Mãe, amiga, ou “mãe amiga”?

O mais difícil de ser mãe é ter que escolher entre ser apenas ela ou ser, além disso, também uma amiga para os filhos. Confesso que a minha tendência natural e desejo genuíno, por conta de toda essa conversa que há em mim, seria poder ser às duas coisas para eles. Uma mãe zelosa, presente e orientadora, e uma amiga impulsionadora, aberta e parceira de aventuras, nas “boas” e nas “ruins” da vida.

Ocorre que só de levantar a minha “lista de desejos” já fica claro que por mais que eu tente permear nestes dois mundos, da mãe e da amiga, a minha escolha me parece óbvia além de antiga, feita lá atrás, quando decidi pela maternidade.

Essa função se sobrepõe a tudo quando penso que eles podem ter vários amigos, mas que mãe, eles só terão uma. A mim. E por este motivo não posso me dar ao luxo de querer ocupar o lugar de outra pessoa qualquer dentre os seus afetos, não menos importante, mas que pode ser conquistada durante a vida e no limite de envolvimento que se desejar estabelecer. E este definitivamente não é o meu caso, o caso da mãe.

Tenho a consciência de que o meu papel é dar a eles o que precisam, não o que desejam.

É uma relação atrapalhada com a maternidade essa, desses tempos modernos… Percebo que talvez para a minha mãe tenha sido mais fácil neste sentido, quando criou suas filhas em uma época em que a missão dela era claramente só a de “maternar”. Não se era exatamente “amiga” da mãe quando eu era criança. Nenhuma amiga minha tinha na sua mãe algo além dela mesma no seu papel de adulto de referência. De origem, ninho, acalento, orientação, informação, e tudo isso em uma atmosfera de certa “rigidez” que permitisse ficar clara a existência de uma hierarquia que envolvia principalmente a “responsabilidade” dessa função como força geradora, além do amor.

Talvez esse seja o divisor de águas entre a amizade e a maternidade que as impeçam de se “misturar” exatamente, ou lhes dão limites de entrosamento que nem sempre são claros. Querer bem, dar escuta e apoio, ou mesmo consistir em parceria em determinadas vivências, são características “amigas”, digamos assim. Mas só elas não definem o papel de uma mãe na vida de um filho. Mães, por grande parte da sua maternidade não são conselheiras, mas orientadoras. Responsáveis por apresentar o mundo, as relações, os afetos, os perigos, as responsabilidades, as mudanças e as possibilidades a partir delas àqueles que às têm como esteio, ponto de segurança e referência. E como seres “responsáveis”, precisam muitas vezes exigir, e não pedir. Definir, e não co-criar a respeito. Precisam retalhar, e não deixar para lá… Enrijecer, segurar, com o objetivo de frear, fazer pensar, reconsiderar e transformar o que não está bem dentro e fora, e tudo com amparo. Com um compromisso que é só dela, da mãe. Que não pode ser terceirizado, repassado a mais ninguém, já que constitui “porto seguro”, de origem e afeto que será a base, a pista de voo dos seus “seres em formação”.

Mães são as condutoras da “fábrica de seres humanos”, as “chefes de produção”, e não “colegas de trabalho” daquele tipo que divide angústias, metas, sentimentos de tristeza e alegria, frutos do que eventualmente vem de “cima”, da “chefia”, e que são vividos nessa relação em igualdade, lado a lado. As mães, não. Elas nascem com o bastão na mão. E na qualidade de referência, de responsáveis, não podem dividir os pesos da vida com os filhos, o que de fato as fazem mães e não amigas.

Vivo esse conflito diário no meu trajeto materno quando quero tanto saber e participar do que eventualmente ou definitivamente não me envolve. Alguns experimentos, prazeres e exercícios de comportamento e escolhas não são necessariamente parte da nossa relação, minha e deles. São só deles, testes no seu mundo, tropeços, conquistas e prazeres que muitas vezes desejam dividir com quem está ao lado e não aparentemente na frente, puxando o barco. E na ânsia de fazer parte e de certa forma de controlar o andamento das coisas, das escolhas deles, eu me atrapalho muitas vezes no meu papel.

Outro dia eles me pediram claramente “limites”. Não queriam conversa, nem debate. Queriam que eu simplesmente atuasse, forte e veemente, sem questionar, criar compreensão ou tentar validar a “questão” no nosso “grupo” como forma de criar concordância ou consciência. Pediram pela mãe. Pediram que eu puxasse o barco e escolhesse a direção, sem compartilhar responsabilidades. E aí me dei conta mais uma vez de que tentar ser uma boa amiga é inútil já que eu sou bem mais do que isso. Que ser uma boa mãe mais do que bastaria a eles. É do que precisam. E nessa missão posso ser muitas vezes uma boa companhia, de atitudes “amigáveis”, até lado a lado, mas uma mãe.

Enfim, tem uma boa amiga aqui para eles, sim… Não vou negar. Mas dentro de uma mãe, enorme. Mais que amiga, mais que quaisquer outras funções na vida, ou um pouco de todas elas misturadas na que é só minha, na qual sou exclusiva e insubstituível. Mãe essa que decidi ser de novo, quando respondi à pergunta que abre esse texto. Uma mãe bastante amigável, que busca não se atrapalhar mais nas lidas do dia a dia, neste que sou o”cuidado”… A cuidadora deles.

Mas caso aconteça de eu me atrapalhar… Bom, registrei aqui para não esquecer mais:)

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