Eu não sou “todo mundo”

Li no grupo de whatsapp da turma de escola do meu filho, que todas as crianças estavam estabelecendo rotinas diárias de estudo, acordando cedo e envolvendo-se com as tarefas, horas a fio. Então entrei na sala de TV da minha casa, e disse isso ao meu filho, meio preocupada, meio provocativa, enquanto ele jogava videogame. Aí ele me retrucou:

– Mas eu não sou “todo mundo”, mãe.

Não, ele não é. Nem eu sou, ou preciso ser.

Sabe o que mais está me ansiando, e tenho a impressão de que pode estar ansiando você também? Ter que fazer alguma coisa neste isolamento. Algo produtivo, criativo, que faça com que não percamos tempo. Ter uma ideia magnífica ou uma produção monumental para entrarmos “matando a pau”, no bom sentido, no novo mundo que nos espera. Considerando que, afinal, se ganhou tempo com esta “quarentena”, que antes não se tinha.

Que simples…

Vejo “stories” nas redes sociais sobre quem arrumou seu guarda roupas. Gravou treinamentos on-line, construiu uma ideia de negócio para quando tudo passar, ou malhou tanto que, quando tudo isso acabar, vai praticamente ser um atleta ou ter um tônus como nunca antes visto. Há quem esteja estudando, assistindo a séries inteiras no Netflix ou enchendo as redes sociais de opiniões.

Nada de errado com quem escolheu um destes passatempos como um passatempo. Afinal, o tempo é democrático e individual. Cada um faz o que lhe serve, o que se sente capaz física e emocionalmente. Só que a receita, como em tudo na vida, não serve para todos, quando se trata de pessoas, e não “bolos”.

Há quem se abata. Há quem se depare com uma rotina que exija mais do que se sinta capaz. Há quem tenha várias pessoas amadas com as quais precisa lidar neste momento de stress, em confinamento em casa. Há quem precise chorar, imaginar cenários, assistir às notícias para poder acreditar que é isso mesmo que está acontecendo. Há quem precisa de tempo para pensar, amadurecer e crescer com tudo isso. E nesse tempo, se está também aprendendo na crise.

Nessa linha, lembrei de cara do filme “comer, rezar e amar”. Júlia Roberts precisou de tempo para se tornar uma mulher melhor, entender sobre si, sobre suas experiências e dores, e assim, poder reconstruir um caminho diferente. Ela passou meses comendo, outros meses meditando e outros andando de bicicleta e aprendendo sobre valores novos com o seu novo “guru”, e seus temas de casa simplórios, até que realmente se transformasse.

Se trata de um filme, mas levanta a mão quem se identificou, por favor!?

Aquele filme retratou a vida real da gente, exceto pelo fato de que ela simplesmente “pôde” fazer aquele caminho internacional e fascinante, com recursos e sem filhos, por ser ela na vida e Deus.

Pois então. Esquece o cenário bacana. Mas aquelas cenas retratavam a vida. E aqui falo da emoção, dos dilemas e culpas. Falo da sensação de incapacidade que precisa ser superada. Mas principalmente do tempo que alguns de nós precisam para se ver em uma cena diferente, e nela, agir de forma realmente nova. Porque não pensem que para fazer algo novo sairemos do mesmo modus que vínhamos imputando na vida até hoje… Precisa de tempo para se descobrir um ser capaz do diferente, principalmente quem traz consigo uma turma de gente que simplesmente ganhou um voucher, sem escolha, para acompanhar você nessa.

Vivi as últimas duas semanas tentando tocar a vida, os negócios, a casa, a minha relação de amor e os meus três filhos, levando em consideração uma possibilidade de epidemia que mata de quinhentas a mil pessoas na Itália, na Espanha e nos EUA, a cada dia. Nesse contexto, me sinto ansiosa. Não sei sobre esse tipo de crise. Não vivi antes ataques à minha saúde, dos meus filhos, marido e pais. Não vivi em qualquer tempo a possibilidade de perder pessoas que eu amo em bando. Nem que isso pudesse ocorrer em meio a uma crise financeira que ameaça a comida na mesa da minha casa e na casa das pessoas desse mundão. Fora a natural falta de segurança pública na maior das escalas, assim como dos empregos, o que ataca também a nossa integridade .

É a primeira vez. E ao contrário de uma entrevista de emprego, para a qual me visto e me preparo emocional e tecnicamente, ou de uma noite especial com o meu marido, para a qual escovo as minhas madeixas e me ponho bela e sensual, não estava preparada para o que estamos vivendo agora. De verdade. A mim, parece o fim do mundo. Uma guerra. Aqueles pontos da história que definem o antes e o depois na vida da gente. Não importa quanto tempo leve, nem o estrago, o fato de vislumbrarmos essa possibilidade já é um marco. Assusta, congela, depois derrete, leva ao chão, convida ao choro, a busca de alternativas e a retomada. Processo normal, só que considerando cada passo, sem atropelos.

E sabe porque? Porque qualquer coisa que se fale será apenas especulação. Porque não sabemos quem seremos nem quem serão as pessoas a nossa volta após essa crise. Como viverão, como consumirão, como serão com seus afetos, depois de viver o pavor de perdê-los. Como serão os processos de aprendizagem, que condição terão para fazê-los e em que cenário estabelecerão suas profissões e negócios. E porque atropelar não leva a nada, nem a outro patamar.

Se tem uma coisa que eu aprendi nessa vida é a importância do sentir. De perceber a dor, de entendê-la, de buscar a ideia do bem de tudo, de separar os desafios, escolher as batalhar e construir estruturas sólidas para o recomeço. E de entender, que cada um tem uma vida, uma história e uma rotina própria. E isso eu aprendi na prática. Por viver o desabamento na minha história, e na de muitos e muitas por aí.

Então, não se afobe e não se cobre. Estamos fazendo todos, o possível. E se este estiver te respeitando, na tua intimidade, como indivíduo, então estás vivendo o melhor isolamento possível. Aquele que busca entender o que está acontecendo, e que não se faz só pela televisão, nem pelas redes sociais, nem pela rotina de metas e atividades. Mas pelo teu prisma, pelo teu coração.

E se para alguns a melhor forma de fazer este mergulho é malhando loucamente, escrevendo, gravando, estudando, tirando fotos, arrumando a casa, ou disseminando a sua opinião nas redes, está okay assim. Afinal, em tempos de crise, cada um faz o que pode. Mas que não seja uma receita a seguir, nem a cobrar do outro. Simplesmente porque não temos em nós ingredientes exatos, medidas, que nos façam iguais, e processos de mesmos resultados. E esse é o maior dos mistérios, e o mais valioso da raça humana.

Aqui a coisa não está fácil, não vou negar. Estar em casa com crianças de tantas demandas diferentes, trabalhar e pensar no futuro, tudo junto, e cheia de anseios, e sair só de vez em quando para buscar comida no supermercado, de máscara e luvas, tem sido um desafio e tanto para mim.

Mas a ideia do bem?

É que estou fazendo o que eu posso. E que este se trata de mais um desafio novo, desconhecido, mas ao qual devo todo o meu respeito e enfrentamento. E estes envolvem não desmerecê-lo. Diminui-lo, fingindo que tudo estará igual, e que quando passar venceremos todos.

Envolve entender que faz parte da vida perder. E já estamos perdendo. E que a diferença entre acolher estes momentos, senti-los e aprender com eles, ou subestima-los, seja talvez o ponto crucial da nossa evolução enquanto ser humano.

Não sei como sairemos dessa, não tenho ideia, e tudo em volta me parece especulação. A única certeza que tenho é que, no seu tempo, quem ficar seguirá andando. Pois o fluxo da vida é para frente, e é para lá que a gente vai quando tudo isso passar, exatamente do jeito que sempre foi.

Cada um a seu modo, graças a Deus. E essa é também uma definição de acolhimento e respeito.

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