Fui pega de jeito em um filme na sexta-feira passada. Uma escolha despretensiosa, em meio a lançamentos polêmicos e sedutores do Netflix, que chamou a atenção pelo seu nome. “Beleza oculta”. Gosto disso, da beleza que é oculta. Do que exige sensibilidade para ser contemplado e reconhecido. Que não é óbvio. Torna a beleza mais profunda, impactante e transformadora.

No filme, vidas cruzadas traziam problemas tão diferentes… Sobre a gente no tempo, a gente no amor, a gente e a morte. Três coisas tão diferentes e ambas tudo. Tudo na vida daqueles personagens do filme, e que se trouxermos para a nossa, assim também serão. Onde residem nossas mais genuínas preocupações e vulnerabilidades. Tudo o que queremos controlar, o que desejamos para nós, o que queremos evitar por medo. Lindo de se ver como nos barateamos tanto com valores que o dinheiro e o sucesso não compram. E que são claramente tão maiores do que eles quando colocados em cheque.

Mas além da reflexão bacana do tema trazido pelo filme, ele trouxe filhos e recomeços. Tragédias e recomeços. Afetos e recomeços. Recomeços, e em todos, uma beleza oculta, difícil de identificar no meio do sofrimento, mas ali. Transformadora, provocadora e fortalecedora de pessoas e vidas.

E não é assim? Mesmo nos horrores?

Sempre há beleza oculta em tudo o que somos e vivemos. É como eu sinto, nas vivências que passei. Há beleza na vida e também na falta. Na história que se fez, mesmo ela não sendo eterna. Simplesmente porque há sentido em tudo, seja nas conquistas, seja nas perdas e nos fracassos. A gente perde porque precisar perder, alguém ganha porque precisa ganhar. E muitas vezes somos os “escolhidos” e não sabemos o “por que”. Estão todas as vivências aí para nos ensinar a buscar alternativas, a construir de novo e diferente. Porque é preciso, por não estarmos aqui por acaso, por ser necessário se transformar muitas vezes, e muitas vezes a um ambiente, a uma família, a uma época, a comportamentos. É preciso morrer, para renascer. Cair para levantar. E assim, há aprendizado. Na dor, no sofrimento e no amor. No tempo.

Não quero dizer que perdas são boas. Nem de coisas e muito menos de pessoas. Nunca será, e nem sempre fica tudo bem. Acredito apenas que há uma beleza oculta em cada passagem. Seja no fato, seja na transformação que ele gera, nos valores que ele faz crescer ou mesmo que faz serem percebidos. Tudo depende do olhar. E talvez por isso a grande mensagem do filme é que a gente não deixe de perceber a beleza oculta na vida.

Ninguém merece viver a desgraça, afinal. Ou alguns são mais especiais que outros para merecer presentes, enquanto tantos perdem todos os dias? Pessoas boas se vão, casais sofrem com divórcios, filhos são distanciados de pais, doenças e violência matam.

E a beleza oculta resta como um presente, esse que a vida dá, em meio aos desafios.

Então o filme trouxe a frase: “Os filhos não têm quer vir de você, eles têm que passar por você.” Uma afirmação profunda e disruptiva, não só para as inúmeras constelações de novas famílias, que por sua natureza, misturam pessoas de origens diferentes. Mas para pais biológicos que criam filhos para o mundo. Os quais simplesmente passam. E como ouvi outro dia, entram em um processo de distanciamento e despedida, que começa no dia em que nascem. Convidando pais a um novo olhar, mais otimista, e a uma realidade incontestável. Frente ao tempo, ao amor e à morte.

Eis que no dia seguinte, chorei que me lavei. Era a Formatura da minha afilhada, daquelas filhas que passam pela gente na vida. E ali, senti um orgulho e uma gratidão por ter o privilégio de fazer parte da história dela, que me tocou profundamente. Mas chorei pelos filhos dos outros também, por completos desconhecidos. Pelo orgulho que sentiram ali de si mesmos, por poder estar lá sentindo a energia de famílias vibrando pelos seus. De famílias vibrando por outras famílias. Do amor e fé geral que pairavam no ar, enquanto cada nome era chamado. Fé nas pessoas e nas histórias de cada um.

Conheço essa realidade de perto. A vivo em casa, atenta. Chorei ali pelo que fui naquela fase, pelo que sou hoje como mãe e ser humano, e pelo que eu tenho como construção na vida. E mais uma vez vi meu marido chorar por quem não veio dele. Pelos filhos que a vida trouxe. De passagem, por tempo não sabido, com amor não medido ou seguro. Não foram poucas as vezes que vi nele emoção, raiva ou instinto de proteção pelos filhos meus com outro pai. Afetiva, financeira, emocional, tudo que a posição de um pai pressupõe. Não são poucas as vezes que vejo esse sentimento de pertencimento no amor da minha tia pelos meus filhos, ela que escolheu não ter os seus. Não são poucas as famílias de afeto que eu acesso e conheço. Quem abre mão dos seus por outro alguém ou quem abre mão de não ter nada pela vulnerabilidade de amar alguém que chega. Sem a segurança aparente e falsa do “é meu, é meu, e assim será”.

Que exige coragem e um trabalho afetivo que se transforma e exige todos os dias. Sem controle sobre o tempo, o amor e a morte.

Não são poucos os vínculos além do amor de um filho gerado…

Então faz sentido eu te sugerir o exercício de abraçar o novo. Os que chegam. Abrir o coração para os vínculos e afetos, com amor livre. Independentemente do tempo que ficarem, do tamanho dos desafios que oferecerão, das possíveis perdas. Aproveitando cada segundo do tempo. Cada preenchimento o qual nos permite o amor e suas cores. Além da falta de controle sobre a morte. Além da possibilidade do fim.

A vida traz gente, por vários meios. E esse ainda é um valor imensurável que só percebemos quando não temos mais. Não perca as oportunidades de afeto e de troca. O retorno para o coração vai muito além do que qualquer outra oportunidade oferecida nessa jornada, em qualquer área. Porque dá sentido a ela, à vida, nos eleva enquanto seres humanos e nos faz vivos. Nos ensina a compreender o que nos ocorre. Nos dá memórias e a capacidade de identificar a ideia do bem, a beleza oculta.

Nos dá a vida para a qual viemos, afinal.

E se faz se sentir vivo, nada pode ser mais valioso. Se trata do pote de ouro… Aquele do final do arco-íris:)

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