O dilema do bonde

Já ouviram falar? Minha filha Joana ganhou de aniversário de dez anos um livro de dilemas focado no público infantil, a fim de promover o exercício da escolha para os pequenos, dadas as circunstâncias mais improváveis. Bondes, dois caminhos diferentes, uma manivela, pessoas, e a escolha sobre a quem atingir fatalmente. As quais me surpreenderam inicialmente, pois se fizeram dilemas para mim também, mesmo na condição de adulta, que acha já ter visto e vivido bastante coisa. Então, imagino que para eles tenha sido desafiador. Dilemas daqueles de filme do “Indiana Jones”, com direito a escolha de quantos você prefere que morram na história. Tipo isso.

Bom, mas para resumir, dizer que o livro se trata de dilemas de verdade. Pois em qualquer das opções existem perdas. Cabe à criança escolher o que prefere abrir mão e se responsabilizar pelo resultado. Estimulando ali a compreensão das perdas e dos ganhos desse processo, como consequência de qualquer escolha que fazemos na vida. E, no entendimento consciente, tomar por um lado, uma opção, conhecedora do que deixou para trás ou autorizou acontecer.

Escrevo hoje para as pessoas casadas ou que possuem um afeto estável, que vivem relações não mais frutíferas, nem no prazer ou na parceria diária, e que identificam um dilema na sua constelação. O que em muito me parece com o dilema do bonde. Escrevo também para quem se divorciou e que, frente a um dilema como este, escolher pela perda daquela constelação familiar da qual fazia parte, em prol da proteção de outros valores importantes para si, talvez vitais, sofram ainda pelo que deixaram para trás.

Está aí a orientação para a solução de um dilema, afinal. Valores. O que é vital para cada um de nós. E aí escolhemos o que não podemos viver sem.

O livro da minha filha dizia mais ou menos assim… se você deixar o bonde fazer o seu caminho, ele matará cinco pessoas. Se puxares a alavanca, ele muda de caminho e mata uma. Puxa. Se aquele dilema maltratou, a mim, uma adulta, posso imaginar a cabeça dos meus filhos que o ouviam atentos. O problema ficou ainda pior quando o dilema colocou em ambas as opções integrantes da nossa família e amigos como possibilidades de tornar a questão mais difícil de avaliar. E que dali foi inserindo cada vez mais variáveis que apertassem o cerco deles. Os forçando a escolher a quem salvar.

Alguma semelhança com o que você passou quando se separou? Ou com a história de você, que está com o seu bonde desgovernado e ainda não escolheu a quem vai ferir, se a você, ao seu parceiro ou a toda a sua família do jeito que é?

Ouvi outro dia, em uma constelação familiar, que o nosso dever como pais na vida está em gerar. E que daí para frente não temos mais obrigações nem compromissos de abrir mão da vida para garantir o “ingarantível” aos filhos. Não concordo na prática exatamente com isso, ou seria incoerente com muitas das escolhas que vivo hoje por eles também, pelos meus. Mas no seu conceito, essa afirmação faz muito sentido. Matar a mim mesma para salvar o que aparentemente é vital para os meus filhos, por exemplo, não me parece um bom caminho, nem tem muito bom senso. Pois é aparente. Não se leva em consideração os efeitos da infelicidade ou não realização pessoal e íntima dos integrantes adultos na convivência daquela constelação, ou mesmo do que sentem as crianças naquele contexto de faltas. Não se tem noção real do que é intimamente importante para cada um. Do que de fato constitui harmonia, de verdade, naquelas pessoas. Isso para mim. Na minha avaliação.

Cheguei a tentar, lá no passado, escolher primeiro pelo melhor “aparentemente” para os meus filhos. Mas a vida em mim se provou mais forte até que eles. E lá atrás fiz uma escolha por mim. Me salvei ao jogar o bonde sobre a minha família, o que me incluía, considerando que éramos fortes para passar por tudo aquilo sem morrermos todos. Que daríamos jeito e sairíamos da situação de estresse mais fortes. Mais capazes, e agora, vivendo uma verdade com relação a nossa também aparente felicidade.

E nessa relação com o dilema do bonde, me dei por conta de que a grande diferença na solução real de um dilema é o ser desafiado. A pessoa que está ali, com a alavanca na mão e com a possibilidade de escolher o caminho que faz sentido para ela mesma. Que tem bom senso no seu universo. Porque o sentido da vida e a escolha do melhor desfecho é tão particular quanto o afeto. É peculiar do solucionador, ou, em outras palavras, está na mão da gente. Foi aí que entendi que não existe a melhor solução, mas a sua. A que se explica para você. E aí, se levando em consideração, de novo, se respeitando, e aos outros e suas dores no processo, se reinicia uma cena com grandes possibilidades de funcionar melhor, de dar certo, a partir de uma decisão embasada em seus valores. De ferir menos gente ou, se ferir alguns, de forma menos profunda e cheia da mais racional verdade.

Se eu puxasse a minha alavanca, aquela que se apresentava no bonde da minha vida, teria me acertado em cheio. A mãe deles. Então, para mim, fez sentido não puxar. Eles não ficariam bem com uma mãe que não escolhe a si.

O que afinal eu teria a ensinar a eles na vida? Trocar fraldas, alimentar e colocar para dormir, muitos fazem. Mas quem os ensinaria sobre valores se a mais próxima e mais importante das suas referências puxasse a alavanca que comprometesse diretamente o seu ser, a sua essência? Essa era a minha alavanca. E assim eu puxei e deixei que a mais pura verdade nos atropelasse, sobrando para mim, como mãe, abraça-los e protege-los do impacto.

Para a nossa surpresa e realização do meu plano sem garantias, sobrevivemos todos. Arranhados, machucados, mas mais vivos do que nunca. Mais humanos do que nunca, uns para os outros. A minha aparição sustentada no meu indivíduo. Me considerando como pessoa importante e não só sobre um dos meus papéis na vida. Não só como mãe. Nos tornando ali mais próximos e vulneráveis do que em qualquer momento da nossa história. Mais conhecedores uns dos outros e dos dilemas que a vida nos reserva. E, mais uma vez, sem garantias. Apenas com a coragem de tentar e tentar. De contemplar a vida real e gostar do que vê, mesmo ela sendo imperfeita e feia às vezes. Mesmo precisando de uma grande obra, de um recomeço. De lidar com cenas novas de coração aberto. E enfrentar o medo, do que fazemos juntos, todos os dias.

Pois quem anda no seu bonde consciente de que há ali uma alavanca, sabe que sempre há também uma alternativa. Mais de um caminho. E que é preciso ter coragem para enxergar e escolher.

Assim são os dilemas da vida. Nada fáceis e onde não cabe o bom senso. Cabe o valor. Cabe a gente. Quem dirige a própria história. Ou podemos sentar na janela e assistir ao bonde desgovernado que nos carrega, deixando-o nos levar para onde quiser, ao seu bel prazer.

Por isso, se posso invadir um pouco a tua reflexão pessoal, sugiro avaliar a poltrona do motorista. Ela pode ser desconfortável às vezes, e a ela pertencer o poder de movimentar uma manivela, exigindo capacidade de escolha e de acolher as perdas. Mas ela controla um bonde que é seu, que está sob a sua responsabilidade. Como todos os movimentos do caminho, sejam eles leves e prazerosos, sejam eles tempestuosos e pesados. E que só são nossos de verdade quando os escolhemos com a nossa alma.

Da janela são só, acidentalmente, nossos. E aí, sem escolha, não tem valor.

A propósito, meus filhos escolheram de forma diferente nesse exercício gostoso que fizemos um família. Chegaram a soluções completamente distintas. Simplesmente porque são diferentes um do outro. E está tudo bem.

Justamente por isso, ambos escolheram certo:)

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