Parece seguro, não é? O oposto do caos, da mudança, do que exige da gente mais força, resiliência, transformação e evolução. Ficar parado não exige nada disso, afinal. Manter as coisas iguais não promove a criatividade, o autoconhecimento, e por sua vez, nada de inovação e de passos à frente. Em nada na vida.

Então quero falar do medo real. Do que nos impede de nos movermos e que em tanto impacta na vida da gente quando mudamos a nossa história, em qualquer âmbito. Como com a decisão pelo divórcio, por exemplo.

Conversávamos outro dia no escritório no qual trabalho, sobre a reinvenção a qual os chineses promoveram em si mesmos e no seu país, pós-guerra. Gente que, após conhecer o fim, as ruínas, a completa destruição de tudo o que conheciam e tinham como vivo e referência, e isso inclui pessoas, se levantou, começou de novo, reverenciando o caminho pelo qual passaram. Conhecedores da miséria, da pobreza e da ruína em todos os seus cantos e frestas. Mas sobreviventes. Que aprenderam a valorizar a comida, os afetos, o trabalho e as suas vidas. Que renasceram das cinzas, melhores. Uma potência de coração tatuado pela dor e pela consciência. E que hoje equilibram seu tempo entre cada um dos seus pedaços. Dando parte para si, para os seus rituais, para a sua religião, seus afetos, sua comunidade. Valorizando cada valor que viram soterrado sob o mundo que assistiram acabar.

Você vê… Não há experiência ruim que não traga a sua ideia do bem. A sua mudança necessária, que coloca outros mundos como alternativa, outras formas e a natural transformação da pessoa que a atravessa. Todos passamos por algumas dessas situações ou vimos alguém próximo passar e já está claro que sobrevivemos a isso. A questão é que morremos de medo! A hipótese de terminar com algo que não ia nada bem assusta mais do que o fato desse algo não ir nada bem. E pior, isso potencialmente poder ser para sempre assim. Ruim.

Afinal, realmente preferimos o horror sem fim ao fim com horror? Nos saciamos de fato com uma vida sem vida ao invés do encerramento de uma jornada que propicie o início de outra, quem sabe mais intensa, conectada e feliz?

Acredito que em algum momento ficamos sem escolha. A gente morre dentro ou mata o fora. Não há vida infeliz que não traga consequências. É a lei da sobrevivência. E eu realmente não sei, até hoje, a hora certa de se fazer um movimento de mudança, capaz de evitar mais sofrimento e dor. Talvez porque não há ruína sem eles. Sem o sofrimento e a dor. Mas focamos nelas ao invés da possibilidade de atender a si próprios a partir dali. Conhecedores do ponto da gente que grita por socorro. Que termina com a gente, mas nos dá o marco zero. Então é uma questão de olhar, eu acredito. E de fé no novo amanhecer.

Ruína me parece um presente. Ouvi essa frase na terceira vez a qual assisti o filme Comer, Rezar e Amar, que tanto gosto. E ouvi que a ruína é a estrada que leva a transformação.

Eu não poderia dizer diferente. Vivi algumas das boas e carrego suas marcas no mesmo lugar das minhas medalhas, das minhas conquistas. No meu coração. Neste que ficou maior quando entendeu que viemos para buscar a evolução nas nossas dificuldades e a felicidade, e não para vivermos vidas paradas, tranquilas, e que poderiam ser cenário de propagandas de margarina ou grandes magazines. Desse tipo que não tem vida, que não existe, exceto por alguns momentos ínfimos frente ao que é a vida e as suas ondas.

Não viemos para exibir famílias perfeitas no Instagram, nem amores, nem corpos esculturais. Não viemos para intimidar as pessoas com currículos impecáveis. Simplesmente porque não acho que somos. Porque acredito que nos tornamos melhores, se atentos, a cada fim, a cada mudança. E que é do movimento e da ruína que construímos experiências de valor. Do fracasso e da queda que aprendemos a levantar degraus diferentes, criativos, alternativos. Que entendemos de que forma se pode iluminar um túnel escuro. Simplesmente porque só quem está nele, tendo disponível consigo apenas a sua mochila de vida, com as ferramentas que conhece, é que faz esse caminho.

No divórcio, me parece assim.

Costumo, por conta do projeto New Families e do meu interesse natural pelo acolhimentos às dores do divórcio e da vida das novas famílias, ser procurada para conversar. Às vezes como confidente, ouvidos. Outras para dar uma opinião. Outras apenas para compartilhar experiências parecidas com as minhas. A questão é que faço grandes amigas e amigos nesse caminho. Uma dádiva desse trabalho, aliás. Troco muito carinho com pessoas arruinadas pelo divórcio. E em muitos casos converso com mulheres que vivem uma relação esgotada, já trabalhada no seu limite, e mesmo assim decidem não se mexer. Não movimentar, mudar ou transformar as suas vidas.

Para todas, quando a minha opinião foi solicitada, dada a minha vivência diária sobre o assunto, sugiro que esgotem. Coloquem ali, naquela tentativa, todas as suas intenções. Toda a sua força. Pois pouca coisa na vida é pior do que viver um processo de divórcio em um casamento com filhos. Só que eu também digo para todas que, se esgotarem as suas alternativas naquela relação, não deixem de ir embora. De arruinarem-se. De deitarem ao chão. Como forma de recomeçar, de zerar, de achar vida, luz e amor em um levantar que leve ao novo, ao desejo de viver além e melhor, no depois. Seja ele como for.

Pois quando o coração está partido, a sua alma devastada, o único erro é continuar ligado a isso pelo medo do caos. O mundo é um caos, admito. Não dominamos nada nele, nem a força da sua terra, do seu poder, da sua cultura, nem a força das suas pessoas. Mas as nossas vidas não são um caos, não. Não acredito na gente como vítima da gente mesmo. Somos parte de um mundo maluco que vive se transformando, e as nossas vidas só habitam nele. Então somos donos da mudança em si mesmos.

Não depende só de nós nos mexermos? Decidirmos o que é o melhor sob os nossos olhos e compreensão do todo que nos cerca? Então não merecemos ficar junto a alguém pelo medo da ruína, de sermos destruídos quando separados. Pois destruídos juntos não nos dá saída.

Todos queremos que as coisas sejam iguais, não é?

Não acho que isso realmente seja uma verdade. Mas se for para você, deseje repetir apenas o que funciona bem. O que te faz feliz, te conecta, te deixa em paz.

Se não for assim, transforma. Não há nada pior do que ser igual e infeliz.

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