O valor de um testemunho

Testemunhar à convite ou por escolha própria é um ato de posicionar-se, de se dar voz e de assumir o que sente a respeito das coisas. Um ato de vulnerabilidade. De colocar-se e ao seu modo de ver e sentir as passagens e fatos da vida de forma ativa, presente, mesmo que passível de contrapontos ou opiniões adversas. Testemunhar e escolher falar. É chamar a atenção para si, para o que tem a contribuir, ou mesmo a questionar, como pedido de ajuda.

Não me sinto estimulada a testemunhar sobre qualquer coisa ou assunto. Sou uma pessoa de opiniões, acho que isso está claro pela minha escrita, mas mais do que opiniões, tenho em mim muita conversa. Uma curiosidade de ver como a troca de pontos de vista pode me levar além sobre o entendimento das coisas a minha volta, das que me parecem mais claras, às mais obscuras. E por muito tempo tive medo de me colocar nesta “arena” de reflexões e testemunhos, na qual, por algum momento, os holofotes focam em mim, por vergonha de dizer algo que fosse veementemente contestado ou mesmo, que falasse mais do que eu gostaria sobre quem eu sou e o que se passa aqui dentro. Que me tornasse inadequada.

O projeto New Families foi uma quebra deste paradigma para mim. Foi onde testemunhei genuinamente pela primeira vez. E neste testemunho entreguei e entrego, todos os dias, posições sobre os meus sentimentos de mulher, de mãe, da vivência do meu divórcio e da construção da minha nova família. Falo dos meus filhos e com cuidado sobre a presença do pai deles e das relações que construiu. Falo do amor que descobri nesta jornada pelo homem que toca a vida ao meu lado. Falo das vulnerabilidades das estruturas de famílias que são “diferentes”, que combinam e misturam casas e vidas distintas através do afeto. Falo de sexo, de perdas, dores, levantares e recomeços, do trabalho ao coração. E estar nessa “arena” me ensinou e ensina, a cada dia, sobre quem eu sou. A cada degrau subido, ou descido, o que acontece o tempo todo, respeito mais o ser humano que habita e mim, esse “escolhedor” e “acolhedor” de coisas para a sua vida, o que me faz também respeitar mais os movimentos possíveis ao outro. E o tal testemunho me fez mais minha amiga, companheira das empreitadas que não param de se apresentar na minha frente, me permitindo mais generosidade e olhar do bem sobre as coisas como elas se apresentam.

Só que esta sou eu. E não tinha ideia do que estes testemunhos poderiam causar no meu entorno. Eis que venho recebendo testemunhos abertos de mulheres de todos os lados. Pessoas que vêm se posicionando sobre como se sentem perante as suas histórias, motivadas pela “contação” das minhas. E eles chegam através de textos, de conversas amigas e até de vídeos. Uma coisa linda de ver, que me emociona a cada relato. E não por vaidade, que fique claro, pois falar de assuntos profundos e doídos nossos, e mesmo dos felizes, seria uma exposição totalmente desnecessária e que não exige aplausos, acreditem. A minha felicidade genuína em receber testemunhos é pelo fato de ver a arena onde estou cheia de gente como eu. De não me sentir mais a “diferente”, o “patinho feio”, a mulher que não deu certo ou a mãe que desmanchou a família original dos filhos na busca de construir outra que fizesse mais sentido.

Com os testemunhos passei a me sentir acompanhada, de verdade. E se vale mais um aqui, queria dizer de antemão, que o fato de ouvi-las e vê-las nestes registros, posicionadas, faz tão bem para o meu coração que às vezes me perco na autoajuda que o New Families se tornou para mim, além do seu propósito de amparar outras novas famílias, outras mulheres na construção desse caminho.

Recebi vídeos de amigas da adolescência que me acompanham de longe. Todos temos nossas sombras, sensações de insuficiência ou mesmo a necessidade de reflexão, e isso não acontece apenas através da vivência do divórcio. Recebi relatos de mulheres em vários momentos da jornada após uma separação com filhos, e me emociona o fato de muitas terem se sentido acariciadas pela presença das histórias tão familiares deste projeto. De as usarem como luz nos seus túneis escuros já que, de alguma forma, ando de posse do meu lampião um pouco mais à frente. Tenho relatos de amigos que se afeiçoaram ao propósito de amparar este momento da vida das famílias e constituíram parceria forte e entusiasta da construção da felicidade no depois e das ideias do bem sobre cada fim e cada recomeço. E recebi histórias… muitas. Vivências particulares de Julianas, Marias, Camilas e Anas, que contarei aqui, com a anuência delas.

Afinal vivemos variações das mesmas dores, mas variações. Histórias diferentes e surpreendentes de força e superação, o que precisa ser compartilhado mesmo que sobre “anônimas”. Mas essas são crônicas as quais estou construindo e evoluindo a várias mãos, e que logo aparecerão por aqui para formar um mosaico de experiências e inspirações.

Só que eu recebi um testemunho inesperado e especial, e que tem um valor imensurável. Na movimentação de relatos chegando, e nos meus comentários emocionados quanto à minha surpresa e carinho com cada um deles, recebi da minha filha Joana um bloquinho escrito a lápis grafite, no último sábado à noite. Perguntei o que era, se era uma cartinha, pois somos as “rainhas dos bilhetes” aqui em casa. E caí sentada quando ela me disse que aquele era o testemunho dela para o New Families.

Não acreditaria se não o tivesse nas minhas mãos. A minha filha, que junto com o seu irmão Joaquim constituem a maior inspiração que tive para testemunhar e iniciar este projeto, escreveu um testemunho dela como filha de pais separados e como percorreu o caminho de reconstrução dela, pessoal, como indivíduo e parte da sua nova família.

E ele diz assim:

“Ver meus pais se separando foi uma dor imensa, mesmo eu não tendo sentido tanto no momento em que aconteceu. Graças ao meu pai e à minha mãe, que deram a mim e ao meu irmão uma outra visão sobre tudo, melhor do que poderia ser. O lado das crianças de ver é muito diferente pois nem tudo o que nos contam é a sincera verdade, como quando eu perguntava: Mãe, você está bem? E a resposta positiva não fazia sentido, pois dava para ver que eles não estavam bem ainda, e no fundo, eu também não estava. Mas eu só fui sentir a dor, no meu segundo ano, quando comecei a recordar da minha vida de antes e senti saudades. O tempo foi passando e fui pensando em como as coisas seriam se estivéssemos como éramos antes, e assim fui organizando os meus pensamentos com a vida que passamos a ter depois. Devagarinho vi a vida dos meus pais mudando. Fizeram novos amigos, parcerias e novamente estavam felizes. Com isso fomos formando uma visão diferente, totalmente nova da situação, e ver os meus pais felizes colaborou muito. Eles foram construindo uma nova vida e hoje tudo está certo, como eles disseram lá no início que ficaria: Vai ficar tudo bem… Então agradeço aos meus pais e minhas famílias, velhas e novas, por tudo. Amo vocês.”

O que dizer, senão ser apenas gratidão por saber como ela se sente, e por escrito? De conhecer a posição daquela que esteve comigo na arena o tempo todos, e que pude perceber por pequenos atos e desabafos antes de dormir, mas nunca de forma organizada e testemunhal?

Não o trouxe para analisa-lo. Tive o consentimento da menina que me entregou o seu testemunho para o projeto New Families em um bloquinho amarrotado, e que por privilégio meu, é minha filha. E o respeito em cada linha, cada palavra corajosa que saiu do seu coração, e que desceu pelas suas próprias pernas até a arena dos afetos e das reflexões sobre a vida. Ele está aqui em respeito a ela. À sua coragem e vulnerabilidade. Quando não teve vergonha de falar sobre como se sentiu e como se sente, nem sobre a saudade que eventualmente a acompanha, nem sobre o reconhecimento do que ficou melhor.

E esse testemunho não tem preço. Nenhum dos quais recebi tem. E era disso que eu estava falando… Da arena, do posicionamento, da coragem, do enfrentamento das próprias vergonhas, da evolução que isso traz… E da minha filha nela, da minha Joana. Que decidiu por conta própria contribuir com o projeto das novas famílias, que fala com aquelas como a dela.

Ouvi de uma amiga, a qual respeito e amo muito, que se há uma certeza na vida, é a de que vamos errar como mães. Concordo com ela… Então que seja. Mas na arena. Testemunhando,  aprendendo e inspirando.

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