas relações. Pessoas melhores. Com um potencial maior de viver junto.

Espero que a minha filha, ali, tenha, além de compreendido, internalizado a dinâmica da vida. Com menos idealização e mais reconhecimento do que temos de real. Do nosso amor, do agora, dos movimentos das pessoas que ama, do lido com os afetos e com as dificuldades que a vida apresenta. Pois não existe nada de bom na idealização. Não pode ser daí o aprendizado de uma criança sobre esperança e encantamento. Pois são coisas que devem estar nos nossos olhos, na nossa capacidade de escolher o modo de ver, a partir do entendimento do valor da verdade, do claro, do honesto e da beleza de viver a vida assim. Encarando-a nos olhos.

Ensinando eu, no papel de mãe, que a vida é viável, gostosa, e por escolha nossa quanto  as lentes que vamos usar na jornada, até feliz. Basta entender como ela funciona e de onde vem a força.

Pois assim fica mais fácil viver uma vida de menos frustração. Profunda e realmente feliz. Grata. Pois construiu força e morada para o afeto em si. E armada assim, não há o que saia debaixo da cama, das suas vivências ou do seu passado, que possa assustá-la.

4 comentários Adicione o seu
  1. Oi Juliana,

    Só agora que consegui um tempinho para ler…tão real, tão verdadeiro o que escrevestes…
    Eu brinco muito que foi culpa dos desenhos que “eu sempre acreditei em príncipe encantado, em conto de fadas”, nem a idade, nem a maternidade me fizeram mudar de pensamento, mas o divórcio sim…
    Nossa tenho tentado todos os dias agradecer pela relação real que tenho hoje, viver o presente, não romantizar, não criar taaaantas expectativas e como é difícil para mim…eu sou a sensibilidade em pessoa, sou canceriana…e hoje escolhi um pessoa completamente diferente de mim, que teve uma infância muito difícil, sem nenhum afeto, que teve um divórcio de uma casamento pesadíssimo e que jurou que nunca mais teria alguém…mas aí nos encontramos e ele foi se deixando envolver e eu fui vendo quantas camadas de proteção tinham ali e tento todos os dias compreender o jeito dele, o que posso esperar, o que não posso, o que devo dizer que quero…pq ele não tem “bola de cristal”…
    Eu tenho um menino de 6 anos, faz 7 em seguida, quero muito conseguir educá-lo e prepará-lo desta forma, sem idealizações, mas ainda preciso evoluir um pouco mais nessa lição, muitas vezes acho triste ter que deixar de acreditar no amor que eu um dia acreditei.
    Te devo uma consulta de terapia! Hahahaha
    bjs

    1. Querida… o que posso te dizer além da certeza de que entendo o que tu vives e que este é realmente um trabalho emocional importante e constante? Que não desacredite do amor. Ele existe e é delicioso. Só que não é fruto de um ideal. Precisa ser recebido na vida de forma aberta, reconhecendo no outro o seu valor no amar e percebendo se isso te completa, te faz feliz. Se não, pode ser incompatível. Se sim, vive ele com tudo, enquanto ele existir. Nutre, dedica e se delicia. A vida é feita de agoras. E o único que podes fazer ser bom está acontecendo. Como costumo dizer nos textos e na vida, do futuro só deus sabe:)
      Beijos! Não vou te cobrar a consulta mas adoraria te ver no evento do dia 05:)

      1. Oi Juliana! Bom dia! Estou lendo cada uma das tuas respostas agora, no celular consigo visualizar, mas no note realmente não aparecem, nem os meus comentários! Obrigada pela atenção, carinho e ajuda em cada resposta! Adorei te conhecer pessoalmente! Um grande beijo!

        1. Carol querida!! O prazer foi todo meu… Faço neste trajeto que escolhi algumas amizades, parcerias que me acompanham no amparo e na troca de vivências. Com as quais divido minha intimidade e ouço também. És uma mulher incrível, cheia de afeto, consciência e compreensão sobre as coisas que viveste e sobre ti mesma. Foste elogiada pelo teu relato ontem. Corajoso e honesto.
          Obrigada por me acompanhar e estabelecer comigo esse vínculo de confiança <3.
          Um beijo carinhoso, Ju

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