Você vai destruir a vida dos seus filhos

Essa foi a frase mais cruel e impactante que ouvi quando decidi pelo meu divórcio do meu primeiro casamento. Ela veio de um homem que eu respeitava e respeito, e daquele momento em diante, como primeiro efeito, ela foi um pesadelo.

Imagine você viver com a acusação de que o sofrimento dos seus filhos na vida ocorre por culpa sua?

Depois virou o maior foco da minha atenção, reflexão e cuidado, pois não queria destruir nada que fosse deles, já que somos parte uns dos outros ou eles, pelo menos, partes de mim. Hoje, é minha inspiração para a maior luta da minha vida. A luta contra o desencorajamento.

Ouvimos frases como estas desde crianças. Palavras que muitas vezes passam uma vida inteira transitando na nossa mente e emoção, tirando o nosso poder vital de sermos o que desejamos, de aceitarmos as nossas vulnerabilidades, de lidarmos com as nossas vergonhas, com a nossa autoconfiança e com os caminhos que escolhemos como jornada para nós, sob nossa responsabilidade. Sejam nas “retas” que realizam, sejam nas curvas que desafiam.

O desencorajamento nos impede de acolhermos quem somos e confiarmos no que queremos. De darmos ouvidos à voz que sussurra dentro da gente quanto ao melhor lugar, melhor pele, melhor lar para construirmos casa, estada. Nos tira a confiança, quando precisamos seguir em frente após grandes mudanças ou frente a necessidade de capitaneá-las. E no meu caso, era sozinha com dois filhos…

Que injusto. E que irresponsável o ato de dizer a uma mãe que estará destruindo a vida de seus filhos por uma decisão adulta de reestruturação, quando o instinto mais forte de uma é protegê-los. Mas a vida não é justa afinal, então lidemos com ela e suas surpresas e frases de impacto.

Acho grave demais os efeitos do “desempoderamento” que sofremos na posição exigente de “mulher” neste mundo no qual vivemos, ainda tão desequilibrado no que tange o respeito a essa peça vital do “quebra-cabeças”, e que possui tanto a entregar à sociedade. Existem estudos que comprovam que os lugares com maior pobreza, miséria, doença e violência, são aqueles nos quais as mulheres foram “desempoderadas” e colocadas na marginalidade. Sem poder de escolha, de voto nas decisões que envolvem seus próprios filhos, casamento, planejamento familiar, cuidados com a saúde da família, com a sua própria, além da total falta de autonomia para o exercício de qualquer atividade remunerada. Como diz Melinda Gates, escritora e ativista pelo direito das mulheres em situações de alta vulnerabilidade no mundo, se você quer elevar a humanidade, “empodere” as mulheres. Este é o investimento mais amplo, universal e com maior potencial de alavancagem que podemos fazer pelo bem do ser humano.

Que profunda e que verdadeira essa leitura da presença da mulher no mundo. Só que além de trazer para você essa verdade minha, a qual eu acredito e a Melinda também, queria dizer que neste caminho todos são vitais e responsáveis pelo sucesso que desejamos a essa empreitada de “empoderamento” da mulher. Que essa não é uma luta só de mulheres. Que essa é uma realidade que precisa da força da sociedade e dos homens que estão nela, inclusive. Daqueles que reconhecem este poder, que compreendem a importância da contribuição que ele gera no mundo no qual vivemos, nas famílias, nos ambientes de produção e construção de ideias, na abertura de caminhos. Com qualidades que são nossas, individuais e enquanto gênero, e que se somam aos esforços de todos que desejam um mundo melhor, mais igualitário e menos miserável no sentido mais amplo da palavra.

Era só o que eu desejava para mim e para eles… Um mundo melhor para nós, que começasse na nossa consciência, no acolhimento dos nossos afetos. Depois na nossa casa, naquela que abrigava a nossa nova família, de novo formato. Sem exclusão, mas com respeito aos meus ideais de mãe e mulher daquela nossa conjunção, de adulto de referência, de condutora daquela parte de vida nossa. E que merecia ser respeitada pelo simples fato de ser “nossa” e estar buscando melhores acomodações para os nossos sentimentos e para tudo que eu ainda acreditava que a vida poderia nos proporcionar, além das paredes que nos cercavam, do modelo no qual vivíamos.

Me “empodero” hoje com a frase proferida pelo “desempoderador” que a dedicou a mim, e que representa a tantas frases que escutamos na travessia das disrrupções e recomeços. Tão peculiares no caminho de quem vive um divórcio. Tão ignorantes, sem ofensas a ninguém… Mas tão desprovidas de conhecimento sobre outras verdades e os efeitos devastadores e diminuidores da sua crença.

Em muitas vidas elas são terra, e por isso “enterram” sonhos e esperanças de fortalecimento e recomeços do bem. Desejo que, “empoderadas” de verdades do bem, que confortam, que nos reconhecem e nos representam, essas frases sejam asas, e não terra. Que às ponham a voar em direção ao que é desejo para vocês, individualmente. Ao que é a sua fé, ao que a leva e eleva pela vida afora.

Ninguém tem este poder de nos desempoderar, de nos tirar o direito de existir, principalmente dentro na nossa própria casa, do ambiente onde colocamos a nossa força, habilidades e talentos, seja ele qual for. Com relação ao nosso corpo e a nossa saúde. No nosso mundo particular. E com relação ao maior amor que há, e que dedicamos incondicionalmente aos nossos filhos.

Este é um poder que reside em nós e que nada nem ninguém nos tira, além de ser capaz de gerar frutos inesperados…

Em mim, a liberdade de escolher o meu caminho, de pensar a respeito de cada passo e poder compartilhar com outras pessoas no New Families. Com os meus filhos, o nascimento de uma relação honesta, humana e de co-criação. Na minha vida de mulher, a busca diária pelo que me acolhe, às minhas dores, e me faz feliz com os meus amores.

E se isso pode levar a destruição da vida deles… acho pouco provável, de verdade. Pois se trata de encorajamento e de ideias do bem, e isso não destrói em nenhum mundo. O contrário, sim.

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