Pertenço? Ou me adéquo?

Outro dia ouvi em uma palestra sobre o sentido de pertencimento, e que neste processo se é, não se adéqua. Olha que profundo isso. Quantas as situações as quais nos convidam a entrar em grupos, compartilhar de crenças e valores, ou mesmo de ações organizadas, que falem por nós, e de repente, nos adequamos ao invés de pertencer.  E quanto às tantas que buscamos pertencer quando a mesma só demanda se adequar?

Confesso de doeu escrever esta última frase. Quase não consigo falar que adequação seja caminho para alguma coisa na vida. Mas aí estaria sendo hipócrita, de verdade. Pois seria impossível pertencer a grupos, os quais demandam a nossa partilha, mas que não nos permitiriam ser, na essência, jamais. E me veio aqui de cara alguns exemplos da minha vivência no dia a dia como mãe, de uma nova família, no lido com as famílias dos meus filhos, com o seu ambiente escolar, com grupos de mães, com eventos de mulheres “empoderadas” por suas escolhas profissionais e de vida, e até na relação de amor.

A gente pertence a um grupo quando nele crescemos na nossa essência, no nosso eu. E me motivou trazer essa questão, para identificarmos o tanto de situações na vida nas quais desejamos pertencer, mas que, eventualmente, não é honesto com a gente, mas necessário. E aí, adequar-se pode ser uma solução simples e coerente. Se amparada por valores que realmente nos movimentem.

Pertencer é mais bonito do que se adequar, tem mais propósito. Porém, quando saímos do olhar simples que permeia apenas a nós mesmos, ao nosso ser, nos damos conta que é um belo caminho, mas que, se único objetivo na vida, ignora a quem mais amamos. Pois não são em todas as situações na vida que o foco está em nós e no nosso sentimento de conexão. Às vezes somos apenas uma parte do todo que importa a outra pessoa que nos é cara. E aí concluí que talvez o melhor caminho seja conhecer de fato as situações que nos convidam a cada um desses sentimentos, e escolher em quais iremos pertencer e em quais iremos simplesmente nos adequar pelo outro. O que podemos chamar de adaptação, que me parece mais virtuoso. Em nome de um sonho, de uma conquista, de uma família ou de um amor. Ou da construção de proteção e de amparo.

Quando conheci o meu marido, recebi com ele, na minha vida, uma família e alguns amigos. E além deles, uma rotina, sonhos profissionais e pessoais, expectativas e realidades. Nessa mistura, em muito cresci em mim, principalmente na nossa relação de amor romântico, quando nela fui me acolhendo, me potencializando, me descobrindo e me entregando àquele pertencimento, respeitando a mim, ao meu ser. Porém, considerando tudo que veio na sua bagagem, em alguns grupos me vi impossibilitada de pertencer, por uma questão de essência. Nem pior, nem melhor. Apenas minha. E nesses casos, por estes grupos também serem parte dele, me permiti me adequar. Ajustar questões que me permitissem conviver naquelas situações sem necessariamente pertencer. Apenas usufruindo, experimentando e fazendo companhia a ele. Adaptando aquela realidade. Pois ali se tratava do merecedor do meu movimento, justificado pelo nosso amor.

Como é sabido, tenho três filhos, duas meninas e um menino. O casal mais velho, fruto do meu primeiro casamento. A bebê, da minha nova família. E neste contexto, por enquanto, duas turmas da escola. E por isso, dois grupos de mães de colegas. Grupos grandes, já que falamos de mais de vinte alunos em cada turma. Isso sem falar nas extracurriculares e seus grupos de apoio.

Pois bem. Difícil pertencer de fato a grupos tão heterogêneos. Lembrando que a liberdade de um termina quando começa a do outro, assim como se faz necessário o respeito a posicionamentos e vidas diferentes, ali, nos grupos, lidamos com tudo de todo mundo, junto. Conectados ou não com a minha essência, é importante para eles, meus filhos, que eu então pertença ao grupo. Que no caso, na minha eventual impossibilidade de pertencer de verdade, demanda adequação, e está tudo certo. Pois ali há um propósito maior. O de compartilhar vivências dos filhos e informações pertinentes à vida deles. Independentemente do modelo ou da cultura estabelecida ali se comunicar com a minha essência, com o que entendo como caminho. Eu, que sou apenas uma das trinta mães.

Também compartilho filhos com o pai deles. E por isso, pertenço à rede de apoio deles, misturada com tantos outros que não falam necessariamente por mim. Porém, falam por parte deles. Conversam no afeto e na base, essa que cada um dá como pode. E ali, nas famílias dos meus filhos, achei outro grupo ao qual me adéquo em ambiente heterogêneo. De culturas e valores tão diferentes em alguns prismas, mas todos de Joana e Joaquim. Todos seus acessos. Todos seus afetos. E como não fazer parte com prazer e com amor? Impossível. Mas se pertencer significa um alinhamento de forma, modelo, caminho, de ser, bom. Talvez este seja mais um grupo ao qual me adéquo para estar presente ali, para eles, de forma integrada.

Outro dia fui convidada a dar uma palestra sobre a minha experiência com o divórcio e o movimento da construção da minha nova família. Aconteceria em um evento grande, em um lugar suntuoso, com um público seleto de famílias e agregados, um ambiente o qual sempre desejei acessar com este projeto. Só que para contar a história eu precisaria me adequar. Adequar a colocação dos fatos, o valor de alguns acontecimentos e o peso de outros. Algo que, no final das contas, geraria uma história um pouco diferente da que vivi e na qual acredito mais que tudo.

Quando me foi feita essa proposta de exposição da minha história e do projeto, nessas condições, adequadas, voltei para casa incomodada no estômago. Sintoma comum, na minha opinião, da desconexão de alguma coisa com a nossa essência. E ali, me vi refletindo, estacionada, em um posto de gasolina, quanto ao que fazer: aceitar a oportunidade de falar para tanta gente desse tema tão importante que é a experiência de uma família pós-divórcio, e da sua reconstrução, ou aceitar que ali tínhamos um conflito de propósitos e de essência e, simplesmente declinar?

Era essa uma oportunidade real para mim? De pertencer e provocar um momento de reflexão, de expansão e de empatia?

Pois foi na fala da minha filha Joana que recebi uma aula e que me encaminhou à decisão quanto ao que fazer. Ao chegar em casa, e dar conhecimento à minha filha quanto a minha questão neste convite, ouvi dela: “porque você vai falar para pessoas que simplesmente não querem te ouvir ou te ver como você é, e como as coisas realmente são para você?

Toma. Ela não deixa de me impactar com a sua forma. Como não acolher a mim naquele contexto? Como pôde ela ver e eu não?

Há situações na vida nas quais sim, você pode adequar-se. Por amor, pelos filhos, por um sonho, por uma conquista, pela família. Pela quantidade de pessoas que vão te assistir, não. Por vaidade, também não. Por uma coragem desmedida e potencialmente suicida, menos ainda. Não para mim. Ali, seria simplesmente eu. E quando se trata de mim, não existe se adequar. Já foi, mas não é mais. Agora, apenas pertencer.  A experiência de vida, as quedas e a oportunidade do levantar ensina isso. O respeito a si, quando se trata só da gente.  Pois se trata de tudo que realmente temos na vida, de tudo o que só nosso. E que só precisa do genuíno pertencimento para ser. E então escolher, inteiramente, onde se adequar pelo que vale realmente a pena na vida.

Pertenço? Ou me adéquo?

Posso tudo na vida, desde que por um caminho consciente e honesto. Desde que sem violência. Principalmente em mim. Está aí um poder gigante. Desses que só que cai, levanta, pertence e, eventualmente se adéqua, sabe.

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