Bons filhos…

Vivenciei uma cena essa semana, que me fez me perguntar se de fato sabemos o que estamos fazendo quando escolhemos a maternidade e a paternidade. Enfim, quando decidimos ter filhos e por eles dedicamos vida, escolhas e tantas vezes a gente mesmo.

Esperem eu terminar antes de me qualificarem de louca ou dona de qualquer tipo de revolta quanto a vida de mãe. Falo do quanto fazemos e se temos realmente consciência do que é realidade na relação entre pais e filhos, no gerá-los, no que é de nossa responsabilidade e no que é arrogância, exercício de poder ou mesmo ignorância e ingenuidade.

Nossos filhos são do mundo. Já ouvimos isso um tanto de vezes, não é?

Pois eles passam a existir, a partir do nascimento, de dentro para fora. De nós para o resto do universo. E desde a sua primeira respiração fora da barriga, é para o seu mundo próprio que começam a caminhar… saindo do nosso para o deles a cada passo. Desse que é idealizado e depois real, e que está na nossa ideia do que é ser mãe ou pai e do que queremos para eles e para nós naquele contexto.

Assisti a uma cena essa semana que me levou a estes pensamentos. Um adolescente quase adulto, filho de pais separados, foi questionado na presença do pai por um conhecido quanto a uma escolha de vida que aparentemente ele teria feito. Em resposta, o adolescente contou ao conhecido aquilo que era uma completa novidade para o pai. O pai ouvia sobre aquela decisão do filho pela primeira vez, e na frente de um estanho àquela relação. Eu, que apenas assistia, percebi as lágrimas nos olhos do pai, que perdido, questionava ao filho sobre o caminho que tinha feito para chegar a tudo aquilo. E internamente, podia vê-lo se debater tentando entender como não havia percebido antes, o que havia perdido, o que acontecera com aquela relação quase “umbilical”, não fosse ele ser o pai, e que, naquele momento, o fazia se sentir um estranho perante o filho e seus ideais.

Tive vontade de chorar, como mãe. Me tocou fundo aquilo tudo. Tenho três filhos e não tive como não me colocar no lugar dele, já que eu não sou melhor do que ninguém, nem na posição de mãe. Fiquei imaginando o dia no qual eu seria surpreendida por uma realidade dos meus filhos e sobre a qual eu não conheceria o caminho, o motivo e até, de que tipo de pessoa aquilo viria. Simplesmente porque não há controle nessa relação. Não há controle sobre os filhos, nem sobre como seremos parte de suas vidas, se dentro ou fora, se entendedores ou desavisados. Exatamente como aquele pai. De repente, carta fora do baralho.

Passou um flash na minha cabeça das noites as quais passei acordada, de cada momento no qual os acompanhei em situações de medo, timidez e mesmo nas de sucessos e aplausos. Me veio à mente às tantas cenas nas quais eu era a figura principal da vida deles, ou pelo menos uma delas. De quando a apresentação era para mim, a cartinha também, a nota alta da escola ou um pratinho trazido de uma festa, quando aquele era o meu salgado predileto. Tudo para mim. E de repente, aquele pai na minha frente sem nada. Telespectador da vida de um filho que podia ser o meu.

Passei o dia mal por ele. Tenho consciência de que a “paternalidade” é assim, sem cinto de segurança. Que é altruísta e exige da gente afeto e cuidado em pelo menos uma via, que é a nossa. Que se for dupla é uma sorte. E que jamais poderia viver a minha vida dedicando cem por cento dela a eles, pois quando fossem embora não sobraria nada de mim. Enfim, dessas decisões que vim tomando pelo caminho de me olhar, e que tanto divido com você aqui.

Aquele era um pai separado vivendo a realidade do compartilhamento, exatamente como eu. E me passou na cabeça, se ele não estaria se perguntando se tudo não seria diferente se vivessem em uma família convencional, isenta do divórcio e suas peculiaridades. Aquelas que ali poderiam ter determinado aquela distância toda entre pai e filho que estava exposta ali.

Acho que esta não é uma realidade apenas do pais divorciados, apesar da distância imputada pelo compartilhamento dos filhos ser física, e não incomum, ser também emocional. Nos distanciamos todos um pouco na busca de amortecer, de amenizar a saudade. Quem nunca, na solidão da casa vazia, abriu uma garrafa de vinho e a bebeu quase inteira? Quem nunca saiu para dançar em um final de semana sem os filhos e de repente se ver em um lugar ao qual simplesmente não pertence, tentando apenas ter ali outra vida? Quem nunca apareceu em um aniversário da família ou dos amigos sozinha, cumprindo a rotina do compartilhamento, fingindo que tudo aquilo era normal, que não ter os filhos consigo é parte de uma vida nova e evoluída?

Pois bem… Viver o outro o tempo todo quando ele não está, dói. Então nos distraímos com outras coisas, para amenizar, e perdemos sim olhares, um momento exigente, uma sensação na qual podemos estar fazendo falta na vida deles. Enfim, coisas da vida das novas famílias. Mas não acho que somente os filhos de pais separados saem para viver suas vidas deixando seus pais desasados. Ouvi falar de ninho vazio na minha vida, nas primeiras vezes, de pais convencionais. Então essa me parece uma realidade de todos.

Dito isso, não acho que existam bons filhos. Existem filhos. Existe a maternidade e a paternidade na sua concepção de gerar, acompanhar por um tempo e deixar voar. Sem amarras e expectativas de retorno, ou de que a troca seja justa. Porque não é justo. Aquela cena não era e a realidade cansativa e dedicada de pais e mães não é. Só posso pensar que é um milagre da criação. Algo de deus ou energético que permite que façamos isso tudo, de novo e de novo, no meu caso, corajosamente, três vezes, sem questionar ou apresentar promissória. Apenas tendo fé.

Pois acredito, não existem bons filhos. Existem filhos. E existem sim, bons seres humanos. Que nessa relação diferente e segura, podem corresponder quando entenderem por bem, quando amadurecerem, quando algo os tocar diferente, ou quando forem pais e mães e conhecerem mais deste caminho. Eu com certeza aprendi mais com a maternidade. E isso já valeu, pois me fez virar para trás. Ainda me faz…

Um abraço aos pais que se despedem dos seus filhos e que largam as suas mãos, os deixando caminhar sós, levando um pedaço de si mesmos. Que não os cobram aquilo que não é obrigação darem de volta. Pois o segredo é dar sem esperar receber. Apenas dar, por amor.

Evoluo nisso, a cada passo curto. Me preparo para isso, diariamente. E assim mesmo, sei que vou chorar. Pois ainda dói pensar e escrever. Então, outro abraço. Fazemos diariamente milagres.

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