DOR: Um abismo ou um degrau?

Agendei a colocação de um DIU para sexta-feira da semana passada, desavisadamente. Tem um tempo que quase tudo na minha vida virou tarefa de agenda, única forma que arrumei de organizar o meu dia a dia com tantas demandas. É casa, filhos, amor de qualidade, meus projetos e trabalhos, eu… que enfim, vivo na companhia de um grande “TO DO list”. Por isso o “desavisadamente”. Não pensei sobre o procedimento ou qualquer preparação. Agendei, e como em uma reunião, me fiz presente no horário.

Faltando dez minutos para sair para o consultório da médica, lembrei vagamente da orientação dela sobre a utilização de um remédio forte para a dor, a ser tomado em torno de meia hora antes do procedimento que faríamos, e que seria ambulatorial. Na hora, liguei para a minha mãe e consegui com ela um remédio para dor nas costas, na garganta, de dente e, nas entrelinhas, para inflamações ginecológicas, e foi o que bastou para eu resolver o problema e seguir para o meu compromisso.  No caminho, resolvendo algumas questões no telefone,  comentei com duas pessoas para onde eu estava indo e só ouvi sobre dor. Que eu deveria colocá-lo, o DIU, em um hospital, com anestesia, e que eu estava sendo louca de fazer no consultório médico. “Sofrimento desnecessário”, foi o que eu ouvi.

Aqui eu faço um parênteses, e que foi o meu pensamento na hora: Já me vi em tantas situações de dor, que não pode ser possível um DIU me assustar. E entendi ali, que poderia lidar com isso. Com mais essa dor. Há anos ela vem sendo minha companheira íntima, minha amiga. Há tempos me mostra novas formas de viver a vida, novas alternativas e caminhos a seguir e até, jeitos interessantes de senti-la. Livres. Compreendendo o caminho dela em mim.

Pois bem, descobri na sala da minha médica que havia tomado um anti-inflamatório, e que pouco ele me ajudaria naquele momento. Ela queria me mandar para casa… afinal, a orientação era simples e esse pouco eu descumpri.  Me sugeriu fazermos a medição do canal do útero, acho que era isso, e se ali eu sentisse dor, me mandaria para casa e numa próxima, voltar com o remédio forte para dor tomado.

Não tenho exatamente medo da dor, de senti-la. Hoje tem mais a ver com um desejo de saber lidar com essa sensação. De alguma forma tudo que já senti neste sentido me fez mais potente. É como me sinto. E então, aquela ali seria a oportunidade de percebe-la em mim e controlar seu efeito através do foco na minha respiração e no que eu tenho de bom na vida.

Então vivi um procedimento sublime, pelas mãos delicadas da minha médica. Respirando fundo e conectada a minha mente e a pensamentos do bem, me ausentei da colocação do meu DIU. E de repente minha médica me questionou se estava tudo bem, pois a colocação já estava feita.

Pasmem… não senti absolutamente nada. O que atribuo ao foco da minha mente no bom. Na ideia do bem. Da dor sem sofrimento. Que ali, por não ser sofrida, deixou de ser dor.

Não acho que o sofrimento e a dor existam no mundo para fazer sofrer, simplesmente. Não acho que foi isso que o nosso criador, seja ele entidade ou universo, quando nos deu a oportunidade da vida, tinha de plano para nós. Acredito que ele desejou que cada um descobrisse nesse caminho o tamanho do seu poder, da sua potência em acolher as dores do mundo e lidar positivamente com elas. Às fazendo degraus de evolução. Vencendo assim limites estabelecidos até aquele ato, aquela dor. E nela, nos superarmos. Pois nascer e morrer igual ou pior, não faria sentido algum na jornada da vida.

A dor é realmente uma caixa de surpresas. Cada dia que passa e a cada dor que sinto, cada história de dor que escuto e que, enfim, leio nos relatos das mulheres que me acompanham, deixam mais claro que a dor é uma percepção da gente quanto  a um momento vivido. Uma sensação.

Quando eu era adolescente, acompanhei a história de uma amiga muito próxima que viveu uma violência sexual. Não consigo imaginar o tamanho dessa dor, dessa violência horrível, assim como não posso imaginar a dimensão do que sente a mãe que perde um filho. Situações de dor aguda e as quais vi acontecer com pessoas próximas e outras não tão próximas e que me surpreenderam no lido. Destes seres humanos.

Na vivência da minha amiga, relatada por ela, seu subterfúgio na vivência dessa violência inominável foi o de voltar a sua mente, naquele momento, à oração. Ela conversou com Deus, rezou, pensou na sua família, no acolhimento da sua casa. E saiu dali. Lembro de mim, menina, chorando com ela, pela dor que sentia por aquele acontecimento tê-la acometido, ser acalentada pela mesma, que me dizia lembrar de pouco, pois não estava ali, naquele acontecimento. Trouxe esse episódio pois, reservadas as proporções e levando em conta apenas o lido, se pareceu com o meu movimento na colocação do DIU. E lembrei dela… Da sua potência em se utilizar do poder da sua mente para proteger-se da dor. Preservando ali também, a sua sanidade.

Trago também a experiência de uma super amiga mãe, que perdeu a sua bebê, terceira filha, e após essa perda se concentrou no amor e amparo do marido, seu parceiro de vida, e nos seus outros dois filhos, e que me deu aula de resiliência um dia desses. Refez a sua rotina, cheia de amor pelos que ficaram, e no seu relato, diz que aquele, por algum motivo, se fez um pedaço da história da sua família. Um pedaço que os fez suportar juntos uma grande dor e nela, crescer no amor e na força daquele conjunto de gente.  Foi o entendimento dela. Que segue a vida. Pois nada faria a realidade ser outra. Apenas a sua potência em lidar com tudo o que se apresentou. De uma fortaleza incrível, de arrepiar. E de admirar. Pois quem está livre de violências, de todos os tipos, ou da morte?

Ninguém…

Me parece que realmente a forma como lidamos com momentos difíceis são definidas pela potência que temos interna de pensar em ideias do bem. De pensar em formas positivas, que preservem o presente e o futuro, não se entregando assim ao fim que não chegou. Não desistindo de viver. E aqui, não falo só de vida. Pois encontro mortos-vivos por aí, a toda a hora. Falo de não desistir da vida como algo bom. Prazeroso, cenário de realização de sonhos. De grandes conquistas ainda, além das dores que essa jornada pode trazer.  

A gratidão por todo o resto que se tem, e pela oportunidade de estar aqui pode ser um começo. Um analgésico. Uma forma de dar o primeiro passo adiante. Não menosprezando a dor, mas refletindo sobre a forma como a gente a vive ela por dentro e que efeitos permitimos que ela tenha. Se o de um veneno mortal ou de um momento de aprendizado, evolução ou mesmo de perdão. Pois se não existirem saídas como essas, imagino que estejamos todos ferrados. Fadados a infelicidade e à entrega dos pontos da vida. Jogando a toalha, pendurando as chuteiras, como você quiser. Mas em todos, a ausência da vontade de viver, o que seria muito triste considerando as possibilidades que temos a frente dos nossos olhos, atrás das montanhas.

A dor nos ensina a ser mais fortes. A dor nos ensina a reconstruir, nos traz potência, autoconhecimento e novos limites. Toda a dor dói. É como lidamos com essa sensação que define a vida feliz e a vida triste que podemos ter.  Que escolhe entre o lamento e a constante frustração, e o desenho de novos projetos, novas metas, novos sonhos. Novos afetos, novos mundos.

Não estamos na vida por acaso. Estamos para passar por aprendizados, e aprendizados pressupõe a sensação de dor no caminho. Foi quando descobri que a dor poderia ser minha amiga, que ela passou a consistir em grandes oportunidades de mudança, em grandes janelas de melhoria pessoal e melhoria do ambiente no qual vivo. A dor me ensinou a ter menos medo, e assim lidar melhor com ela. Me ensinou que sou forte, que posso tudo, que posso suportar, por mais gigante que ela seja,  pois o poder está dentro de mim. Desde que eu consiga identificar as ideias do bem.

E acredite, todo acontecimento tem. Todo acontecimento gera uma mudança. E ser para melhor do que antes é uma escolha só nossa. Do que fazemos com ela. Com essa massa de modelar que vem cheia de defeitos, cheia de cargas, cheia de dor, e que transformamos no novo rumo, no novo caminho, numa nova coisa, no novo sentimento. Quem sabe da gratidão que falei. Quem sabe de agradecimento pelo ensinamento que ele trouxe. Quem sabe apenas para identificar termos um potencial maior do que tínhamos antes. E aí já temos uma ideia do bem, por onde começar.

Desejo que a dor seja um caminho amigo. Que muna você de ferramentas eficientes para a vida, do bem. Que te ajudem em grandes novas construções. Basta estar atendo. Olhar, acolher, sentir e achar o ponto de luz. Toda a dor tem um. E se ficar difícil achar, usa o que tem dentro de você. Este que é um potencial humano, e que pode te levar para onde quiseres. Até, para um mundo seu, muito melhor do que o que enxergas hoje.

É só tomar consciência. Fechar os olhos e buscar o bom. Que o caminho se dá… Boa sorte. Não estás sozinha nessa.

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