Burnout

Lya Luft escreveu no último final de semana que a vida é uma mãe. Uma mãe caridosa.

Ontem tirei a minha filha de quase dois anos aos berros de uma loja, por não me obedecer e tentar incessantemente pegar os sapatos da vitrine. A puni por seguir repetindo um comportamento, mesmo sob minha firme reprovação. A tirei do passeio e a levei para casa. Neste momento entendi o recado da experiente Lia. A vida é uma mãe. Ela nos mostra o caminho e nos tira coisas e pessoas como castigo, nas situações que insistimos em errar.

A vida é uma mãe como eu. Amorosa, e às vezes, severa. Pronta para ensinar, mas tantas vezes objeto do aprender. Porque a vida ensina, mas também aprende com a gente, e por isso a merecemos de uma forma ou de outra.

Tenho Burnout, já ouviu falar? É um tipo de crise de ansiedade, que tira o ar dos meus pulmões e me deixa roxa. Já fazem pelo menos dez anos que tenho crises pontuais, em momentos tensos, que exigem muito de mim, muito da minha administração.

Administração… Que palavra sacana.

Por conta dela entro em erupção vez ou outra. Pois ao invés de resolver objetivamente algumas coisas, opto por administrar, na busca de paz. Como se assim fosse, como se não tivesse jeito. Como se o caminho possível sempre fosse administrar o problema para não sujar a cena, não vazar. Quem nunca? Você não? Ou você resolve todas as coisas às que propõem essa vida professora e aprendiz?

Pois bem, como disse um dia desses um palestrante sobre o comportamento humano, eu entro em erupção como um vulcão. Explodo. E não nos outros, o que é uma peculiaridade do meu vulcão de estimação. Explodo por dentro e mato a minha saúde, o que começa a aparecer em crises de esofagite e gastrite.

Então venho a mais de quarenta anos tentando aprender a não administrar. Administrar a vida é uma covardia. Merecemos mais. Merecemos sentar e resolver, como tentam tantas mães, parceiros, e um punhado de bons filhos. Senta e trata. Resolve do jeito possível, do jeito que dá. Estanca a sangria, a sequência de erros. Dá conta. Não é um conselho o que estou oferecendo aqui… É uma missão minha comigo mesma, que divido com vocês.

Então, semana passada, entrei em crise. A minha vida amiga, mãe, vem tentando me ensinar e eu resisti mais uma vez. Sempre achando que poderia estar no controle de tudo. Mesmo cercada de pessoas, com personalidades e posições próprias e poderosas, peculiar às pessoas de verdade. Não tenho o poder de dominar situações, sensações, dores, então entrei em erupção. Envolvida pela falta de poder, de instituir a paz a meu bel prazer e opinião, nas cenas minhas e da minha família, não consegui administrar, por óbvio.

A vida já tinha me avisado que eu não poderia. E eu caí de novo.

Como o filho que segue jogando bola dentro de casa, mesmo com as negativas da mãe, e de repente perde a bola. Segui jogando, tentando administrar. E aos mais de quarenta anos, me vi sem ar. Burnout de novo. Castigo da vida, ou aula. Ensinamento. Porque não tem idade essa coisa toda de errar.

Só que dessa vez eu sabia… Foi como ouvir a mãe falar de fogo, que queima, e eu repetir a investida contra ele. Errei sabendo que estava errando. Porque na tentativa de burlar a vida, de sacanear a mãe, tentei evitar o aprendizado e suas consequências. E só se trata de mais uma matéria da minha vida de mãe e mulher. Só mais uma, contra a qual tenho que parar de lutar, reconhecer e aprender o melhor caminho de atravessar. Um jeito com os filhos, uma forma diferente com a relação de amor, mas principalmente, um respeito imperador comigo mesma.

É só isso que a minha mãe queria me dizer. Essa tal de vida só está tentando me melhorar, como eu tento com a minha filha na loja de sapatos, no respeito ao que é do outro, ou com o meu filho e sua bola a picar entre os espelhos da minha sala… Só tentando me melhorar.

Então deixei meu corpo leve, levitar. Na praia, caminhei pelas águas as sós, ouvindo só o vento e as ondas. Havia música e gente, mas eu não escutava. Me entreguei, ali, à minha mãe. A permiti me acalmar com sua natureza materna, me abraçar, e a me trazer o ar de novo. Enchi meus pulmões do amor que ela tem a oferecer a todo o tempo quando me possibilita recomeçar, fazer de novo, melhor hoje. Na sua caridade em me oferecer luz e um dia novo.

estali vi que o negócio é belo mesmo. Essa tal de vida, mãe da vida da gente… Essa que nos trata com oportunidade de evolução todos os dias. Que nos chama a atenção para o ponto doente na gente, nos freia, com desafios, faltas de ar, crises de pânico, perdas às vezes irreparáveis. Que nos oferece o degrau para voltar e, logo na frente, o de subida para transpassar os desafios. Ela é uma mãe, com certeza. Como eu, que acolho, crio momentos felizes, mas também castigo. E erro. Demandando que os meus filhos me deem eventualmente mais do que entendo necessário, arrogantemente, ou simplesmente, mais do que mereço. Mas que peço de tantas maneiras.

E na sua infinidade de possibilidades, nos dando a vida, o mundo como jornada, não pode ser mais bela essa coisa de viver. Nos devolve a todo o momento esperança em seguir, e ar para respirar. E precisa de mais!?

Grata a ela e aos meus castigos. Seja qual for a dor, mais uma vez, a vida me mostrou o azul e o colo. Horizontes. E me preparou para seguir andando. Como espero poder fazer pelos meus três pequenos, humildemente, e também, me permitir aprender com eles.

É assim que a coisa toda me parece. Ou eu seria só vítima, e me caberia arroxar de vez e esperar o ar me faltar… Cadeira essa na qual não quero sentar.

Então tá… respira aí. Se a coisa está difícil, a sua mãe está querendo te dizer alguma coisa. Escuta com calma e te permite o amparo para levantar e recomeçar. Tem uma nova oportunidade aí na frente, e como diz o velho ditado, “após a tempestade, sempre vem a bonança”.

Aquela que é só nossa, e que está reservada, nos esperando em algum lugar, no qual só chegam os vulneráveis, e corajosos:)

2 comentários Adicione o seu
  1. Estava precisando ler isso hoje!!!
    Depois ainda me dei conta que é dia 13, meu número de sorte…comecei enxergar coisas boas e de outra forma!
    Tenho o blog salvo nos “meus favoritos” e qd “aperta” ou qd sobra um tempinho, vou espiar se tu escrevestes algo e bingo! Me deparo com este texto, cheio de significados para mim!

    Qd comecei a ler “a vida é uma mãe”, discordei! Pensei mãe é colo, é carinho, é tudo de bom e aí lendo um pouco mais, achei perfeita a “comparação”, embora eu tenha grande dificuldades em dar castigos, etc.

    Tem coisas que eu fico pensando, mas pq precisei passar por isso, foi tão ruim, o que eu tinha para aprender com isso, até agora não vejo nada de bom..me vitimizando ou até (inconscientemente – me dei conta agora – me achando tão boa a ponto de não merecer aquilo), mas se eu olhar por outro ângulo, mesmo ainda sem entender pq tive que viver tal coisa, por outro lado, a vida me “tirou aquilo/daquilo/daquela pessoa”, ela me deu colo, amparo e ajuda que eu precisava, a escolha foi minha em insistir e voltar, quebrei a cara, pq não queria aprender o ensinamento, a lição, mas depois de uma, de duas, a gente aprende…custa, mas entende, aceita, aprende…e surge mais forte!

    A vida mostra caminhos, tira coisas e pessoas para ensinar e a gente não aprende, repete os erros…pensei nossa, é isso! E realmente isso é viver, que bom que temos novos chances de fazer diferente, todos os dias, a cada respiração…hoje não estava num dia bom, cheguei a dizer para um amigo que estou tão desacreditada em tudo que sempre quis, sonhei e acreditei sobre relacionamentos (de homem e mulher) e não existe nada mais triste do que alguém nos fazer parar de sonhar, mas teu texto me deu uma chacoalhada…

    Tem novas oportunidades aí na frente e eu estou pronta para elas!
    Vou estar mais atenta aos sinais, aos ensinamentos da vida…
    Depois da tempestade, vem a bonança!

    Obrigada Ju! bjão

  2. Nossa que aprendizado, passei por momentos assim, crises de pânico, falta de ar, a partir do momento em que decidi me separar…
    Agora com muitos desafios, perdas, ganhos, momentos tristes e mais momentos alegres….. é dificil.
    Penso que estou, ainda amadurecendo, criando cascas. Nada é por acaso. Realmente a vida é uma mãe, e como toda boa mãe, cuida, quer o melhor, por isso precisamos mudar, transformar.
    Você abriu um leque de possibilidades, de porquês (respostas) em minha mente.
    Grata 🙂

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